Mentiras

860 Palavras
PAULINHA NARRANDO CONTINUAÇÃO.. Se alguém me dissesse que eu ia ser a rainha da casa do Isaías, eu ia rir. Mas olha só onde é que eu tô. Essa mulherzinha dele, a Antonella, vive se fazendo de superior. Só porque é do asfalto? Porque usa perfume caro? Porque anda com as perna cruzada? Eu sei muito bem o que ela faz quando ninguém tá olhando. Sei dos remédios escondidos que toma, sei que não quer dar filho pro Isaías. Mas eu dei. Ou pelo menos… deixei ele pensar que dei. Porque a verdade é outra, né? A verdade é que esse filho é do Jim. Um dos vapores dele. Novo, esperto, de olho no trono. Ele que me pegou de jeito, me fez gemer baixinho no barraco velho atrás da birosca. Mas que futuro ele tem? Nenhum. Então fiz o que qualquer mulher com dois dedos de cabeça faria: joguei pro Isaías. Ele mordeu. Mordeu como quem vê um pedaço de herança na barriga de alguém. E agora, tô aqui. Andando pela casa como dona, estufando o peito, botando pressão. Porque se ele acredita que eu tô carregando o sangue dele, então eu sou mais do que qualquer uma. Mais do que a Antonella, inclusive. Hoje o Isaías saiu cedo, foi resolver coisa de morro. Deixou a casa nas minhas mãos. Aí eu pensei: hoje eu vou mostrar quem manda. Comecei devagar, cutucando. — Você costuma lavar os copos com esse cheiro de ovo mesmo? — falei, bem casual, quando vi a Antonella na cozinha. Ela não respondeu. Nem olhou pra mim. Fingi que ri. — Ah, tá cansada? Tá naqueles dias? Sei como é… difícil ficar deitada o dia todo com as pernas pro ar e ainda fingir ser esposa. Ela me encarou por um segundo. Só um. O suficiente pra eu sentir que tava cutucando certo. O dia passou, e eu continuei. A cada vez que ela limpava um cômodo, eu bagunçava. Toda vez que ela terminava de dobrar uma toalha, eu jogava outra no chão. E quando ela sentava, eu falava alto, bem alto, sobre o bebê. Sobre o nome que eu e Isaías ainda não tínhamos escolhido. Fiz questão de fazer carinho na barriga, de andar de um lado pro outro. Fiz até drama de enjoo, só pra chamar atenção. — Ele vai ser lindo, né? Vai ter os olhos do pai. — falei perto dela. Ela fingiu que não ouviu. — E a boca… ah, vai ser igualzinha a do Jim… quase escapou. Mas segurei. Corrigi rápido: — igualzinha a do Isaías — Porque o segredo ainda era meu. E do Jim. Ele não falava, eu também não. Ele sabia o que tava em jogo. Sabia que se esse bebê nascesse e fosse assumido como herdeiro, metade do caminho já tava andado. Eu seria a rainha do morro e ele… o braço direito do futuro. Quando o sol começou a se esconder, a casa tava em silêncio, e a Antonella tava exausta. Dava pra ver no jeito que andava. Nos olhos fundos, nas mãos cansadas. Ela foi até a sala, limpou a mesa, organizou as almofadas. Eu cheguei devagar por trás. — Não tá cansada de fingir que não se incomoda? Antonella — Me deixa em paz, Paulinha. — Não. Hoje não. Antonella — Eu só quero silêncio. — E eu quero respeito. Essa casa é do pai do meu filho. Você devia aprender a aceitar. Ela virou. Os olhos queimando. A raiva acumulada o dia todo explodindo. Antonella — Essa casa não é sua. Você é só uma barriga — alugando espaço. E nem disso você tem certeza. — Como é que é?! Antonella — Você ouviu — A fúria bateu em mim. Eu não pensei. Só fui. Avancei. — Vai me tirar da casa do MEU homem? Vai me tirar do lado do pai do MEU filho?! — Ela não se acovardou. Veio também. A mão dela empurrou meu ombro, eu escorreguei no tapete e, pra não cair, joguei o corpo pra trás. Foi aí que tudo aconteceu ao mesmo tempo. Meu pé torceu, a dor subiu até a espinha, e minha barriga — meu mundo — bateu na quina da mesinha de centro. O baque ecoou pela casa. O som do vidro. O rangido do meu grito. — AI MEU DEUS! O BEBÊ! — gritei com tudo o que eu tinha. Senti o sangue quente escorrendo pelas pernas. Olhei e vi. Vermelho. Vivo. Doloroso. A Antonella congelou. — Eu não quero perder! — gritei. — Eu não quero perder ele! Nessa hora, a porta bateu. Isaías entrou com o Granada logo atrás. Viram a cena. O sangue. Meu corpo no chão. A Antonella parada. Isaías — O QUE VOCÊ FEZ?! — rugiu. Ele foi pra cima dela. Eu gritei mais: — Ela me empurrou! Ela me empurrou! O bebê — A Antonella tentou explicar, mas o ódio do Isaías era maior. Ele levantou a mão, pronto pra dar um tapa. Foi quando o Granada se colocou no meio. A mão dele agarrou o pulso do pai no ar, firme, firme como uma sentença. OBS: PARA MAIS CAPÍTULOS COLOQUEM O LIVRO NA BIBLIOTECA
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