Capítulo 03

1397 Palavras
Isabella Dumont Eu tinha atingido meu limite. Não restava mais forças nem na minha mente e nem no meu corpo. Minha vida parecia acontecer fora de mim e eu precisava tomar uma decisão. Na verdade eu precisava agir. Decisão na minha mente eu já tinha tomado muitas, mas na hora de agir eu me recolhia e continuava ali. Agora, no entanto, eu sabia que havia chegada a hora de pôr um ponto final em tanto sofrimento. Eu só precisa armar um plano que tivesse chances de dar certo. O problema era achar alguém em quem eu pudesse confiar. Todos ali viviam sob o domínio daquele monstro. Eu não tinha ninguém. A Veronica sozinha não ia conseguir me ajudar. Ela já fazia demais por mim. Não era justo arriscar a vida da minha amiga. Eu precisava agir sozinha. Meu estomago revirava só de imaginar que o dia estava acabando e que em poucos instantes aquele verme chegaria e me obrigaria a sentar na mesa com ele. Aos poucos eu tinha aprendido a contornar aquele momento. Eu sabia que eu vomitaria se comesse na frente dele e eu precisava me alimentar para viver. Eu comia às escondidas entes dele chegar e na mesa do jantar, apenas beliscava uma coisa ou outra. Por sorte ele não percebia. Seria mais um motivo para despertar o lado animal dele. Eu estremeci só em pensar em como foi difícil achar o caminho para me livrar da violência do Joaquim. Eu tive que aceitar o que a vida me impôs. Eu precisei abaixar a cabeça por não suportar a dor de ser agredida fisicamente por ele. Eu estava a mercê de um louco e eu descobri isso na primeira vez que tentei fugir de casa. Eu subestimei a loucura do homem que me comprou. Achei que era apenas uma mera obsessão de um homem velho por uma mulher mais nova, mas não. Ele era doente. Ele me mostrou que eu não poderia enfrentá-lo de qualquer maneira. Ele era um homem, perigosos e tinha uma rede de pessoas que o obedeciam cegamente. Um dia eu recorri aquele homem para salvar a vida do meu pai. Um pai que não agradeceu o sacrifício que eu fiz por ele. As imagens daquele dia fatídico volta e meia dominavam minha mente e mesmo já se passando dez anos, parecia que aquilo tinha acabado de acontecer. Lembro com riqueza de detalhes do dia que bati na porta do escritório de Joaquim Dumont implorando pela vida do meu pai e ele se aproveitou daquele momento para me fazer uma proposta que naquele momento não me pareceu tão perigosa. Depois da minha formatura do ensino médio as coisas foram de m*l a pior em nossa casa. Meu pai estava cada dia mais afundando nas dividas e na bebida e, à beira do desespero teve a infeliz ideia de roubar uma pedra de Diamantes do garimpo de Joaquim Dumont, onde ele trabalhava. Não teve tempo sequer de vender a maldita pedra. O homem descobriu e mandou os capangas dele sequestrar meu pai em nossa casa. Ele foi tirado da mesa no meio do jantar e arrastado como se fosse um animal para prestar contas ao dono do garimpo. Era quase certo que o fim dele seria a morte. Era daquele jeito que os garimpeiros daquele lugar puniam quem roubava pedras das minas de Diamante. Passamos uma noite em claro chorando e quando o dia amanheceu e não tivemos notícias do meu pai, eu resolvi procurar o dono da mineração Dumont. - Não filha! Não se meta com essa gente. - Mae! Ele vai mantar o papai, eu preciso ir lá. - Eu vou! - Não mãe! A senhora está doente. Eu Vou lá e vou implorar pela vida dele, embora ele não mereça. E assim eu me armei de coragem e adentrei o prédio da Mineração Dumont disposta a enfrentar um dos homens mais poderoso de Ouro Preto. Me aproximei tremendo da moça vestida de forma impecável atrás de uma mesa escura e brilhante. - Quero falar com o senhor Joaquim Dumont. Ela tinha me olhado como seu eu fosse uma louca. Com certeza pouca gente tinha coragem de ir lá tentar falar com aquele homem. - Que assunto tem como senhor Joaquim mocinha? Levantei o queixo. - Diga que é a filha de Julian Valuar, o homem que roubou o diamante dele. Alguns minutos depois a mulher voltou e apontou um corredor atrás da mesa dela. Ele tinha ordenado que eu entrasse na sala. Era um escritório digno de um rei. Tinha peças de ouro por todo canto e era visível o quanto de dinheiro tinha sido empregado ali. Dinheiro conquistado com o trabalho escravo dos trabalhadores das minas. Entrei na sala de cabeça erguida, mas ao sentir o olhar frio daquele homem sobre mim, me arrepiei me medo e arrependimento por ter seguido meus instintos e ido enfrentá-lo sozinha. Ele era um homem estranho. Devia ter por volta de uns cinquenta anos e estava vestido com um terno branco. Era uma figura um pouco assustadora. Parei na frente da mesa dele e cruzei os braços. - Cadê meu pai? Ele tinha me olhado por um longo tempo. - Sente-se mocinha. Não me movi do lugar. - O senhor matou meu pai? Ele levantou e deu a volta na mesa se aproximando de mim. - Eu não saio por ai matando pessoas menina. Eu não tinha medo dele. - Mão é o que todo mundo diz. Ele tinha rido, mas eu percebi que o olhar dele continuava frio. - O povo fala demais. Me afastei um pouco e o encarei. - Onde está meu pai? Ele tinha encolhido os ombros em um sinal de desinteresse. Como se aquilo não fizesse diferença para ele. - Em um lugar seguro. Estou estudando o caso dele. - O que o senhor quer? Eu faço qualquer coisa. Eu posso trabalhar de graça aqui ou na sua casa até pagar o valor que ele roubou. Pode pedir qualquer coisa e soltar meu pai. Ele precisa voltar pra casa porque que minha mãe tem câncer e precisa dele. Ele tinha pensando por longos minutos e então me olhou. - Você faz qualquer cosa mesmo? Sustentei o olhar dele. - Faço. Pode falar. - Quero que se case comigo. A Verônica tinha ficado louca. - Não. De jeito nenhum Isa, você enlouqueceu? Eu estava decidida. - Eu falei que aceitava. - Mas porquê? Você não tem nada a ver com as loucuras do seu pai! - Ele disse que vai pagar todo o tratamento da minha mãe. Como eu posso recusar? - É sua vida Isa. Você vai casar com um homem que você não ama! - Pode não ser tão r**m. Eu posso aprender a gostar dele. O importante é que ele vai perdoar meu pai e ainda vai pagar os remédios da minha mãe. Sem os remédios ela vai morrer Vê. Verônica tinha respirando fundo vencida. - Desisto, mas eu acho eu você vai se arrepender. E eu me arrependi. Amargamente. Mas já era tarde. Eu já estava presa no inferno. Dez anos tinham se passado e o casamento que tirou minha família da miséria, me jogou em um buraco sem fim. O homem que salvou a vida da minha mãe, tirou a minha, sem piedade. Foi apenas o tempo de assinar um papel e Joaquim Dumont mostrou sua verdadeira face. Ao ultrapassar os portões daquela mansão há dez anos atrás não imaginei que estava entrando em uma prisão da qual agora, eu estava decidida a me libertar. Novamente uma ideia insana passou pela minha cabeça. Um nome. Apenas um nome me vinha a mente para pedir socorro. Será que eu deveria? Ele me ouviria? Apenas ele seria capaz de enfrentar Joaquim Dumont. Eu sabia que ele tinha coragem suficiente. Mas a troco de que ele faria aquilo? Eu não podia chegar e dizer simplesmente: “Um dia eu te ajudei, me ajude agora”. Mas a cada dia que passava eu me convencia que talvez fosse preciso buscar uma parte do meu passado que eu guardava em dois lugares. Na minha mente e em uma pasta cheia de fotos e recortes de jornais e revistas que a Veronica escondia na casa dela. Foram anos pesquisando tudo sobre ele e agora talvez fosse a hora de chegar na frente de Nicolas Aguiar e pedir socorro.
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