capítulo 9

928 Palavras
CAPÍTULO 9: A Tempestade Verde e Cinza Raissa apertou a medalha contra o peito, sentindo o relevo da fênix de ouro contra a palma da mão. Ela respirou fundo, tentando conter a avalanche de pensamentos que a descoberta de Alice havia provocado. — Alice, por favor... para — pediu Raissa, a voz um sussurro carregado de cansaço. — Isso é loucura. É uma coincidência. Minha vida já está de cabeça para baixo com as humilhações desse colégio e as provocações do Bernardo. Eu não posso, e não quero, me alimentar de falsas esperanças. Eu sou apenas a afilhada de uma costureira que está tentando sobreviver. Esquece isso, por favor. Alice olhou para a amiga e, vendo a exaustão nos olhos azul-safira de Raissa, engoliu as dezenas de teorias que ainda tinha na ponta da língua. Ela deu um sorriso compreensivo e assentiu. — Tudo bem. Não vou mais falar disso. No entanto, por trás daquele sorriso cúmplice, a mente de Alice já estava trabalhando a mil por hora. Ela conhecia Raissa há pouco tempo, mas já a considerava uma irmã. Ela não deixaria aquela história de lado. Se Raissa não queria mexer naquele vespeiro, Alice investigaria por conta própria, em absoluto silêncio. ### O Novo Jogador no Tabuleiro No dia seguinte, durante o intervalo do almoço, o pátio do Saint-Valéry estava ensolarado, mas a tensão habitual parecia pairar no ar. Raissa e Alice estavam sentadas em um dos bancos de pedra sob as sombras das árvores quando uma sombra alta se projetou sobre elas. Raissa ergueu os olhos e deparou-se com um rosto desconhecido, mas que exalava uma beleza magnética e calorosa. > Era **Lucas Dumont**. Lucas era o herdeiro de uma poderosa rede de hotéis de luxo internacional e acabara de voltar de um período de dois anos de intercâmbio na Suíça. Ele tinha dezoito anos, cabelos castanhos claros levemente desordenados, olhos dourados como mel e um sorriso fácil e charmoso que quebrava qualquer gelo. Ao contrário de Bernardo, que exalava uma aura de perigo e frieza militar, Lucas tinha uma energia leve, amigável e extremamente segura de si. > — Com licença, meninas — disse Lucas, a voz um barítono suave e bem-humorado. — Eu sou o Lucas. Acabei de voltar para o inferno dourado do Saint-Valéry e me disseram que os melhores cafés e as melhores conversas deste lugar agora pertencem a vocês duas. Posso me sentar? Alice deu um sorriso de canto de boca, reconhecendo o rapaz de festas passadas. — Ora, se não é o prodígio dos Dumont. Achei que os Alpes Suíços tivessem te adotado de vez, Lucas. Senta aí. Essa é a Raissa. Lucas sentou-se ao lado de Raissa, mantendo uma distância respeitosa, mas seus olhos dourados brilharam com um interesse genuíno ao focar nela. — É um prazer, Raissa. Ouvi dizer que você colocou o Bernardo Castiglione no lugar dele no primeiro dia. Só por isso, você já merece um monumento no pátio central. Raissa não pôde evitar rir. A risada dela, leve e cristalina, chamou a atenção de vários alunos ao redor — incluindo uma silhueta alta que acabara de cruzar o pátio. — Não foi nada demais — disse Raissa, sentindo as bochechas corarem levemente sob o olhar atento de Lucas. — Eu apenas não gosto de valentões. — E você está absolutamente certa — Lucas sorriu, aproximando-se um pouco mais para mostrar algo no celular. — Inclusive, estou organizando um grupo de estudos para a prova de História da Arte desta semana. O professor é um carrasco. O que acha de fazermos juntos? Prometo que levo os melhores doces da confeitaria da minha família. ### O Olhar que Queima A poucos metros dali, encostado em uma das colunas de mármore da entrada da biblioteca, Bernardo assistia à cena. Seu maxilar estava tão trincado que a lateral de seu rosto exibia uma linha rígida e tensa. Seus olhos cinzentos estavam fixos na proximidade entre Lucas e Raissa. Ao ver Lucas sorrir para ela, e — pior ainda — ao ver Raissa rir de volta, uma fúria possessiva e avassaladora subiu pelo peito de Bernardo como uma maré de ácido. O ciúme era uma criatura violenta que Bernardo não conseguia dominar. Ele odiava Lucas. O herdeiro dos Dumont sempre fora seu rival silencioso, mas vê-lo se aproximar da *sua* bolsista... da garota que ele queria quebrar, da garota que ele desejava em segredo mais do que a própria vida, era insuportável. — Parece que o Dumont já escolheu o novo brinquedinho dele — zombou Victória, aparecendo de repente ao lado de Bernardo e tentando enlaçar seu braço. — Aquela garota realmente sabe como atrair os garotos ricos, não é? Primeiro o Gabriel Fontes, agora o Lucas... Ela é uma alpinista social profissional. Bernardo puxou o braço com tanta violência que fez Victória dar um passo atrás, assustada. — Não fale dela — sibilou Bernardo, a voz tão baixa e carregada de ameaça que fez o sangue de Victória congelar. Ele não esperou a resposta dela. Com passos firmes e pesados, Bernardo caminhou em direção ao refeitório, mas sua mente já estava fervendo. Ele precisava agir. O bullying que fazia antes para afastá-la agora precisava de uma nova faceta. Ele precisava mostrar a Lucas — e a qualquer outro — que Raissa pertencia ao seu território de tormento, e que ninguém tinha permissão para tocá-la. Enquanto isso, de longe, Alice observava a reação de Bernardo com um sorriso astuto. *“Morda o anzol, Castiglione”*, pensou ela, ciente de que o ciúme seria a ruína do arrogante herdeiro.
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