Enquanto o elevador descia até o térreo, ele pensava em como se sentia diferente com Clara. Pensou em todas as mulheres que já tinha conhecido e nunca havia levado nenhuma para almoçar, nunca convidara nenhuma para sair e nunca tivera um encontro. Como isso era possível, ele já havia estado com mais mulheres do que a grande maioria dos homens e nunca levara nenhuma delas para almoçar.
Começou a se lembrar da infância deles. Desde quando conseguia se lembrar a família dele e a de Clara estiveram juntas. Foram festas de aniversários, domingos aprendendo a andar de bicicleta, almoços. Ele, Clara, Monica e seu primo George cresceram juntos, mas a amizade entre ele e Clara era diferente. Ele se lembrou com carinho de uma vez que ela ficou muito doente, ele brigou, chorou e esperneou no chão até sua mãe permitir que ele dormisse na casa dela.
- Que cara é essa Eduardo? Está rindo sozinho e tudo – Clara disse.
Eles já estavam caminhando pela rua e ele nem notara, estava mergulhado em pensamentos.
- Você não vai nem acreditar do que eu estava me lembrando. Você se lembra de uma vez que você pegou uma gripe muito forte que te deixou de cama? Você devia ter uns 6 anos e eu 7 mais ou menos.
- Sim, eu me lembro.
- Eu estava lembrando da pirraça que fiz para que minha mãe me deixasse dormir na sua casa.
- Ah sim! Você chegou lá em casa com os olhos vermelhos de tanto chorar e passou aquela noite toda na beirada da minha cama – ela disse com um sorriso.
- Você era minha melhor amiga, eu tinha que cuidar de você e meus pais não queriam deixar, eu fiquei furioso.
- E seus pais só não queriam que você ficasse doente também, coitados, mas você tanto fez que eles não tiveram escolha.
Ele deu uma gargalhada e olhou para ela.
- Me fala uma coisa Eduardo, o que houve com o George, se bem me lembro ele fazia parte da nossa turma e desde que voltei não o vi e nem ouvi ninguém falar dele.
A expressão de Eduardo mudou em questão de segundos. Ele demorou a responder pois a verdade é que não queria falar sobre aquele assunto. Como sabia que hora ou outra teria que contar aquilo à Clara, deu um suspiro e disse:
- George e eu paramos de nos falar a tempos.
- Mas se bem me lembro, na nossa adolescência vocês ainda se falavam, embora ele tenha ficado muito estranho naquela época, até mais do que você.
- O que você quer dizer com isso?
- Quando tínhamos mais ou menos uns 13 anos ele tentou me beijar a força na saída da escola. Eu o empurrei e ele não aceitou o fato de eu não querer beijá-lo, ele ficou com raiva e começou a debochar de mim. Me acusou de gostar de você e não dele, mas que você nunca me daria uma chance, que você sempre me desprezaria. O que na verdade você fez – ela completou – Olhando para trás Eduardo, acho que George sempre teve inveja da nossa amizade, desde a nossa infância.
- O que? – Eduardo pareceu surpreso – Eu não fazia ideia disso! Ele é mais babaca do que eu imaginei. E você não está errada com essa coisa da inveja. Ele sempre teve inveja de mim, mas acho que isso foi um pouco de influência do pai dele.
Ele ficou realmente muito estranho quando nos tornamos adolescentes, ele andava comigo para todos os lados mas estava sempre procurando um motivo para arranjar briga comigo. E o pior é que eu sei a razão desse comportamento dele. Quando meu pai fundou a empresa anos atrás, nunca teve o apoio do irmão dele, pai do George. Meu tio era o tipo de homem pessimista, que sempre falava coisas que deixavam os outros para baixo e com meu pai não foi diferente. Ele disse que meu pai ia se arrepender de fundar aquela empresa, que não ia dar certo, mas meu pai não desistiu. E ele tinha seu pai, que para ser honesto, sempre foi mais irmão do meu, do que o próprio irmão de sangue.
Nossos pais criaram cada um a sua empresa e sempre deram suporte um ao outro, como você mesma deve saber. Na medida que as coisas iam melhorando, meu tio ia ficando mais invejoso, sempre brigava com meu pai, ele nunca ia na nossa casa, somente deixava o George na porta e ia embora. Então, em um determinado momento meu tio mudou. Procurou meu pai com uma postura totalmente diferente dizendo que queria uma parte na empresa do meu pai.
- Nossa, Jeferson ter ficado furioso! Com certeza ele queria parte da empresa só porque ela foi crescendo cada dia mais.
- Exatamente! Meu pai disse que não, brigou com ele, expulsou ele da nossa casa.
- Mas o que a mudança no comportamento do George tem a ver com isso?
- Eu tenho a impressão que o pai dele sempre o envenenou contra a minha família. E adolescência, você sabe como é... eu me afastei de você por que ele me aconselhou a fazê-lo.
- O que? – Clara falou alto demais. Eles já haviam chegado no restaurante e todos olharam para ela.
- Fala baixo! – Eduardo disse – Ele disse que você gostava de mim e que seu eu te esnobasse um pouco, você ficaria caidinha aos meus pés. Eu já fazia isso com as outras garotas e funcionava, então segui o conselho dele. Agora você deve imaginar como me senti um babaca quando você me contou tudo aquilo naquele almoço lá em casa, no dia que fui até seu carro com você para você pegar seu biquíni.
- Eu não consigo acreditar! Ele era nosso amigo – Eduardo viu a expressão de incredulidade no rosto de Clara.
- Clara eu não posso deixar de te perguntar, você gostava mesmo de mim?
- Eduardo... – ela suspirou – eu vou ser muito honesta com você: eu não sei. Claro, eu te achava um gato, afinal, que menina da escola não achava? E se nossa amizade tivesse continuado como sempre tinha sido, eu com certeza ia me sentir por cima das outras meninas, afinal todas iriam querer estar no meu lugar. Mas o que veio depois foi decepção, e saudade.
- Saudade?
- Sim, do tempo que éramos unha e carne. Poxa Eduardo, era muito bom!
- Era mesmo Clara, eu sinto muito por tudo isso.
- Já se passaram muitos anos Eduardo, e cá estamos nós de novo, unidos talvez pelo resto da vida por causa dessa empresa.
Ele olhou para ela um pouco espantado. Não havia pensado nisso ainda.
- Mas a história do George não acaba aí – disse depois de um tempo.
- Não?
- Não. Quando minha mãe adoeceu, meu tio, amargurado como era, acusou meu pai de ter dado mais atenção à empresa do que à minha mãe e que era culpa dele o fato dela estar doente. Eu ouvi a briga Clara, assim como George. Eu fiquei furioso, entrei no escritório do meu pai para defendê-lo, assim como George. Desse momento em diante nos afastamos de vez. Anos depois da morte da minha mãe, me tio, pai do George morreu. Eu não consegui ir no funeral dele, simplesmente não consegui.
- Ei, não fica assim. Eu também não conseguiria – Clara pegou na mão dele por cima da mesa.
- Obrigada – ele respirou fundo – Acho que podíamos fazer nossos pedidos, essa conversa pesada me deixou faminto.
- Claro! Eu também estou morta de fome.
Eram 18:40 quando Clara olhou no relógio. “Saindo tarde de novo, Clara”. Ela havia se matriculado em uma academia que ficava a uma quadra da sua casa e como a essas horas só o pessoal de TI que ficava de plantão estaria na empresa, resolveu se trocar ali mesmo. Depois de colocar sua roupa de academia, foi para o elevador.
Quando o elevador chegou no seu andar, ela olhava as mensagens de sua irmã Mia no celular. Só percebeu que havia alguém lá dentro quando entrou.
- Eduardo! – ela gritou.
- Oi para você também – ele começou a rir.
Quando o elevador voltou a se movimentar, ela percebeu que Eduardo a olhava de cima a baixo.
- Quer parar de olhar para minha b***a assim, na minha cara?
- Por quê? Você prefere que eu olhe quando você não estiver vendo? – ele sorriu malicioso e se encostou no fundo do elevador.
- Você não tem jeito mesmo, não é?
- Clara, se eu parar de te cantar você vai até sentir falta.
Ela balançou a cabeça achando graça e ficou em silêncio até o estacionamento do edifício. Assim que as portas do elevador se abriram, ela escutou o telefone de Eduardo tocar.
- Fala meu velho! – ele atendeu enquanto ela ia em direção ao seu carro. Então a voz dele mudou totalmente de tom. Ele parecia com medo, apavorado. – O que?
Clara virou e o olhou. Eduardo estava branco feito papel. Cambaleou para trás até se apoiar no carro:
- Quando foi isso? Onde ela está? Eu estou indo até aí.
- O que houve Ethan? – Clara chegou perto dele e viu que ele tremia. – Eduardo, pelo amor de Deus, o que houve?
- Não dá pra falar agora Clara... preciso ir até o hospital... MAS QUE DROGA DE ALARME! – ele gritou começando a se desesperar.
- Me dá isso aqui – Clara tomou a chave dele e destravou o carro – Agora me conta quem está no hospital.
- Minha avó... – ele estava tremendo agora – me dê a chave que preciso ir vê-la...
- Nem pensar que eu vou deixar você dirigir assim, entra no carona que eu te levo até lá. – E assim ele fez.