GRANADA NARRANDO
Depois do jantar, fiquei ali sentado na sala, largado no sofá de couro, observando o Isaías mexer no copo dele de uísque com gelo. A Paulinha tinha subido, arrastando os chinelos, e a Antonella… bom, a Antonella desapareceu na própria sombra. Tava claro que ela não queria dividir nem o ar do ambiente com ninguém.
Isaías respirou fundo e me encarou por cima do copo, com aquele olhar que tentava ser de comando, mas que, pra mim, era de quem já tinha perdido muito e tentava manter o controle na marra.
Isaías — Vai dormir aqui hoje — ele disse, seco. — A casa que eu mandei montar pra tu ainda tá sem os móveis. Chega amanhã. Roupa de cama tá no quarto de hóspedes. Te ajeita lá.
Assenti com a cabeça e me levantei.
— Tranquilo. Amanhã cedinho eu vou descer pra boca. Quero ver como tá funcionando esse fluxo teu aí.
Ele deu um sorriso fraco, mais debochado do que receptivo.
Isaías — Ver como funciona ou ver o que pode ser seu? — Ignorei. Não ia alimentar essa vaidade dele. Peguei o caminho do corredor e entrei no quarto que tinham me indicado. Era espaçoso, limpo, com ar-condicionado e cortinas grossas que não deixavam passar luz. Me joguei na cama e fiquei encarando o teto por um tempo, pensando em tudo aquilo. A Paulinha grávida, a mulher dele quase muda, com os olhos vazios… e ele querendo me transformar no herdeiro. Engraçado como a vida dá voltas.
Acordei cedo, como de costume. No morro, a gente aprende a acordar com os galos, os gritos e o barulho das sirenes. Desci e encontrei só a Antonella na cozinha, preparando café. Ela não me olhou, não me cumprimentou. E eu? Também não fiz questão. Comi uma fatia de pão com presunto, tomei um gole de café e fui direto pra boca.
Chegando lá, o clima era de alerta, mas nada fora do normal. A molecada me olhava com respeito, mas também com aquela desconfiança de quem sabe que eu sou novo ali, mas que carrego o sangue de quem manda. Conversa vai, conversa vem, chamei o Jotapê tal de jim , se disse ser uns dos vapores mais antigos, e troquei uma ideia com ele. Ele é o mesmo que, segundo os boatos na favela , andava enfiado com a Paulinha.
— Tá tranquilo aqui? — perguntei.
Jim — Tá sim. Tão de olho no tráfico da entrada do Complexo, mas qualquer coisa a gente fecha os acessos. O resto flui.
— E Paulinha? — Ele deu uma risadinha, meio debochada.
Jim — Barriguda e metida a patroa. Anda batendo de frente com a fiel do chefe — desviou o assunto..
Murmurei um “hum” e continuei fiscalizando tudo.
Lá pelas quatro da tarde, resolvi voltar. Tinha coisa demais entalada na minha cabeça, e eu queria manter o controle antes que qualquer merda explodisse.
Subi o morro a pé mesmo. Quando cheguei perto da casa, ouvi gritos. Gritos femininos. Pressionei o passo. Quando entrei, vi a sala um caos. A Antonella e a Paulinha estavam se empurrando, se xingando de tudo quanto era nome.
Xxx — SUA VACA! — Paulinha berrava. — TU PENSA QUE É QUEM PRA FICAR ME OLHANDO COM ESSA CARA? TU É UM NADA AQUI! TÁ AÍ POR PENA!
Antonella — Pena? — riu, debochada, já ofegante. — E você tá aqui por quê? Porque teve a brilhante ideia de engravidar de um homem que nem te respeita? Te enxerga, Paulinha!
Paulinha partiu pra cima com tudo, descontrolada. Só que quando foi dar o impulso pra simular que tinha sido empurrada, escorregou com força. O pé virou, ela caiu pra trás e bateu com a lateral da barriga na quina da mesinha de centro.
Paulinha — AHHH! — o grito foi ensurdecedor. — MEU DEUS! MEU FILHO! MEU FILHO, NÃO! NÃO QUERO PERDER MEU FILHO!
O sangue começou a escorrer pelas pernas dela, tingindo o chão. Antonella arregalou os olhos, pálida.
Ia me aproximar mas ouvi passos pesados atrás de mim , me virei e vi Isaías
Ele entrou na sala feito um touro bravo, os olhos saltando de raiva. Quando viu Paulinha sangrando, se voltou direto pra Antonella.
Isaías — O QUE VOCÊ FEZ?! — ele rugiu, avançando com a mão levantada.
Sem pensar, me joguei no meio.
Agarrei o pulso dele no ar, com força.
— Nem tenta — falei firme, com os olhos cravados nos dele. — Encosta nela e a merda vai ser maior do que tu pode limpar.
Ele me encarou, surpreso. Pela primeira vez, talvez tenha notado que eu não era mais um moleque. Soltou um palavrão entre os dentes e apontou pra porta.
Isaías — Pega ela. Vamo pro hospital. Agora!
A Paulinha berrava de dor dentro do carro, o Isaías no volante, acelerando feito um doido. Eu sentado no banco do carona .
Chegando no postinho, já gritaram por uma maca. Ela foi levada enquanto Isaías berrava com os funcionários, mandando chamar médico, mandando correr.
Eu fiquei mais afastado, de braços cruzados perto da porta. Era sangue demais escorrendo pelas pernas dela, era desespero demais nos gritos dela. Não tinha como não sentir o clima pesado ali.
Isaías — Fica aí. Eu vou com ela. — Isaías me disse antes de sumir pelos corredores.
Fiquei ali, esperando. Dez minutos depois, ele voltou com a cara suada, olhos acesos de raiva.
Isaías — Volta pra casa — ele disse.
— Pra quê?
Isaías — A Antonella tá lá. E eu não quero que ela tenha tempo pra fugir. Fica de olho. Quando eu sair daqui, vou resolver isso. Vai.
Aquilo me soou errado. O jeito que ele falou, como se estivesse culpando ela por tudo. E eu tinha visto o que tinha acontecido. A Paulinha se jogou. Foi ela quem caiu. Mas eu não discuti.
— Tá. Tô indo — Desci o morro com o sangue fervendo. O céu já tava escuro. A rua silenciosa, o vento úmido. Quando entrei na casa, a primeira coisa que ouvi foi um soluço. Um, dois, três… e logo depois um som abafado de choro vindo da sala.
Fui andando devagar. Quando virei no corredor, vi ela. Antonella.
Estava de joelhos, caída no canto do sofá, com as mãos no rosto. O cabelo despenteado, o corpo tremendo.
Antonella — Eu… eu não queria que isso tivesse acontecido — ela dizia, pra ninguém. — O bebê não podia morrer… era uma vida… era uma criança…
Ela não me viu de primeira. Eu fiquei parado por alguns segundos, vendo. Tentando entender o que aquela mulher carregava por dentro. Ela tremia. Se balançava pra frente e pra trás, o corpo todo tomado por uma crise. Os olhos vermelhos, a boca aberta, ofegante.
Aquela cena me pegou. Eu já tinha visto aquilo antes. Minha mãe. Nas piores épocas. Quando ela desabava sem aviso, tomada por um desespero sem nome.
— Ei… calma — falei, dando um passo à frente.
Ela levantou o rosto na hora, os olhos arregalados, cheios de pavor. E quando eu tentei me aproximar, ela começou a se debater, empurrando o ar com os braços.
Antonella — Não… não encosta em mim! Não chega perto!
— Calma. Eu só quero ajudar — Ela se levantou de súbito, cambaleando, o corpo trêmulo demais pra sustentar o peso da crise.
Antonella — Eu não queria isso… eu juro por Deus… — Ela se encolheu, as mãos nos ouvidos, como se quisesse calar a própria mente.
Quando eu tentei segurá-la pelos ombros, ela se debateu, e por pouco não caiu. Eu fui mais rápido, puxei ela pra perto, enlaçando os braços ao redor da cintura dela por trás.
— Calma, respira. Respira, mulher! — Ela se debateu mais uma vez, mas eu segurei firme. Firme como fazia com minha mãe, quando ela gritava sem som, quando dizia que o mundo era grande demais pra ela — Respira comigo — murmurei perto do ouvido dela. — Inspira. Vai. Um… dois…
Ela chorava, soluçando alto. As pernas já fracas. E num impulso, o peso dos dois fez a gente cair juntos no chão da sala. Eu caí primeiro, ela caiu por cima, e ali, sentados no chão frio, eu segurei ela nos meus braços enquanto o corpo dela tremia como se estivesse à beira de quebrar.
Ela não dizia mais nada. Só chorava. Chorava como quem segurou tudo por muito tempo e agora não tinha mais como conter.
Apoiei o queixo na cabeça dela e fiquei ali. Sem saber o porquê, mas sem coragem de soltar.
Ela não era santa.
Mas também não era o monstro que ele pintava.
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