A madrugada no alto do Turano tinha um silêncio próprio, interrompido apenas pelo vento que uivava nas frestas das janelas da mansão. O quarto estava mergulhado em uma penumbra azulada, quebrada apenas pelos LEDs dos equipamentos eletrônicos. Sete dormia o sono leve de quem vive com a mão no gatilho, até que um chiado estático, baixo mas insistente, vindo do rádio sobre a mesa de cabeceira, o trouxe de volta à realidade.
Ele abriu os olhos instantaneamente. Sem movimentos bruscos, esticou o braço e apertou o botão do PTT.
— Posto 1 na escuta. Alguma novidade na divisa? — a voz de Sete saiu rouca, um sussurro de autoridade que não admitia falhas.
— Tudo tranquilo, patrão — a voz do vapor do outro lado veio abafada pelo rádio.
— Movimentação zero na Maré. Os moleques do Abutre recuaram mesmo. O morro tá no setor, pode descansar.
— Mantenham a visão. Qualquer estalo de galho, me acionem. Câmbio.
Sete soltou o rádio e soltou um suspiro longo, sentindo a adrenalina da guerra baixar. Foi quando ele percebeu o peso quente e macio sobre seu peito.
Catarina estava completamente entregue ao sono. Ela havia se aninhado em cima dele durante a noite, buscando seu calor como se Sete fosse o único porto seguro em um oceano de caos. A respiração dela era lenta, profunda, e o rosto estava relaxado, sem as linhas de expressão marcadas pelo terror que ela carregava durante o dia.
Sete inclinou a cabeça para trás no travesseiro e soltou um riso anasalado, quase imperceptível. Ele reparou que, mesmo com o guarda-roupa com peças novas, ela continuava vestindo uma de suas camisetas de malha preta. A peça, enorme nela, deixava os ombros delicados à mostra e subia pelas coxas, revelando a vulnerabilidade que ela só mostrava ali, entre aquelas quatro paredes.
— Teimosa... — ele murmurou com um sorriso de canto, achando graça daquela mania dela de querer habitar as roupas dele.
Com um cuidado que contrastava com suas mãos calejadas e marcadas por cicatrizes, Sete a puxou para ainda mais perto. Perto dele, Catarina parecia minúscula, uma criatura frágil que cabia inteira sob a proteção de seus braços. Ele envolveu as costas dela com o braço esquerdo, sentindo a pele macia sob o tecido fino, e a trouxe para o encaixe perfeito de seu corpo.
O rosto dela ficou apoiado bem em cima do coração dele, e o cheiro do shampoo de lavanda misturado ao perfume natural da pele de Catarina invadiu os sentidos de Sete. Era um cheiro que ele estava começando a associar à palavra "casa".
A mão direita de Sete desceu naturalmente, repousando sobre a coxa dela. Ele não a apertou; apenas deixou o peso da mão ali, sentindo a firmeza e o calor da perna de Catarina. Enquanto o sono voltava a reclamar seu espaço, os dedos dele começaram um movimento rítmico, um carinho lento e quase inconsciente na perna dela, subindo e descendo com uma delicadeza que poucos no crime acreditariam que ele possuía.
Catarina soltou um suspiro baixinho no sono, acomodando-se ainda mais no abraço, como se sentisse, mesmo dormindo, que ali nada de m*l poderia alcançá-la. Sete fechou os olhos, a guarda finalmente baixa, embalado pelo som da respiração dela. O dono do Turano dormiu de novo, mas dessa vez, não era o sono do soldado, era o sono de um homem que sabia que, naquela noite, o seu tesouro mais valioso estava bem guardado sob seu próprio peito.