O cheiro de alho refogado já tinha grudado nas minhas mãos. O som da panela de pressão chiando na boca do fogão me deixava com dor de cabeça, e a pilha de roupa para passar em cima da cadeira da sala parecia rir da minha cara cada vez que eu passava por ali. Clara estava no quarto, assistindo pela milésima vez aquele mesmo desenho repetido que ela decorou as falas. E o Dante? Sumido. Desde cedo tinha saído para resolver as coisas dele, "coisas de homem do morro", como ele mesmo dizia. Encostei os dois cotovelos na pia e fiquei ali, olhando a rua pela janelinha da cozinha. O barulho das crianças jogando bola no campinho, as risadas de algumas vizinhas na calçada e aquele cheiro de terra quente depois de garoa tudo parecia me lembrar do quanto minha vida tinha virado outra coisa que eu

