Capítulo 02

1784 Palavras
Nicolas Aguiar  Minha vida estava uma merda. Fazia anos que eu estava vivendo um inferno dentro de casa e agora eu estava decidido a pôr um fim naquilo. Se eu suportei por tanto tempo, foi por causa do meu filho, mas ele agora era um adulto e nem ele mesmo estava aguentando nossa situação. Eu seria um cafajeste se dissesse que foi sempre assim. Não. Como todo relacionamento, o início foi bom. Tanto que eu casei com a Luciana aos vinte anos de idade e isso foi meu erro. Nem eu e nem ela tivemos tempo de nos conhecer direito e o resultado foi uma vida cheia de contratempos. A Luciana engravidou e eu com essa minha mania de fazer as coisas certas, casei com ela e formei uma família sem base nenhuma. Eu me arrependi? Não. Faria de novo. Meu filho não cresceu sozinho, eu dei a ela o conforto e a proteção de um lar, mas agora eu precisava pensar em mim. Estava tentando falar com a Luciana de novo. Por que ela, a despeito da vida miserável que tínhamos, não queria se separar. Eu cheguei ao fundo do poço. Recorri ao método que eu abominava. Eu trai a Luciana. Eu precisava de sexo e com ela não dava mais. Nem fiz questão de esconder. Ela estava cansada de saber que nosso casamento não tinha mais jeito. O William estava com dezenove anos e já podia trilhar seu próprio caminho. Meu filho era um exemplo de menino. Responsável e estudioso. Só precisava guardar o p*u dentro da calça e parar de comer todas as garotas que passava na frente dele. Mas aquilo era comum na idade dele, eu também fui assim. Fazia parte do crescimento. Ele só tinha que respeitar as garotas e isso ele fazia. Estacionei em frente ao prédio da Segurança Olhos de Águia e olhei para o lado do carona. - Por que está tão calado? Wiliam me olhou rindo. - Estava esperando você voltar para a terra. Desliguei o motor e respirei fundo. - Precisamos conversar filho. Ele me olhou sério. - De novo pai? Eu já sei o que você vai falar e acho que não é pra mim quem deve dizer Apertei o volante. - Sua mãe está disposta a me infernizar. Ela não quer a separação. Meu filho era meu amigo, mas a Luciana era mãe dele. Eu não podia pedir que ele escolhesse um lado para defender. - Ela só estar com raiva, não quer admitir que foi você que pediu a separação. Ela gosta de dar a última palavra. Você sabe disso. - Eu sempre deixei a última palavrar com ela. Dessa vez eu não abro mão. Ele respirou fundo. - Ainda está com aquela moça? A que o vovô demitiu da empresa? Eu ri balançado a cabeça. - Não. A coitada voltou para o interior. Ficou com medo do velho. Meu pai saber ser c***l quando quer. Wiliam riu. - Ele gosta da minha mãe e acha que a moça influenciou na sua decisão. - Que besteira. Eu nem tive nada sério com ela. Foi só sexo mesmo. Ele virou no banco do carro e me encarou. - Está apaixonado por alguém? Apaixonado? Acho que eu nem sabia mais o que era isso. - Não. Mas bem que eu queria viver um amor. Sentir o coração bater forte, frio na barriga, vontade de dormir juntos, sentir raiva e alegria ao mesmo tempo. Isso é bom, faz a gente se sentir vivo. Wiliam mordeu os lábios pensativo. - É assim que se fica quando se estar apaixonado? Encolhi os ombros. - Sim, eu pelo menos ficava assim quando estava a fim de uma garota. Ele batucou os dedos na porta do carro. - Chegou uma garota nova lá na escola. Ela é bem bonita. Olhei curioso pra ele. - Está a fim dela? Ele riu alto. - Não. Ela é muito atirada e escandalosa. Eu não gosto de garotas assim. - Então por que prestou atenção nela? - Ela fica dando em cima de mim descaradamente. Não tinha como não notar. Fiquei sério. - Se não quer, ache um jeito de mostrar isso a ela. - Eu vou achar. Olhei para o prédio. - Bom. Precioso enfrentar seu avô. Ele convocou uma reunião com urgência. Ele levantou as mãos. - Tenho até medo cq quando ele resolver que está na hora de meter nesse negócio. - Você não quer? Ele encolheu os ombros. - Não sei. Você começou na minha idade não foi? Olhei para a frente respirando fundo. - Eu não tive escolha, você tem. - Eu acho bonito o que você faz, mas ainda não sei se é isso que eu quero. - Se você inventar de ser guarda-costas de VIP, aí que sai mãe me mata de verdade. Ela acha que eu te arrasto para uma profissão perigosa. - Serio pai, resolve logo essa situação com a mamãe. Eu não aguento mais te ver tão triste. - Eu vou resolver, prometo. Agora vai para a aula, é seu último ano, não pode correr o risco de repetir. Ela bateu no meu ombro. - Eu? Repeti de ano? Está me desconhecendo Nicolas Aguiar? - Vai logo seu convencido. Desci do carro e entrei no prédio de vinte andares que abrigava a sede da maior empresa de segurança privada de Ouro Preto. A Olhos de águia existia há mais de cinquenta anos. Era uma empresa de família. Foi passada do meu avô para meu pai e ele agora estava quase passado o bastão para mim e o Rony. Não tínhamos saída. Aquilo ali era a nossa vida. Eu aprendi a amar o meu trabalho e o fazia com perfeição. Quem contratasse a Olhos de águia poderia ficar tranquilo, a segurança do nosso cliente estava sempre em primeiro lugar, mesmo que a nossa vida precisasse ficar em segundo. O Prédio de mosaico preto destoava das construções ao redor e um águia de asas abertas pintadas de amarelo na fachada do último andar chamava a atenção de quem passava ali perto. Meu pai gostava de ostentação e ele amava aquele lugar. Fui falando com algumas pessoas conforme andava pelo longo corredor até os elevadores. Não era só as salas da Segurança que funcionavam ali. Outros profissionais alugavam salas. Principalmente advogados, mas os dois últimos andares era dominado pelo grupo Olhos de Águia. Tinha a sala do chefão, Valentin Aguiar, meu pai. O homem que comandava tudo aquilo com mãos de ação. Ao lado da sala dela estava a minha sala e mais á frente, a do Rony, meu irmão mais velho que era responsável pelo treinamento de novos agentes. Minha função era mais voltada para a preparação psicológica da equipe. O restante eram salas de reuniões, de treinamentos e de outras funções do grupo. O elevador parou no último andar e eu parei no início do longo corredor que levava à sala do homem que eu amava e temia ao mesmo tempo. Respirei fundo e parei na porta dando duas batidinhas de leve e girando a fechadura. Como sempre acontecia naquelas reuniões meio secretas que ele fazia penas comigo e o Rony, os dois estavam sentados à minha espera. - Olá a todos. - Jesus! Que cara é essa Nico? Parece que dormiu bêbado. Fuzilei o Rony com o olhar e me joguei na cadeira ao lado dele, encarando meu pai. Ele era um homem enigmático. Jovem demais para os seus setenta anos. Andava sempre de terno e aquela bengala preta brilhante que ele nos ameaçava sempre que saímos da trilha. - Oi pai. - Oi Nicolas, o que você tem? O Rony respondeu por mim. - Não trepou. Ele voltou-se para o Rony. - Já você, seu irresponsável, foi pego de novo comendo uma das secretárias. Ele riu com gosto. - Quem manda o senhor contratar secretárias gostosas. O Rony era uma figuras excêntrica. Alto, musculoso e todo tatuado. Ele provoca medo nos homens e fascinação nas mulheres. Cuidava do corpo e era adepto de comidas saudáveis. Não parecia ter quarenta anos. Respondi à pergunta do meu pai. - Nada. Só uma noite r**m. Valentin Aguiar tinha realmente olhos de Águia. Ele via tudo. - Problemas com a Luciana? Ri meio sem gosto. - E que outro problemas eu tenho? Ele bateu a caneta sobre a mesa de madeira polida preta que tinha custado uma fortuna. - Se não tem jeito, então se separe logo. - Estou tentando fazer isso. - Preciso de você inteiro em uma operação que surgiu. Ajeitei o corpo na cadeira. Era sempre assim. Cada vez que surgia um trabalho novo. Meu corpo entrava em alerta e a mente começava a trabalhar. Adrenalina espalhando pelo sangue. - O que é dessa vez? Ele me analisou em silencio. - Quero você diretamente nisso. Não gostei do tom de voz dele. - Qual é o negócio pai? Ele pigarreou. - Joaquim Dumont sabe quem é? - Já ouvi falar. - É um empresário dono de uma das maiores mineradoras aqui de Ouro Preto. Parece estar com problemas com alguns inimigos e quer alguém protegendo a esposa. Arquei um sobrancelha. - Quer me colocar de babá da mulher de um ricaço? Pelo amor de Deus, pai! Ele me olhou sério. - Não somos babás Nicolas, somos guarda costas! - Por que eu? Coloque um desses garotos novos que estão aprendendo. Não deve ser tão difícil proteger uma dondoca que só vai do salão para o shopping. - Ele quer o melhor. Ele pagou uma fortuna pelo contrato. Ele não ia ceder. Eu conhecia Valentin Aguiar. - Espero que metade dessa fortuna venha pra mim. - Isso é um sim? Levantei as mãos em sinal de rendição. - E se o senhor vai aceitar um não? Ele riu. - Não. - Droga Pai, o que eu vou fazer seguindo uma mulher pelas ruas dessa cidade? Onde fica meus anos de treinamento como guarda costas? Assim você me desmoraliza. - Não subestime um trabalho Nicolas. A mulher pode realmente estar em perigo. Olhei feio para o Rony, que fingia não escutar aquela conversa. - Porque não mando o Rony? Ele não teria tempo para correr atrás de mulheres. Ele levantou. - Me deixe fora disso, eu vou escoltar um figurão da política fora do pais. Bom proveito ai com sua protegida. Valentin pegou uma pasta e me entregou. - Tome, estude o caso. Teremos uma reunião com Joaquim amanhã. Peguei a pasta e olhei o nome grafado de amarelo na capa preta. Coloquei debaixo do braço e fui me direção à porta. - Eu vou ler o que tem aqui. Parece que não me resta outra saída. Minha próxima missão se chama Isabella Dumot.
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