capítulo 5

1094 Palavras
CAPÍTULO 5 A segunda-feira amanheceu cinzenta, condizente com o humor de Bernardo. No pátio do Saint-Valéry, o assunto do fim de semana não era outro senão o desastroso desfecho da festa na mansão dos Castiglione. No entanto, a fofoca havia ganhado contornos diferentes sob a influência de Victória: todos comentavam como a "bolsista intrusa" havia tentado dar um golpe no herdeiro dos Fontes após arruinar a própria roupa. Raissa caminhava pelos corredores com a cabeça erguida, mas o blazer cinza-claro de Gabriel, limpo e impecavelmente dobrado dentro de sua mochila, era um lembrete constante de que nem todos naquele mundo eram feitos de gelo. Às três da tarde, o sinal que anunciava o fim das aulas ecoou. Quando Raissa cruzou os portões de ferro do colégio, o som de uma buzina discreta chamou sua atenção. Estacionado bem em frente à entrada, chamando a atenção de todos os alunos que saíam, estava um sedã esportivo prata. Encostado na porta do motorista, com óculos escuros e um sorriso descontraído, estava Gabriel Fontes. Ao ver Raissa, ele acenou. — Prometi que devolveria o favor do táxi com um almoço decente — disse Gabriel, retirando os óculos e exibindo seus expressivos olhos verdes. — E vim buscar meu blazer. Raissa sentiu um leve rubor subir pelas suas bochechas. Pela primeira vez em dias, ela sorriu genuinamente. — Acho justo. E obrigada por sexta-feira, Gabriel. De verdade. Ela caminhou até o carro e aceitou a gentileza de Gabriel, que abriu a porta do passageiro para ela. Do segundo andar do prédio principal, observando tudo através da vidraça da biblioteca vazia, Bernardo assistia à cena. Seu maxilar estava tão tensionado que os músculos de seu rosto pareciam esculpidos em pedra. Suas mãos apoiavam-se no parapeito de madeira com tanta força que as pontas de seus dedos estavam brancas. O estômago de Bernardo revirava em uma mistura corrosiva de ódio, inveja e um ciúme doentio que ele se recusava a nomear. *Como ela ousa sorrir para ele daquele jeito? pensava Bernardo, a mente obscurecida por uma névoa de fúria possessiva. Ela nunca sorriu para mim. Ela me olha como se eu fosse um monstro, mas se entrega ao primeiro herdeiro que lhe estende um casaco. — Você vai quebrar o vidro se continuar apertando assim — disse Enzo, que acabara de entrar na biblioteca, observando o amigo com uma sobrancelha erguida. — Cara, é só a bolsista. Deixa o Fontes levar o lixo embora. — Cale a boca, Enzo — Bernardo respondeu, a voz tão baixa e gélida que fez o amigo dar um passo atrás, surpreso com a intensidade da reação. Sem dizer mais nenhuma palavra, Bernardo deu as costas à janela e saiu da biblioteca a passos firmes. Ele não iria permitir. Se ele não podia tê-la de forma limpa, ele a manteria sob seu controle através do caos. No dia seguinte, a retaliação de Bernardo veio de forma silenciosa e burocrática, usando o poder que o sobrenome Castiglione exercia sobre a direção do colégio. No final da última aula, o inspetor-chefe do colégio entrou na sala de Raissa. — Senhorita Raissa? A diretoria solicita sua presença na sala de arquivos históricos. Houve uma inconsistência no registro de suas horas de serviço social obrigatórias para a manutenção da bolsa. Você precisará organizar o inventário de documentos de 1990 hoje após o horário. Raissa suspirou, sentindo o cansaço acumular em seus ombros. Ela sabia que suas horas estavam corretas, mas como bolsista, não podia contestar as ordens da administração. A sala de arquivos históricos ficava no subsolo do colégio, uma área isolada, cercada por paredes grossas de pedra e prateleiras de ferro repletas de caixas pesadas e documentos antigos. O cheiro de papel velho e poeira pairava no ar úmido. Raissa entrou, sentando-se diante de uma mesa de metal com uma pilha de caixas para catalogar. Ela começou o trabalho em silêncio. Cerca de trinta minutos depois, o som de passos pesados ecoou no corredor de pedra. A porta pesada de madeira do arquivo se abriu e, para o choque de Raissa, Bernardo entrou. Ele não usava mochila, e seu blazer estava jogado displicentemente sobre um dos ombros. Ele entrou e, com um movimento lento do pé, empurrou a porta de madeira atrás de si. O trinco de ferro bateu com um estalo seco e definitivo. — O que você está fazendo aqui? — Raissa perguntou instantaneamente, levantando-se da cadeira. A postura de defesa voltou no mesmo segundo, seus olhos safira fixos nos dele. — O mesmo que você — Bernardo respondeu, a voz arrastada, aproximando-se com a lentidão de um predador encurralando sua presa. — Parece que a diretoria achou que eu precisava de algumas horas de "disciplina" por quebrar aquele copo na sexta-feira. E resolveram nos colocar para trabalhar juntos. — Eu não vou ficar na mesma sala que você — Raissa disse, caminhando decidida em direção à porta. Antes que ela pudesse tocar na maçaneta, Bernardo deu um passo rápido, bloqueando o caminho com seu corpo robusto. Ele apoiou a mão na porta, acima da cabeça de Raissa, encurralando-a contra a madeira fria. A proximidade física era sufocante. Raissa podia sentir o calor emanando do corpo dele, o aroma marcante de seu perfume e a rapidez de sua respiração. Os olhos cinzentos de Bernardo desceram para os lábios dela antes de subirem novamente para encarar suas pupilas dilatadas. — Você parece ter ficado muito confortável no carro do Fontes ontem — Bernardo sussurrou, o tom de voz carregado de um ciúme que ele tentava, sem sucesso, disfarçar sob uma máscara de deboche. — Já achou o seu próximo patrocinador, Raissa? É assim que você planeja pagar suas contas? Usando esse rostinho bonito para enganar caras otários? O insulto estalou no ar. Raissa sentiu a raiva ferver em seu peito. Sem pensar, ela ergueu a mão para desferir um tapa no rosto dele, mas Bernardo foi mais rápido. Ele segurou o pulso dela no ar com firmeza, prensando-o contra a porta de madeira. O toque elétrico fez ambos prenderem a respiração. A tensão entre eles era quase física, um cabo de guerra entre o ódio mútuo e uma atração devastadora que ameaçava consumir o bom senso de ambos. — Me solta, Bernardo! — ela sibilou, tentando puxar o braço, mas ele não cedeu um milímetro. — Não — ele respondeu, a voz rouca, os olhos cinzentos brilhando com uma intensidade perigosa. — Você não vai a lugar nenhum até entender que, neste colégio, você não dita as regras. E o Fontes não vai estar aqui para te salvar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR