capítulo 8

996 Palavras
CAPÍTULO 8: O Selo de Sangue e Ouro A cantina do Saint-Valéry parecia menos um refeitório escolar e mais um bistrô parisiense, com mesas de ferro fundido pintadas de branco e uma varanda que dava para um roseiral impecavelmente cuidado. Alice e Raissa sentaram-se em uma mesa mais afastada, sob a sombra de uma enorme Figueira. Alice deu um gole longo em seu café expresso duplo, observando Raissa com um misto de curiosidade e admiração. — Você é um enigma, Raissa — disse Alice, apoiando os cotovelos na mesa. — Sério. A maioria das pessoas que entra aqui como bolsista tenta se misturar, tenta passar despercebida para não virar alvo. Mas você? Você enfrenta o Bernardo, usa um vestido que parece uma obra de arte conceitual e se recusa a abaixar a cabeça para a Victória. De onde vem essa força? Raissa deu um sorriso triste, olhando para as próprias mãos. — Quando você cresce sabendo que cada pequena conquista sua custou o suor e o cansaço de alguém que te ama, você não se dá ao luxo de ser fraca. Minha madrinha, Helena, trabalhou dia e noite para que eu pudesse estudar. Se eu me curvar diante daqueles garotos mimados, é como se eu estivesse dizendo que o esforço dela não valeu de nada. Eu não vou dar esse gostinho a eles. Enquanto falava, o calor da tarde fez Raissa ajustar o colarinho de sua camisa do uniforme. Ao fazer isso, um pequeno pingente que ela sempre usava por baixo da roupa escorregou para fora, brilhando sob o sol. Era uma medalha de ouro envelhecido, redonda e pesada, presa a uma corrente fina de elos delicados. O pingente tinha um entalhe extremamente detalhado: uma fênix renascendo das cinzas, cercada por ramos de louro e três pequenas safiras incrustadas na base. Alice congelou no meio de um gole de café. Seus olhos verdes se arregalaram e ela quase se engasgou. — Onde... onde você conseguiu isso? — a voz de Alice perdeu todo o tom sarcástico, assumindo uma seriedade que assustou Raissa. Raissa franziu a testa, tocando a medalha protetoramente. — Era da minha mãe biológica. Minha madrinha me deu quando completei quinze anos. Ela disse que foi a única joia que encontraram comigo quando meus pais sofreram o acidente, quando eu ainda era um bebê. Por que a pergunta? Alice esticou a mão, pegando a medalha com as pontas dos dedos com um cuidado quase reverente. Ela examinou o entalhe traseiro, onde havia uma gravação quase imperceptível de duas letras entrelaçadas: *M.A.* — Raissa... — Alice engoliu em seco, olhando para a amiga com uma expressão de puro choque. — Minha mãe é artista plástica, mas o meu pai é juiz e trabalha diretamente com as maiores famílias oligárquicas deste país. Eu conheço brasões de família desde que aprendi a ler. Esse brasão... a fênix com as três safiras... não é um desenho qualquer. É o selo heráldico privado dos **Monteiro de Albuquerque**. O coração de Raissa falhou uma batida. — Albuquerque? Como... como a Victória? — Exatamente como a Victória — Alice sussurrou, aproximando-se mais da mesa. — Há dezoito anos, os Albuquerque sofreram uma tragédia que foi abafada pela mídia devido ao poder deles. A Sra. Beatriz Albuquerque deu à luz duas meninas gêmeas. Mas, logo após o parto no hospital particular da família, houve uma falha de segurança terrível. Uma das bebês foi sequestrada. Os pais gastaram bilhões em investigações, mas nunca encontraram pista alguma. Eles criaram a Victória como filha única, mas todos na alta sociedade sabem que Beatriz Albuquerque nunca superou a perda da filha mais nova. Raissa sentiu o estômago despencar. O ar ao seu redor pareceu sumir. — Não... isso é impossível. Meus pais biológicos morreram em um acidente de carro. Minha madrinha me disse... — A sua madrinha pode ter tentado te proteger, Raissa. Ou talvez ela mesma não saiba de toda a história — insistiu Alice, os olhos brilhando com a adrenalina da descoberta. — Olha para você! Seus olhos azuis, a estrutura do seu rosto... você não se parece em nada com os traços comuns da região de onde veio. Mas você se parece, e muito, com os retratos de juventude de Beatriz Albuquerque. E essa medalha? Isso é uma joia de família, feita sob encomenda. Não existem duas iguais no mundo. Raissa puxou a medalha de volta, o metal agora parecendo queimar sua pele. Sua mente virou um turbilhão de negação e dúvida. Ela, a bolsista humilhada, a garota que Bernardo chamava de "lixo", ser a herdeira perdida da família mais poderosa do colégio? Parecia um conto de fadas c***l. ### A Sombra do Obsessor Do outro lado do pátio, parcialmente escondido pelas colunas de mármore da entrada do teatro, Bernardo observava as duas conversando. Ele não conseguia ouvir uma palavra, mas a proximidade entre Raissa e Alice o incomodava profundamente. Ver a expressão de choque no rosto de Raissa e a forma como ela segurava aquela joia no peito fez uma onda de curiosidade e possessividade atravessar seu peito. Ele queria saber o que a deixava tão abalada. Queria ser o único a causar reações nela, fossem de raiva ou de qualquer outra emoção. Bernardo apertou o copo de café descartável em sua mão até que o plástico rachasse. — Ela está sob a proteção da Veronese agora — comentou Enzo, aproximando-se de Bernardo com os braços cruzados. — Se você continuar com o bullying, a Alice vai arrastar o nome da sua família para os tribunais através do pai dela. Talvez seja hora de deixar a bolsista em paz, cara. Bernardo virou o rosto lentamente para Enzo, os olhos cinzentos faiscando de forma gélida. — Eu decido quando acabo com um jogo, Enzo. E a Raissa... ainda me deve muitas respostas. Ele deu as costas, mas sua mente já estava traçando um plano para descobrir exatamente o que Alice e Raissa estavam tramando. Ele não permitiria que ela escapasse de seu controle.
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