ABIGAIL

2008 Palavras
Lia O interior da casa era simples e arrumado, estava claro para mim que ou alguém morava com ela, ou uma pessoa vinha para deixar tudo no lugar. O piso de madeira era gasto, porém, bem cuidado. As janelas estavam limpas, os moveis com sinais visíveis de uso, algumas fotos espalhadas pelos moveis e pelas paredes da sala. Eu queria me aproximar mais e observar melhor cada um deles, mas isso seria uma grande grosseria da minha parte com a mulher que tão gentilmente me ofereceu uma refeição. Segui para a cozinha observando tudo em silêncio. Cautelosa, adentrei o espaço e observei cuidadosamente todo o lugar. De fato, era apenas uma típica cozinha americana, bancadas, armários e uma pia. Uma mesa de café da manhã no canto perto da janela, nela repousava ovos, torradas, suco, bacon e café. O cheiro desses pratos me atingiu como um soco e foi inevitável, meu estômago roncou audivelmente mais uma vez. – Querida, venha comer logo. Você está quase derramando baba no meu chão. – a idosa graceja. Envergonhada, verifiquei discretamente se eu estava realmente babando e ao ouvir o risinho da mulher, percebi que se tratava apenas de uma brincadeira. Um pouco corada, me aproximei da mesa e sentei vagarosamente. Eu não conseguia afastar meus olhos da comida, mas estava receosa demais para pegar qualquer coisa. – Coma. – Abigail colocou um prato de ovos com bacon na minha frente. Salivei com o cheiro da comida, mas, ainda assim, segurei meus impulsos e só comecei a comer, quando a mulher fez o mesmo. Eu comia em silêncio e agradecia mentalmente pela bondade dessa mulher e pensava em um jeito de retribuir por isso. – De onde você vem? – pergunta. – Senhora, eu… – ela levanta a mão me silenciando. – Querida, eu sei que sou velha, mas prefiro que me chamem de Abigail, por favor. – pede. – Agora responda a minha pergunta. Balancei a cabeça de maneira afirmativa. – Eu realmente tenho que falar sobre isso? – pergunto. – Sim, você está comendo na minha casa e o mínimo que você pode fazer é me retribuir com a verdade. – responde tranquilamente enquanto toma um gole do seu suco. – Eu fugi de casa. – baixo a cabeça. – Isso eu já percebi. Me diga o que motivou você a fazer isso? – indaga. – Uma pessoa tentou abusar de mim. – murmurei baixinho. Um som de ultraje sai dela. – Isso é terrível! Quem foi? – pergunta apressadamente. – Meu irmão. – a resposta tem um gosto amargo, e eu percebo que eu me enganei ao pensar que eu poderia ter uma família, pais e um irmão. Foi um sonho impossível que eu quis acreditar até o último momento. Um erro da minha parte. – O que? Minha nossa! Seus pais sabem disso? Percebi pela cara de nojo de Abigail que eu cometi um erro, eu disse que tinha sido o meu irmão, mas eu esqueci de explicar que é um irmão adotivo. – Oh, eu esqueci de dizer que é um irmão adotivo. – explico. – Mesmo assim, você autorizou algo desse tipo? Tenho certeza que não, caso contrário, você não estaria aqui nesse momento. – bufa chateada. Senti uma vontade imensa de desabafar, eu só queria falar sobre tudo o que aconteceu com alguém e não me sentir culpada por isso, por que no fundo, eu me culpo pelo que aconteceu. Eu deveria ter deixado claro desde o começo que eu só o via como um irmão, que aqueles toques e a maneira como ela invadia meu espaço pessoal me deixavam desconfortável, mas eu não fiz isso e passou uma ideia errada para Finn. Decidi contar tudo o que aconteceu para Abigail. Afinal, ela é uma desconhecida e depois de hoje não nos veremos nunca mais. Será mais fácil falar sobre isso. – Eu sou órfã e fui adotada recentemente por um casal. Eles tem um filho que estava na faculdade, mas que estava voltando para casa para as férias. O casal já tem uma certa idade e eu fazia a maior parte das tarefas, além de estudar e trabalhar. Quando o filho deles, Finn, chegou, eu fui educada e mesmo um pouco apreensiva em conhecê-lo, fiz o meu melhor para me dar bem com ele. Percebi desde o primeiro dia que ele tinha o costume de invadir meu espaço pessoal e isso me deixava desconfortável, mas eu ficava calada porque não queria chatear Dana e Tom. Isso foi até ontem a noite, quando Finn chegou bêbado, eu estava assistindo um filme na sala, onde eu estava dormindo enquanto ele estivesse em casa. Finn sentou ao meu lado e depois de um tempo se jogou em cima de mim e me imobilizou e disse que ia me possuir, que eu o estava provocando e me beijou a força, desesperada, mordi sua língua e quando me soltou, acertei sua cabeça com um vaso. Corri para contar o que ele tinha tentado fazer comigo, mas parei quando ouvi uma conversa dos pais dele e descobri que eles sabiam das intenções dele e compactuavam com isso. Eu peguei meus poucos pertences e fugi. – termino aos prantos e enterro o rosto nas mãos. Reviver aquele momento de ontem me lembra os momentos de terror que passei, pode parecer pouco para quem ouve, mas para mim foi uma tortura muito longa e a dor ainda é muito recente e crua. – Você está me dizendo que fugiu no meio da noite e caminhou sozinha pelas ruas? Garota, você não sabe como é perigoso lá fora? Você poderia estar morta agora! – ralha comigo. – Se eu ficasse estaria morta, de qualquer forma, eu precisava sair imediatamente. – bufo. – De onde você veio? – indaga. – Brooklyn. – Você pegou um ônibus? – continua a interrogar. – Não, eu caminhei. – Garota! Você realmente tem sorte de não estar morta agora. Você está me dizendo que você fugiu de casa sem um arranhão depois de nocautear o seu irmão adotivo e provavelmente caminhou por umas seis horas ou mais, noite adentro do Brooklyn até o Bronx e ainda está viva? Você é muito sortuda isso eu tenho que admitir e louca também. Não faça isso nunca mais, não sabe como é perigoso andar por essas ruas a noite, ainda mais uma moça sozinha. – ralha. – Sim, senhora. – baixo a cabeça envergonhada. Eu sei que não foi a minha escolha ideial e se eu estivesse em meu juízo perfeito, eu estaria em um ônibus indo para longe daqui, o mais longe possível, mas eu realmente não estava pensando direito quando saí daquela casa, eu só sabia que tinha que me afastar o mais rápido possível. Abigail me encara por alguns segundos, mas para mim pareceu muito mais do que isso. Foi um pouco desconfortável ter que suportar seu escrutínio cuidadoso em silêncio. – Você roubou alguma coisa? – pergunta. Me surpreendi com sua pergunta, eu não esperava isso e gaguejei desajeitadamente a minha resposta. – Eu… Eu não roubei nada! – exclamei. – Bem… Não foi isso que eu ouvi. – responde. O que? O que ela quer dizer com isso? Onde ela ouviu isso? – Como assim? – perguntei confusa. Sem dizer uma palavra, Abigail aponta um dedo enrugado para algum lugar atrás de mim, tenho medo do que ela possa estar me mostrando, mas eu preciso ver com meus próprios olhos, ou não vou entender do que ela está falando. Virei devagar e vi uma pequena TV em um canto da cozinha, o som estava no mudo, pois eu não conseguia ouvir nada do que o repórter dizia, mas eu conseguia ver uma legenda na parte inferior da tela e o que eu li gelou até a minha alma. “Adolescente agride pais adotivos e foge com economias.” Não. Não! – Não fui eu! – exclamo rapidamente. – Isso deve ter sido outras pessoas. Eu juro que não fui eu, eu apenas acertei o meu irmão adotivo, mas foi legitima defesa. Isso deve ser de outra família. – tento me explicar apressadamente. – E porque a sua foto está aparecendo na tela? – pergunta. Voltei meu olhar mais uma vez para a TV e percebi que de fato, havia uma foto minha na tela em um cartaz de procurada. Mas eu não entendia o que era isso, eu não fiz nada com Dana e Tom e Finn ficou desacordado quando eu saí, como isso aconteceu? – Não fui eu. Quando eu saí eles estavam vendo TV no quarto e nem perceberam minha partida, além do mais, eu fugi justamente para evitar qualquer tipo de violência e baseado no que eu ouvi deles dois, eu seria a única a ser agredida se eu ficasse. – explico. – Eu devia chamar a polícia. – come um pedaço de torrada. A perspectiva de ir para a cadeia me assusta tanto que eu começo a chorar incontrolavelmente. Eu não tenho como provar que não fui eu, além do mais, eu fugi depois de acertar o rosto de Finn, só isso já seria motivo de prisão, mas furto e agressão é muito pior. Eu vou ser condenada, mesmo sendo inocente. Eu tenho que sair daqui. Se descobrirem que eu estou na casa de Abigail, isso pode sobrar para ela também, ela pode ser presa por abrigar uma fugitiva. E tudo o que ela fez, foi me oferecer uma refeição quente e ser bondosa. Eu não posso fazer isso com ela. – Obrigado pela refeição, mas eu tenho que ir. – levanto apressada. A cadeira faz um som alto de raspar e eu faço uma careta envergonhada. – Onde pensa que vai? – pergunta do seu lugar. – Eu tenho que ir embora. Se descobrirem que eu estou aqui, você pode ter problemas por abrigar alguém que está sendo procurado. Mesmo sendo inocente, eu não tenho como provar, eu também não tenho dinheiro, nem família e nem para onde ir, tentar fugir é uma perda de tempo, é melhor eu me entregar e aceitar meu destino. – funguei e peguei minha mochila que estava no chão e caminhei para a porta. – Fique aí mesmo, não precisa ir a lugar nenhum. – a mulher bate a bengala com força surpreendente no chão de madeira. Instintivamente, fiquei quieta onde eu estava. – Mas, eu não posso causar problemas para você! – insisti. – Como você acha que eu vou me sentir sabendo que não fiz nada para defender uma jovem inocente e injustiçada? Fique aqui, por enquanto e eu vou pensar em alguma coisa para te ajudar. – diz. Abri e fechei a boca diversas vezes. O que ela poderia fazer por mim? E eu nem deveria estar me aproveitando da bondade dela. Eu já fiquei tempo demais, isso não pode continuar. – Não, eu não posso fazer isso com a senhora, eu devo ir embora. Voltei a caminhar pelo corredor, mas parei quando ouvi o barulho de vidro quebrando e um grito. Pensei que Abigail tentou levantar muito rápido e acabou escorregando e caindo, sem pensar duas vezes, larguei minha mochila e corri de volta só para encontrar a senhora sentada no mesmo lugar com um sorriso presunçoso no rosto. Franzi o cenho sem entender o que ela estava fazendo e logo depois compreendi o que ela fez. Ela usou isso para que eu voltasse. – Limpe o vidro, querida. Depois continuamos a nossa conversa e antes que você tente novamente, eu não vou permitir que você saia daqui sem antes ouvir o que eu tenho a dizer. O que acha? – propôs. Meu olhar vagou dos cacos de vidro no chão para ela e depois para a saída. Ela realmente não tinha como fazer isso sozinha e eu não tenho mais nada a perder se ficar por mais alguns minutos, afinal, ela parece acreditar em mim e parece ter um jeito de me ajudar. Eu não deveria, mas nesse momento, senti uma pontada de esperança de que nem tudo estava perdido.
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