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1692 Palavras
Mirella A maldita conversa que eu não deveria estar ouvindo não para de se repetir na minha cabeça me encheu de ansiedade. Por que eu ouvi aquela conversa escondida? Por que não subi as escadas como Marco tinha me dito? Assim, eu não saberia o que realmente estava acontecendo. — Meu pai concorda com você. Por mais que ele não confie em Esposito, ele não quer acreditar que o homem sacrificaria a própria filha — disse Matteo. — Ele a sacrificou quando a prometeu a Garcia. Foi isso que deu início a toda essa confusão. Fiz um escândalo e corri direto para os braços protetores de Marco, que me esperava. — Como um homem pode fazer isso com a própria carne e sangue? — perguntou Marco. Essa foi uma ótima pergunta. Uma que eu planejava fazer ao meu pai na próxima vez que o visse. — Inicialmente, meu pai achou que eu poderia usar a Mirella como moeda de troca, mas, dadas as circunstâncias, acho que essa não é uma opção — disse Marco ao irmão. Foi um alívio. — Ah, a fera se apaixonou pela princesa. — Quando Matteo riu, eu sorri, porque apreciava ser a beleza da b***a de Marco. — Talvez tenhamos que adiar o casamento até descobrirmos se ainda estaremos vivos na semana que vem. — Por que você diria isso? — perguntou Marco, e eu também queria ouvir a resposta. — Vamos eliminar quem for necessário. — Até se isso significar matar o pai da Mirella? — Não — sussurrei, apoiada atrás da porta. — Se for isso que eu tiver que fazer. Essas eram as coisas que ele não queria que eu soubesse. Era isso que ele queria dizer quando afirmou que eu não seria capaz de perdoá-lo por proteger sua família. Mas eu não podia julgá-los com muita severidade. Meu pai e Garcia estavam, sem dúvida, planejando a morte de Marco e Matteo. Quem sairia vitorioso? Ricardo entrou na cozinha. — Aqui está você. — Hã? — Deixei cair a tigela vazia no chão. — Você me assustou. — Você está tão assustada hoje. — Ele pegou a tigela e me entregou. — Será que fiz isso? — Você também ficaria se tivesse ouvido o homem que ama ameaçar matar seu pai. — Eu estava perdida em pensamentos. — Sobre algo bom? — Não, na verdade, não. — Por quê? — Se você não percebeu, eu estou sendo mantida aqui contra a minha vontade. — Eu pré-aquecia o forno para os brownies que ia fazer. — Você nem sempre age como se isso fosse um problema. — Na maior parte do tempo não é, mas eu sinto falta da minha mãe. Isso era verdade, mas eu tinha um motivo oculto para aquela conversa em particular. A culpa me consumia pelo que eu estava prestes a desencadear, mas não havia nada que eu pudesse fazer — não se eu quisesse impedir o desastre iminente. — Eu entendo. — Ricardo tocou meu braço. — Tenho certeza de que ela está preocupada com você. — Eu faria qualquer coisa para ouvir a voz dela agora. — Você contou isso ao Marco? Tenho certeza de que, se ele soubesse o quanto isso significa para você, abriria uma exceção. — Você já conheceu o homem? — Tirei a caixa de ovos da geladeira. — Ele não abre exceções. — Ele não reorganizou a segurança no outro dia quando… — Te perdi. — Você não me perdeu. — Abri a despensa à procura do óleo. — Eu fui dar uma caminhada. Você sabia que eu estava na propriedade. — Marco não vê isso dessa forma. — Desculpa. Eu estava ainda mais arrependida pelo que estava prestes a fazer. Se tivesse sucesso, Marco certamente descontaria isso em Ricardo. — Marco tinha razão — disse Ricardo. — Eu não deveria ter deixado você ir sozinha. — Você não deveria ter deixado? — Coloquei a mão no quadril. — Você deixou? — Eu poderia ter mantido uma distância segura e ainda assim te dado um tempo. — É por isso que você é tão doce. — Toquei a mão dele. — Você sempre cuida de mim. — Sempre. — Eu queria que minha mãe soubesse que tenho alguém como você cuidando de mim. — Olhei para os pés, incapaz de encará-lo enquanto mentia. — Pelo que ela sabe, posso estar acorrentada em um porão ou algo assim. — Marco jamais faria isso. — Eu sei. — Acariciei o dorso da mão dele. — Mas minha mãe não sabe. Marco está tão envolvido nessa guerra com meu pai que acha que ela não precisa saber que estou segura. Ele esquece o lado humano. — Provavelmente porque quer manter seu pai na dúvida. — Minha mãe não contaria a ninguém se eu conseguisse falar com ela. Ela ficaria tão feliz em saber que estou bem. Eu a faria jurar segredo, e ela concordaria. Nós temos esse tipo de relação. — Olhei para cima, usando meu melhor olhar inocente, e suspirei. — Sinto tanta falta dela. — Sinto muito. — Ele tocou meu ombro. — Queria poder fazer algo. — Gostaria? — Olhei para ele. — Gostaria do quê? — Bem, talvez eu pudesse perguntar ao Marco. — Não! Ele franziu a testa. — Eu já perguntei ao Marco. Se ele souber que vim até você, vai achar que o traímos, e nenhum de nós quer isso. — Não, eu não quero chateá-lo. Ricardo pegou o celular, e eu entrelacei as mãos atrás das costas, tentando não parecer ansiosa demais. O tempo era essencial. — Se você me der o número da sua mãe — ele disse —, posso ligar mais tarde e avisá-la de que você está bem. — O quê? — Eu sabia que era fácil demais. — É gentil da sua parte, mas acho que ela se sentiria melhor ouvindo isso de mim. Quero que ela saiba que estou bem com a situação. Eu me odiava por fazer aquilo. Ricardo tinha sido tão bom comigo, e eu estava mentindo descaradamente. Eu precisava daquele telefone, mas não para ligar para minha mãe. — Se eu pudesse pegar seu telefone emprestado, ligaria para ela mais tarde. Quando Marco não estiver por perto. — Desculpa, Mirella, mas não posso te dar meu celular. — Ele balançou a cabeça. — Marco já está furioso comigo. Se ele descobrir, me mata. — Ele não vai descobrir. Eu não vou contar. Olhei rapidamente para o celular. Por favor… Estou tentando salvar a vida de Marco. Ricardo olhou para mim e depois para o aparelho. — Vamos. Ele estendeu a mão, mas, quando eu a peguei, Marco entrou na cozinha. Ricardo deixou o celular cair, mas o apanhou rapidamente debaixo de uma cadeira. — O que vocês dois estão aprontando? — perguntou Marco. — Nada — respondeu Ricardo rápido demais. — Estamos fazendo brownies. — Beijei a bochecha de Marco. — O que você está fazendo? — Verificando você. — Ele me prensou contra a bancada, apoiando as mãos de cada lado. — Garantindo que não se meta em encrenca. — Vou deixar vocês dois a sós. — Ricardo saiu apressado. O coração dele batia tão rápido quanto o meu? — Você o assustou. — Passei por baixo do braço de Marco. — Ele ia me ajudar com os brownies. — Você não sabe fazer brownies de caixinha? — Não. Nunca fiz isso antes. Nós temos pessoas para isso. — Eu também, mas sei fazer brownies de massa pronta. — Isso é porque você sabe fazer qualquer coisa. — Mostrei a caixa. — Já que você espantou o Ricardo, pode me ajudar. — Uma mulher que se formou em três anos com certeza consegue fazer isso. — Ele pegou a caixa. — Você já pré-aqueceu o forno e separou os ingredientes. — Eu li as instruções. — Isso já é metade da batalha. — Ele sorriu. — Vamos enfrentar isso juntos. — Você quer cozinhar comigo? — Isso é tão chocante assim? — Você não parece o tipo de homem que cozinha. — Estou cheio de surpresas. — Ele empurrou a tigela para mim. — Despeje a mistura aí. Com cuidado, despejei o pó de chocolate na tigela. Ele lavou as mãos, pegou uma forma e untou o fundo com facilidade. Observei seus ombros largos, a força contida em cada movimento. — Quebre os ovos. — O quê? — Olhei para ele, confusa. — Você pode quebrar os ovos na tigela. — Como faço isso? — Você está brincando comigo? — Eu já disse que temos pessoas para isso. — Princesa, você sempre confirma o que eu digo. — Ele me entregou um ovo. — Mas nem tudo é r**m. Apaixonar-me foi a maior das primeiras vezes que vivi aqui. — Sou uma compradora experiente — disse, examinando o ovo. — Sei gastar dinheiro. — Não vou discutir isso. — Ele observou. — Quebre o ovo. — Não vai cair casca na tigela? — É possível. — Ele se posicionou atrás de mim, pegando minha mão. — Deixe-me ajudar. Meus joelhos fraquejaram quando o peito dele pressionou minhas costas. — Deixe-me liderar. — Sua coisa favorita. Ele me ensinou, beijou-me suavemente e quebrou o ovo sem deixar cascas. — Como você fez isso? — Eu tenho habilidades. — Não vou discutir isso — murmurei. — Você discute todo o resto. — Agora tente este. Tentei… e falhei. — Habilidades — ele disse, recolhendo as cascas. — É prática. — Onde você aprendeu a cozinhar? — Minha mãe garantiu que fôssemos autossuficientes. Falamos dela. Da perda. Do silêncio que ficou. — Nunca te vi chorar — ele disse, limpando meu rosto. — Eu tento não chorar. — Eu fui c***l com você — confessou. — Mas você nunca chorou. Eu chorei. Só não na frente dele. — Quero entender você — ele disse. — Mistério é bom — respondi. — Como o mistério entre você e Ricardo? Meu coração falhou. — Absolutamente nada. — Tem certeza? — Ele me encarou. — Se você estiver mentindo, as coisas vão piorar muito. Tem algo que queira me contar antes que seja tarde demais?
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