O clima na sede da Maré era de um velório onde o defunto insistia em respirar. O silêncio nos corredores era interrompido apenas pelo som rítmico de um canivete batendo contra uma mesa de madeira. Abutre estava sentado nas sombras, com o rosto iluminado apenas pelo brilho de um cigarro que queimava até o filtro. A humilhação da Viela 12 e o enquadro que levara da cúpula ainda latejavam em sua mente como uma ferida aberta.
À sua frente, sentado com a postura de quem domina não só o morro, mas o medo de quem vive nele, estava Cão de Briga.
Cão de Briga era o tipo de relíquia que a facção mantinha em "reserva estratégica". Um homem que não sorria, com uma cicatriz que subia do pescoço até a têmpora, e que tinha a fama de ser o arquiteto das invasões mais sangrentas do Rio. Ele era o mesmo que, meses atrás, dera o lance mais alto para "comprar" Catarina das mãos do Abutre — um acordo de posse e poder que havia sido forjado, antes de Catarina fugir.
— Eles estão rindo, Cão... — a voz do Abutre saiu rouca, carregada de um veneno puro.
— O Sete e aquele capacho do Tico estão rindo da minha cara lá no alto do Turano. Acham que porque a cúpula mandou recuo, eu vou virar evangélico e esquecer o que é meu.
Abutre deu um soco na mesa, fazendo as cinzas voarem.
— A manicure tá viva. A Catarina tá dormindo no morro do meu inimigo. E eu? Eu tô aqui, proibido de dar um tiro por causa de "ética de negócios". Que p***a de crime é esse que se preocupa com a surra de uma p*****a traidora?
Cão de Briga parou de brincar com o canivete. Ele levantou os olhos frios e fixou-os em Abutre. O silêncio dele era mais ameaçador do que qualquer grito.
— A cúpula é velha, Abutre. Eles gostam de dinheiro fácil e paz comprada. Mas o dinheiro só é fácil enquanto ninguém tem coragem de chutar o tabuleiro — disse Cão de Briga, a voz grave e sem emoção.
— Você foi afobado. Errou na ação. Bateu na menina em praça pública e deu munição pro Sete fazer política. No crime, a gente não faz barulho antes de cortar a garganta.
Abutre inclinou-se para frente, os olhos brilhando com uma loucura desesperada.
— Eu não vou ficar parado, Cão. Eu não vou ver o Turano prosperar com o que eu deixei escapar. Se a cúpula não quer guerra, a gente faz a guerra por baixo dos panos.
Cão de Briga fechou o canivete com um estalo seco. Ele se levantou, caminhando até a janela que dava para a divisa dos morros.
— Eu não esqueci o que eu paguei pela Catarina, Abutre. O Sete me deve um patrimônio. E eu não sou homem de levar prejuízo. O nosso acordo de derrubar o Turano e tomar aquela facção pra gente? Ele continua de pé. Mais do que nunca.
Ele se virou para Abutre, um sorriso c***l e mínimo surgindo no canto dos lábios.
— A cúpula mandou você não atacar. Mas eles não disseram nada sobre "incidentes isolados". Eu tenho uns moleques que não são da Maré, gente que ninguém conhece. Mercenários que fazem o serviço e somem. Enquanto o Sete acha que a diplomacia resolveu tudo, a gente vai minar o chão deles.
Abutre sentiu o ânimo voltar. O apoio do Cão de Briga era o que ele precisava para desafiar as ordens superiores.
— O que você tem em mente? — perguntou Abutre.
— O ponto fraco deles são elas. — Cão de Briga respondeu, a voz gélida. — Eles acham que o Tico é um escudo humano, mas até escudos quebram se você bater no lugar certo. A gente vai esperar a poeira baixar, deixar eles acharem que a trégua é real. E quando eles baixarem a guarda... a gente ataca o coração do Turano.
Abutre soltou uma risada sombria. O plano estava sendo redesenhado.
— Eu quero a Ayla viva, Cão. Quero que ela veja o Tico morrer antes de eu terminar o que comecei.
— Você vai ter o que quer, Abutre — afirmou Cão de Briga, guardando o canivete no bolso tático.
— Mas da próxima vez, faça silêncio. O Turano vai cair, e nós dois vamos dividir o que sobrar das cinzas daquele morro. A cúpula vai ter que aceitar o novo comando quando não houver mais ninguém do outro lado pra negociar.
Ali, no escuro da Maré, a traição ganhava forma. A "paz" decretada pelas facções era apenas uma cortina de fumaça. Enquanto Tico vigiava o sono de Ayla no hospital, o Cão de Briga e o Abutre afiavam as facas para o bote final.