Simon
– Ah, Jane. Você não sabe como eu sinto a sua falta. – suspiro tristonho.
Hoje faz um ano que Jane faleceu, é também o aniversário da nossa filha. Estou sendo bombardeado por uma avalanche de emoções que se misturam em uma confusão de sentimentos, onde eu não sei classificar nada do que eu sinto. A tristeza me assola desde o dia em que eu perdi a minha esposa, mas, ao mesmo tempo, eu não sucumbi a essa dor imensa dentro de mim apenas porque eu tenho Maeve, o último presente que Jane deixou antes de partir para sempre. Eu venho me esforçando para ser o melhor pai do mundo, eu não sei dizer ainda se eu estou fazendo um bom trabalho, não tenho outra pessoa para me acompanhar e me dizer onde eu estou errando e acertando, não há mais ninguém cuidando de Maeve além de mim e da babá que eu contratei.
Estou fazendo tudo o que é possível. Eu praticamente deixei o meu trabalho de lado para cuidar de Maeve quase em tempo integral. Apesar de saber que eu não preciso estar sempre com ela, eu faço isso. Eu não consigo me concentrar em nada sabendo que eu deixei minha filha aos cuidados de uma babá e sem os olhos atentos de uma mãe para verificar se está realmente tudo bem. Mesmo sabendo que a mulher que eu contratei é muito competente, eu não consigo ficar tranquilo, e por isso, deixei a empresa aos cuidados do meu amigo e sócio Allen. Eu só apareço quando é preciso e trabalho do escritório de casa.
– Você não sabe o que eu venho passando, Jane. Muita coisa aconteceu durante esse ano em que você não esteve presente. Graças à babá que eu contratei, aprendi a segurar Maeve da maneira correta, no começo eu tinha muito medo, ela era tão pequena e frágil. Eu também vi o primeiro dentinho nascer e todos os outros e a irritação e o sofrimento que ela teve que enfrentar com isso, eu não podia vê-la chorar, isso me deixava apavorado, mas eu aprendi tanto com a nossa filha e eu quero que você saiba que eu estou tentando ser o melhor pai do mundo para que ela não sinta a sua falta tão duramente no futuro. Eu espero que você esteja nos acompanhando e cuidando de nós. – a emoção já estava tomando a minha voz e eu não consegui segurar as lágrimas que brotaram nos meus olhos. Eu não tive realmente um momento para chafurdar no luto, eu não consegui chorar a morte da minha esposa, não do jeito que eu queria.
Eu tinha uma filha recém-nascida para cuidar.
As emoções daquele dia ainda estão aqui dentro, caóticas e dolorosas. Minha vontade era ir para casa, confinar-me no escritório e beber até o esquecimento por alguns dias, chorar até meus olhos secarem e lamentar a morte da mulher que eu mais amava. Mas, eu seria um maldito desgraçado se eu largasse a minha filha recém-nascida para chafurdar no meu luto. Eu preferia levar um tiro a fazer isso. Então, eu engoli a minha dor e sufoquei o sentimento de perda de tal forma que eu raramente me permitia sentir. Apesar dos meus melhores esforços, o rostinho de Maeve me lembrava Jane constantemente e mesmo querendo chorar, eu segurei as lágrimas mais de uma vez e segui em frente me permitindo sofrer apenas em alguns raros momentos de fraqueza.
– Vai chover. É melhor nós irmos. – Allen toca meu ombro em solidariedade.
Entrego Maeve para ele por um instante e ele se encaminha para o carro em silêncio, sabendo que eu quero ficar um pouco sozinho. Me abaixei e contemplei mais uma vez a lápide de mármore branco com o nome de Jane gravado e abaixo, um pequeno trecho sobre quem ela era aos meus olhos e o que vai ser para sempre em meu coração.
“Amada esposa, mãe e amiga. Aquela que espalhou apenas amor e alegria em vida o ser mais amado nesse mundo."
Acariciei aquelas palavras com carinho e em minha mente, ouvi aquelas mesmas palavras serem proferidas pela voz doce de Jane e o sentimento avassalador de dolorosa saudade me preencheu. Sussurrei um “eu te amo” e levantei com a garganta obstruída pela força da dolorosa emoção. Respirei fundo na esperança de me recompor e quando as primeiras gotas de chuva me tocaram, enxuguei as lágrimas que se derramaram sem permissão e caminhei com pesar até o carro onde Allen me esperava pacientemente.
Com um aceno pesaroso, entrei no carro e me afastei daquele cemitério onde o meu coração ficou enterrado com a minha esposa. Essa foi a coisa mais difícil que eu fiz, mesmo que eu já tenha feito isso inúmeras vezes antes, eu ainda sinto como se um pedaço meu também estivesse ficando para trás.
– O que você vai fazer hoje? – Allen pergunta.
– Eu não sei. – respondi com sinceridade.
Eu realmente não sei o que fazer, a sensação de estar perdido me toma e eu não sei qual vai ser o meu próximo passo, nem sei se eu quero ir para casa.
A chuva aumentou exponencialmente e se tornou rapidamente em uma tempestade e eu senti como se essa tempestade fosse um espelho dos meus próprios sentimentos. O caos dentro de mim que se misturava era como a chuva e o vento que se misturava com raios e trovões. Minha vontade era bater, gritar e correr, mas a minha filha era mais importante do que qualquer coisa e eu não vou deixá-la sozinha no dia de hoje e apesar de ser um dia doloroso, é também o dia do nascimento da minha filha, o meu bem mais precioso e por esse motivo, eu saí e fui a algum lugar bonito, tirei algumas fotos para guardar de recordação e celebrei o nascimento do meu pequeno pacotinho de felicidade e mesmo com o coração em pedaços, eu agradeci mentalmente a Jane por me permitir ser o homem mais feliz do mundo pelo curto tempo em que estivemos juntos e me presentear com o mais belo dos presentes, o fruto do nosso amor, Maeve.
– Você tem certeza que não quer ficar sozinho hoje? Eu posso ficar com Maeve essa noite. – Allen oferece.
Fico em silêncio. Não sei o que responder, estou sentindo tanta coisa que parece que eu vou sufocar a qualquer momento. Não sei o que fazer, realmente não sei.
– Você precisa disso, Simon. Já faz um ano que você perdeu sua esposa e em momento algum você se permitiu lamentar a perda dela da maneira adequada. Você estava muito ocupado sendo pai e mãe dessa menina, você precisa se lamentar, se lamuriar um pouco, talvez ficar bêbado. Só faça alguma coisa e tire um pouco desse sentimento que você está lutando tanto para sufocar. – argumenta.
Bem, ele tem um ponto, mas eu não sei se isso é a coisa certa a se fazer.
– Tem certeza que isso não vai estragar a sua noite? Pensei que você fosse ver uma de suas namoradas. – digo.
Allen me observa com uma sobrancelha arqueada de maneira cínica.
– Você sabe que eu não tenho namorada e eu posso passar uma noite em casa com a minha princesa. – responde.
Cogito argumentar mais um pouco a respeito da oferta dele, no entanto, me encontro esgotado mentalmente e pensar em um argumento exige demais de mim nesse momento.
– Tudo bem. Eu vou fazer isso. – aceito.
Confio em Allen com a minha vida. Ele é muito competente e tem experiência com crianças pequenas, já que cuidou da sobrinha inúmeras vezes antes. Além do mais, ele é o padrinho de Maeve e a pessoa que será seu guardião legal, caso aconteça algo comigo no futuro.
– Perfeito! Vamos passar na sua casa e preparar as coisas de Maeve. Depois eu vou embora e você pode fazer o que quiser por uma noite. Beba, chore e chafurde na sua tristeza e luto do jeito que quiser. – tira a mão do volante por um instante apenas e bate no meu ombro.
Eu ainda queria protestar, porém, fiquei quieto. Percebi que aquele era o jeito que Allen estava tentando me ajudar e eu aprecio isso. Ele sabe muito bem que esse tempo não vai diminuir a minha tristeza, mas que eu preciso ficar sozinho por algumas horas para colocar minha mente e o coração no lugar, ao menos um pouco.
O trajeto até em casa foi feito rapidamente apesar da chuva. Eu não estava nada empolgado com aquilo, mas ajudei Allen a empacotar o que Maeve precisava e os acompanhei até o carro, só voltei para dentro depois que eu os perdi de vista. No momento em que fechei a porta atrás de mim, o silêncio sepulcral da casa me bateu como um soco no estômago. Caminhei pelos cômodos, sendo bombardeado pelas lembranças. Parecia que eu via Jane se movimentando pela casa, o fantasma dela caminhava pelos corredores e sorria para mim, como se fizesse um convite sombrio para que eu fosse com ela. Quando eu não aguentei mais aquela sensação avassaladora de tristeza, agarrei minha carteira e as chaves do carro e saí dali. Eu não tinha um lugar em mente, então acabei no bar mais próximo. Allen tinha um pouco de razão, eu precisava de um pouco de bebida agora.
– Uma garrafa de Daniel’s. – pedi ao barman.
O homem me olhou com cuidado, mas fez o que eu pedi. Afinal, não era trabalho dele me julgar, apenas servir a bebida que eu pedi.
No momento em que a garrafa estava na minha frente, eu estava derramando uma boa quantidade do líquido âmbar no copo e engolindo rapidamente. A queimação familiar se instalou e eu respirei aproveitando o calor da bebida que parecia se espalhar devagar pelo meu corpo gelado.
– Oi, você está sozinho? – uma mulher perguntou ao meu lado.
Nem sequer levantei a minha cabeça, eu não estava no clima para isso hoje.
– Sim, e pretendo continuar sozinho. Não perca seu tempo comigo, não estou interessado. – aviso.
– Mas você nem me viu ainda. – protesta.
Dessa vez, levei o meu olhar cansado até ela. Era uma mulher bonita, loira, bronzeada de belas curvas e sorriso sedutor, mas o meu interesse por qualquer mulher nesse momento era zero.
– Não me leve a m*l, você é muito bonita. Mas, eu sou só um homem de luto que precisa ficar sozinho por um tempo. – respondi e voltei meu olhar para o copo novamente.
Estava vazio.
Não me lembro de ter bebido.
Será que alguém estava roubando minha bebida?
Eu já devo estar bêbado.
Eu não ouvi mais nada da mulher, mas para a minha total desgraça, outras apareceram e algumas foram rudes quando eu as dispensei sem sequer olhar em seus rostos.
Ninguém pode chafurdar na sua miséria em paz?
Uma mulher em particular, provavelmente tão bêbada quanto eu, estava nesse momento, agarrada ao meu ombro enquanto insistia em falar comigo.
– O que você está fazendo com a minha namorada? – veio uma voz atrás de mim.
E lá vamos nós. Devagar, olhei por cima do ombro.
– Nada.
– E porque diabos ela estava em cima de você? – o homem furioso aponta.
– Não sei. Mas, obrigado por tirá-la de cima de mim. – respondi tomando um gole da bebida.
– Você estava seduzindo-a! – acusa.
Eu não estava com paciência para brigas e eu não tinha culpa de nada nesse caso.
– Ela não faz o meu tipo. – respondo.
O homem veio pra cima de mim e praticamente me arrastou para fora da cadeira me puxando pelas laterais da minha camisa. Eu não fiz nada, mas no momento em que eu ouvi o barulho inconfundível de roupa rasgando, eu vi vermelho.
– Essa é a camisa favorita da minha esposa e você a rasgou. – agarrei seu pescoço sem me importar com qualquer outra coisa. Em um instante, os papéis se inverteram e agora era o homem que estava sendo pressionado agora, suas costas estavam encostadas no balcão do bar e eu o empurrava com violência. Apertei seu pescoço com raiva. O homem se debateu e a mulher que antes insistia pela minha atenção agora pulava nas minhas costas enquanto tentava me tirar de cima dele, mas eu nem sequer me mexi, tudo o que eu via era a minha raiva agora.
Fui arrancado de cima do homem por outras pessoas, ele me olhava assustado e tossia em busca de ar. Eu nem sequer tinha percebido que ele não podia respirar e não me importava também.
– Vá embora, senhor. Por favor. – pede o gerente.
– Tudo bem, eu só vou pegar a minha garrafa. – digo e cambaleio até onde a minha garrafa está, no caminho de volta, não resisto e acerto um soco no homem que ainda estava por perto sentado. Novamente, fui puxado para longe dele, a mulher gritava sem parar, enquanto o homem segurava o nariz que sangrava.
– Era só uma maldita camisa! Sua esposa pode comprar outras. – a mulher grita.
Ela não sabe de nada!
Me desvencilhei dos braços de quem me segurava. E segurei a garrafa com força para me conter também.
– Não, ela não pode! – gritei. – E sabe porque? Porque ela está morta! – apontei meu dedo acusadoramente enquanto as palavras voavam da minha boca. – E esse babaca estragou uma das poucas lembranças que eu tenho dela! Ele tem sorte de só ter um nariz quebrado. – cuspi e saí do bar.
Eu devia ter acabado com aquele cara.
Precariamente, dirigi até em casa mesmo sabendo que eu estava errado em dirigir bêbado, mas nem com isso eu me importava hoje. Novamente, a emoção familiar de luto me tomou quando entrei em casa, mas, dessa vez eu não fugi, eu a abracei e ali mesmo na porta, escorreguei e chorei a minha miséria agarrado com a garrafa de Daniel’s.