Amélie estava mais pálida que o normal e vez ou outra olhava para o policial que estava parado na porta como quem olhava para um fantasma, a ômega conhecia muito bem aquele alfa, não queria, mas o conhecia muito bem.
-Responda o médico Amélie-O policial falou atraindo a atenção de Nicolas que olhou para o mesmo desconfiado.
-Quem é você? Como conhece o Amélie?-O beta perguntou fazendo a Monteiro ficar apenas mais tensa diante daquilo.
-Sou um amigo do marido da nossa querida Amélie, delegado Samuel Ferreira, eu estava na recepção do hospital quando vocês chegaram e não pude deixar de vir ver como a ômega do meu amigo estava, afinal Jackson é como se fosse meu irmão, então a mulher dele é quase como se fosse da família-O Ferreira falou com um sorrisinho de canto no rosto enquanto encarava a Monteiro que parecia tremer diante da voz quase áspera do homem.
Samuel era realmente amigo de Jackson e também era um dos motivos pelos quais a ômega tinha medo de fugir do Marques, aquele alfa estava sempre por perto, sempre indo a sua casa compartilhar das "sujeiras" de seu marido e Jackson sempre fazia questão de usar o coronel para ameaçá-la, afinal o Ferreira era extremamente respeitado devido a sua patente e seus feitos na polícia e Amélie sabia que sempre que o alfa aparecia boa coisa não estava por vir.
A ômega nunca se interessou muito pelas conversas que Jackson tinha com os amigos sempre que eles iam a sua casa beber, jogar, ou fazer qualquer outra coisa, porém o pouco que ouvia era o suficiente para perceber que não só o Ferreira, mas todos os amigos policiais de seu marido não eram boas pessoas e muito menos bons policiais, eles mexiam com coisas erradas e se envolviam com as pessoas que deveriam prender, além disso, eram muito leais uns aos outros e essa lealdade incluía cuidar de todas as "pontas soltas" que pudessem ter em suas vidas e uma dessas pontas soltas era Amélie, não seria bom para nenhum deles deixar que a ômega contasse a alguém sobre o que passava em casa, pois se fizesse isso o Marques seria preso e isso não seria bom para imagem da polícia e para os negócios que faziam por debaixo dos panos.
Logo que o policial terminou de se apresentar Nicolas entendeu o porquê da Monteiro estar tão apreensiva e aquilo conseguiu irritá-lo ainda mais, o Barros odiava se sentir impotente diante das situações e era exatamente assim que se sentia naquele momento.
-Eu estou bem doutor, gostaria de ir embora agora por favor-Amélie falou tentando controlar seu nervosismo diante do Ferreira.
Sabia que Samuel estava ali para garantir que não falasse nada contra Jackson e sabia que mesmo que dissesse qualquer coisa o delegado iria fazê-la passar por mentiroso, afinal, quem melhor para atestar o maravilhoso caráter do Marques que seu querido amigo, o delegado daquele distrito? Ela passaria por louca com facilidade e sabia disso.
-Bom, você está com alguns hematomas na região das costelas, a maioria recente, mas outros já são antigos, então teremos que fazer um raio X para ter certeza se há uma fratura ou não, só aí posso lhe dar alta-O médico falou parecendo um pouco desconfortável diante daquilo pois os machucados da ômega eram condizentes com ferimentos resultantes de agressão e tinha ouvido o policial ao seu lado dizer que era amigo do marido da paciente, então não sabia muito bem o que fazer, só sabia que se tentasse perguntar algo do tipo na presença do delegado com certeza ouviria apenas desculpas.
-E-Eu… estava atravessando a rua quando sai de casa para ir ao trabalho e um carro acabou batendo em mim, como a batida foi de leve e não doeu muito achei que não tivesse acontecido nada demais-A Monteiro mentiu tentando acabar com qualquer possível dúvida do beta quanto a origem dos seus ferimentos, não queria que o médico ficasse lhe fazendo perguntas, principalmente com Samuel lhe observando.
-Entendi, vamos prepará-la para o raio X, lhe vejo daqui a pouco-O médico falou saindo do quarto logo em seguida.
-Eu tenho um compromisso de trabalho agora, mas vou ligar para o Jackson e avisar que você está aqui e que já está tudo bem-O Ferreira falou ainda com um sorriso no rosto por ver que Amélie sabia bem o "seu lugar" e que não falaria nada por enquanto, então o Marques estava seguro-Até mais Amélie.
O alfa saiu sem nem mesmo olhar para Nicolas, ignorando a existência do beta ali já que de qualquer forma, a presença do Barros era insignificante para si, assim que Samuel saiu pela porta a fechando logo em seguida, a Monteiro pode finalmente soltar o ar que sequer percebeu estar prendendo. Se algum dia duvidou, Amélie agora tinha certeza que qualquer que fosse a entidade que dirigisse aquele mundo ela com certeza lhe odiava. Um inferno, sua vida era um inferno do qual não podia fugir.
-Meli…-O Barros tentou falar alguma coisa que pudesse consolar a ômega, já que percebeu que mesmo que a amiga estivesse aparentemente aliviada pelo policial ter ido embora, ela ainda parecia aflito esperando pelo pior, mas sua fala logo foi interrompida.
-Por favor Nic, só… me deixe sozinha, eu estou bem-Amélie falou sem conseguir encarar o amigo apenas ouvindo-o suspirar.
-Meli, eu não quero te deixar sozinha.
-Você já fez o bastante Nic, agora por favor vá embora, você tem que voltar para o hotel antes que perca o emprego-Assim que terminou de falar a Monteiro se sentiu culpada por possivelmente ter causado tal problema ao amigo e logo em seguida se sentiu nervosa ao pensar na possibilidade de também ter perdido o emprego.
-Certo-Nicolas suspirou derrotado sabendo que de nada adiantaria insistir, pois a ômega dificilmente mudaria de ideia, talvez o melhor a se fazer agora fosse realmente deixá-la sozinha, então mesmo que quisesse ficar ao lado da Monteiro, o Barros achou que já era hora de ir embora-Eu vou voltar para o hotel, se precisar de qualquer coisa não hesite em me ligar.
-Tudo bem-A ômega finalmente olhou para o outro, forçando um sorriso em sua direção o vendo fazer o mesmo.
Amélie viu o beta sair pela porta e pode finalmente desabar em meio a toda a sua agonia. A ômega não sabia muito bem o que sentir, a dor de seus machucados não lhe incomodava tanto quanto a dor em seu peito, a Monteiro chorava como uma criança abraçando o próprio corpo sem conseguir pensar em nada além da própria culpa, pois Samuel tinha visto Nicolas ali com ela e mesmo que não parecesse se importar muito, o Ferreira com certeza falaria do beta para seu marido e o simples pensamento de ver Jackson causando algum m*l ao Barros por sua causa a deixava desolada, pois Nicolas não merecia aquilo.
A ômega já pensou tantas vezes em apenas fugir daquilo tudo, pensou tantas vezes em aceitar a oferta de Nicolas e ir morar com o beta, mas a Monteiro logo se lembrava do que tinha acontecido antes quando pensou por um momento que merecia mais do que aquela vida, quando pensou que poderia ir embora para longe de tudo aquilo, quando pensou por um momento que poderia ser feliz, ela não queria que aquilo acontecesse de novo, não queria ter que ver mais alguém pagando por suas más escolhas. Nicolas não merecia aquilo e ela não merecia ter alguém como ele ao seu lado.
Então Amélie apenas chorou sozinha naquele quarto de hospital, sem esperanças de que pudesse um dia ter paz, sem esperanças de que pudesse fugir de tudo aquilo.