No dia seguinte, Eric se levantou cansado e levemente irritado pela má noite de sono que teve, porém tinha que trabalhar, então se arrumou logo e dispensou o café da manhã indo direto para seu carro e pedindo ao motorista particular que o levasse até o escritório. Assim que chegou ao lugar viu as pessoas lhe cumprimentarem com sorrisos forçados e uma falsa simpatia notável, o Ramos não ligava para isso, em alguns momentos achava até engraçado como todos tentavam lhe agradar mesmo que claramente não gostassem dele.
Não é que ele fosse uma pessoa r**m ou algo do tipo, Eric apenas mantinha distância de todos simplesmente porque não gostava de interagir com muitas pessoas, ele preferia ficar quieto em seu canto e isso muitas vezes acabava passando uma imagem de frieza e até mesmo arrogância para seus funcionários, mas o Ramos nunca havia tratado nenhum deles com ignorância, muito pelo contrário, fazia questão de respeitá-lo pois sabia a importância de cada um.
O lúpus sabia que todos ali preferiam Bernardo ao invés dele, afinal o outro alfa era simpático e extrovertido enquanto ele era completamente o contrário.
-Bom dia senhor Ramos-Sua secretária o cumprimentou.
-Bom dia senhora Lopes-Ele devolveu o cumprimento enquanto seguia caminhando até sua sala ouvindo-a falar dos compromissos que teria durante o restante do dia, até que escutou algo que realmente não queria.
-Sua mãe ligou outra vez, disse que se não atende-lá, ela virá pessoalmente para conversar, o que devo dizer a ela?-A mulher falou pegando o Ramos de surpresa.
Eric suspirou sentindo uma pontada de pânico misturado com algumas doses de ansiedade tomarem conta de seu interior, com certeza não queria ver sua progenitora pessoalmente, não queria ter que ouvir a voz da ômega ou sentir o cheiro dela. Aquilo poderia parecer uma piada para alguns, afinal o alfa é um homem adulto o que teria de tão assustador em se encontrar com a própria mãe? Bom, o Ramos pensava assim algumas vezes, porém a resposta logo aparecia, tudo que vinha daquela mulher era doloroso para si, não importava o quanto estivesse preparado ela sempre dava um jeito de lhe atingir. Então o lúpus resolveu apenas ignorar aquilo, realmente não queria lidar com aquele assunto logo cedo.
-Por que esse lugar continua tão sujo quanto ontem?-O Ramos falou fugindo do assunto anterior enquanto passava o dedo por sua mesa o vendo ficar sujo com o ato.
-Senhor…-A beta tentou se pronunciar e encontrar uma resposta para o questionamento anterior, mas o alfa a interrompeu.
-O que aconteceu com o funcionário que cuidava da limpeza?
-Ele se demitiu por conta de alguns problemas de saúde-A mulher suspirou se dando conta que seu chefe queria apenas mudar de assunto.
-Certo, cuide disso pra mim Karen, esse lugar está começando a parecer lamentável.
-Sim senhor-Ela falou saindo da sala e o deixando sozinho.
Eric estava prestes a se sentar quando ouviu seu celular tocando, na tela do aparelho o nome de Bernardo aparecia indicando que o Almeida estava lhe ligando então ele logo atendeu.
-Já está no escritório?-O alfa perguntou assim que foi atendido.
-Sim Bernardo, aconteceu alguma coisa?
-O senhor Lima quer uma reunião para discutir algumas cláusulas do contrato.
-Por que ele quer discutir algo que já assinou?
-Bom, ele não assinou tecnicamente.
-Como assim?
-Ele assinou, mas não trouxe os papeis para serem autenticados ainda.
-Ótimo, era tudo que eu precisava hoje, que horas ele chega no escritório?
-Relaxa Eric, tudo vai se resolver e ele quer que a reunião seja no hotel.
-Por que ele quer que seja no hotel?
-Ele disse que tem algumas coisas para resolver lá e não pode vir ao escritório, mas queria discutir logo essas cláusulas então solicitou a reunião lá.
-E deixa eu adivinhar, você me ligou porque quer que eu vá?
-Estou com a agenda cheia hoje, não posso ir.
-Essa agenda cheia inclui um tempo precioso enrolado nos lençois com uma certa ômega?-Eric falou em tom de brincadeira sabendo que o amigo só lhe pediria para ir em seu lugar se realmente estivesse sem tempo.
-Você pode ir ou não?-Bernardo perguntou um pouco irritado ouvindo o amigo rir do outro lado da linha.
-Tudo bem, eu vou, avise ao senhor Lima que chegarei lá em vinte minutos.
-Certo, obrigado.
-Ótimo, m*l comprei esse hotel e já vão me aparecer mais problemas para resolver-Eric disse para si mesmo pegando suas coisas e saindo de sua sala novamente.
A reunião com o senhor Lima não demorou muito, o homem só estava em dúvida se ainda teria que arcar com as dívidas do hotel já que teve que fazer alguns empréstimos nos últimos anos para manter o lugar funcionando, talvez essa simples dúvida pudesse ser resolvida com um telefonema? Sim, mas Eric não estava com cabeça para discutir sobre isso. Depois de muito conversarem ele e o Ramos chegaram em um acordo que parecia bom para ambos.
Quando acabaram a pequena reunião Eric ouviu seu celular tocar, dessa vez era sua secretária, a mulher dizia que sua mãe estava em seu escritório exigindo que o Ramos falasse com ela, o alfa nem sequer respondeu apenas desligou a ligação e em seguida o próprio celular, ele se sentia irritado e ao mesmo tempo frustrado por não ter coragem de ir encarar a progenitora pessoalmente. "Você cresceu para se tornar um covarde, belo trabalho", pensou consigo mesmo enquanto passava a mão pelo rosto tentando aliviar um pouco do estresse. De repente todas as sensações ruins de seu passado voltaram a lhe atingir como um soco, o sentimento de abandono que sempre lhe perseguia desde que os pais lhe deixaram para trás estava ali mais presente do que nunca, o sentimento de insuficiência também estava ali fazendo o lúpus se sentir um animalzinho indefeso. O Ramos só queria um pouco de paz naquele momento.
Eric deixou o senhor Lima falando sozinho sem dar nenhuma explicação sequer e entrou no elevador do hotel apertando o botão que o levaria até o terraço, lugar esse que o antigo dono tinha mostrado da última vez em que esteve ali, ele respirava fundo, mas parecia que as paredes se fechavam ao seu redor, o alfa não conseguia sugar o ar corretamente pois este parecia ser insuficiente naquele momento, suas mãos tremiam e ele se sentia sufocado, precisava apenas de um pouco de ar. E lá estava o Ramos novamente, se vendo preso em meio a toda aquela angústia que o passado lhe trazia, sentido o desespero de ter que lidar com as emoções que tanto reprimia no dia a dia e sendo encurralado por elas. Quando enfim chegou ao terraço o lúpus caminhou rapidamente até o parapeito sentindo sua respiração acelerada normalizar aos poucos enquanto o vento frio atingia seu rosto e o silêncio lhe cercava como um bom amigo.
Assim que se recompôs o Ramos não demorou muito a perceber a presença da pequena ômega á alguns passos de si, ela estava sentada no chão enquanto abraçava as próprias pernas e escondia o rosto entre elas, o vento trouxe o cheiro de damasco até si fazendo Eric perceber que aquela era a mesma mulher que tinha visto da última vez que esteve no hotel, porém o cheiro dela estava mais fraco dessa vez, como se pudesse desaparecer a qualquer momento. O alfa tentou ignorar a presença alheia, mas não pode ignorar o soluço de choro que ouviu em meio aquele silêncio, já estava prestes a sair do lugar fugindo de todas aquelas sensações confusas que queriam tomar conta de seu corpo novamente como aconteceu da última vez assim que sentiu o cheiro doce da ômega, porém se obrigou a ficar. O lúpus respirou fundo e caminhou até a desconhecida que logo pareceu notar sua presença também já que ergueu a cabeça lhe olhando com os olhos marejados pelo choro e levemente arregalados. O Ramos ainda se sentia ansioso por pensar que provavelmente teria que ver sua mãe logo mais, porém também se sentia extremamente preocupado ao ver a outra com tanto medo e aparentemente tão desesperada quanto ele. Afinal, o alfa não era nenhum insensível, além disso tinha que admitir que aquela ômega lhe despertava certa curiosidade já que estranhamente seu cheiro não parecia deixar seu lobo irritado como acontecia normalmente.
Já Amélie não esperava que quando subisse até o terraço em busca de um pouco de paz fosse encontrar justo aquele aroma de sândalo novamente, a Monteiro só queria ficar sozinha e agora de repente tinha um estranho em sua frente a vendo chorar.
De manhã quando acordou e não viu Jackson a ômega se sentiu feliz, mas logo a dor dos novos machucados que o marido tinha feito na noite passada a atingiu, nem mesmo os remédios estavam conseguindo amenizar aquele incômodo e Nicolas percebeu que tinha algo de errado assim que a Monteiro chegou ao trabalho o que fez com que o beta lhe questionasse repetidas vezes desde então, fazendo Amélie se sentir irritada e brigar com o outro, em meio a tudo aquilo ela m*l conseguia se manter de pé, então apenas foi para aquele terraço buscando um pouco de paz.
-Você não parece bem-Foi o que o alfa desconhecido falou olhando para si com uma expressão calma que transmitia tudo menos serenidade.
O homem era lindo, a ômega não podia negar, sua voz era melodiosa e tão boa de se ouvir que a Monteiro se sentiu tentada a pedi-lo que repetisse a fala novamente apenas para ouvi-la outra vez, ele parecia forte, os cabelos pretos eram grandes e levemente ondulados, mas muito bem arrumados e os olhos, aqueles lindo olhos grandes e negros pareciam atraí-la cada vez mais. Amélie resolveu ignorar aqueles pensamentos estranhos e logo tratou de levantar sendo atingida por uma forte tontura que também ignorou.
-Me desculpe incomodá-lo senhor, já estou saindo-Disse um pouco constrangida por o outro ter lhe visto em um momento de fragilidade como aquele.
A Monteiro sorriu na direção do outro e em seguida se endireitou pronta para sair dali, porém não teve forças para dar sequer um passo, sua vista escureceu e suas pernas cederam, mas estranhamente não sentiu seu corpo bater no chão.
-Ei, por favor diga alguma coisa por favor.
Foi a última coisa que ouviu antes de perder a consciência de vez.