A luz pálida do amanhecer começou a filtrar pelas persianas de metal da UTI, trazendo consigo o som distante do despertar do Turano — o primeiro ronco de uma moto subindo a ladeira e o canto dos pássaros que pareciam ignorar a guerra lá embaixo.
Tico sentiu o corpo protestar ao se mexer na poltrona. Suas costas estavam travadas, mas o primeiro reflexo, antes mesmo de abrir os olhos completamente, foi apertar os dedos que ainda envolviam a mão de Ayla.
Ele estava ali, com a mesma camiseta cheirosa, o rosto com uma barba rala de quem não via um espelho há dias, mas com o olhar fixo no monitor. O gráfico da respiração dela estava constante, um desenho rítmico de vida que ele aprendeu a venerar durante a madrugada.
Por volta das oito da manhã, a porta correu e o médico intensivista entrou, seguido pela enfermeira com a bandeja de medicações. Tico levantou-se num salto, ajeitando a postura, o coração acelerando na expectativa do veredito.
O médico aproximou-se da maca, checou a ausculta pulmonar de Ayla, olhou o dreno e conferiu o nível de oxigenação no sangue. Ele sorriu por trás da máscara, um gesto que fez os ombros de Tico despencarem de alívio.
— Ela surpreendeu a gente, Tico — disse o médico, anotando os dados no prontuário.
— Passou a noite inteira muito bem, sem nenhuma alteração na pressão e, o mais importante, o pulmão está sustentando a respiração sozinho sem esforço. Se ela continuar mantendo esse quadro até a hora do almoço, eu assino a transferência. Ela pode voltar para o quarto 04.
Tico sentiu um nó na garganta. A UTI era um lugar de medo; o quarto era um lugar de cura.
— No quarto... eu posso ficar com ela o tempo todo de novo, né, doutor?
— Sim, Tico. Lá o regime é de acompanhante integral. Ela ainda vai precisar de muita fisioterapia respiratória e cuidados, mas o perigo iminente de morte ficou para trás.
Assim que o médico e a enfermeira saíram para preparar a papelada, o silêncio do quarto mudou de textura. Tico voltou para o lado da maca, debruçando-se sobre a grade. Ele viu que Ayla estava com os olhos abertos, acompanhando cada palavra que fora dita.
— Tu ouviu, pequena? — Tico sussurrou, a voz embargada, um sorriso largo e genuíno iluminando seu rosto cansado.
— A gente vai sair desse aquário. Tu vai voltar pro teu quarto, pro teu conforto. Tu venceu a morte de novo, Ayla.
Ayla olhou para ele, e o que Tico viu o desarmou por completo. As lágrimas começaram a brotar nos olhos de mel dela, escorrendo pelas têmporas e molhando o travesseiro. Não eram lágrimas de dor física, eram lágrimas de quem finalmente acreditava que o pesadelo estava perdendo a força.
Ela fez um esforço surreal. Seus lábios, ainda pálidos e levemente inchados, curvaram-se para cima de forma mínima, mas clara. Ayla deu a Tico o seu primeiro sorriso consciente. Era um sorriso fraco, trêmulo, mas carregado de uma doçura que fez o soldado sentir que todo o sangue derramado na Viela 12 e todas as noites em claro tinham valido a pena.
— Não chora, não... — Tico pediu, usando o polegar para secar o rosto dela com uma delicadeza extrema. — Agora é só alegria, pequena. Tu tá voltando pra gente.
Ayla apertou a mão dele, um aperto que agora tinha firmeza, uma promessa silenciosa de que ela não ia desistir. Tico inclinou a cabeça e encostou sua testa na dela, fechando os olhos e deixando que aquela conexão falasse tudo o que as palavras — proibidas pelo maxilar inflamado — ainda não podiam dizer.
O sol agora batia direto no vidro, e no Turano, a notícia da melhora de Ayla corria pelos rádios como um hino de vitória.