Eduardo não conseguia falar, somente guiava Clara quando era preciso. Se algo acontecesse a sua avó... Quando Clara estacionou, eles entraram no hospital quase correndo.
- Precisamos saber em qual apartamento se encontra Gardênia Magalhães – Clara falou por Eduardo.
- Vocês são da família? – a recepcionista perguntou.
- Ele é neto dela. Eduardo Magalhães .
- Certo – ela olhou no monitor do computador por alguns instantes
– Terceiro andar, apartamento 3013.
O elevador demorou uma eternidade para subir, e quando finalmente eles chegaram ao terceiro andar, logo avistaram o número 3013. Ele sentiu Clara entrelaçar os dedos nos dele antes de baterem na porta e ficou grato pelo gesto, temia não conseguir fazer aquilo sozinho.
Foi Ja quem abriu a porta.
- Filho... Clara... entrem.
E eles assim fizeram. Se não estivesse tão preocupado, teria percebido que Gardênia olhou rapidamente de Eduardo para Clara e em seguida para as mãos dos dois. Clara pareceu perceber, pois delicadamente se soltou dele.
Gardênia estava pálida e abatida deitada naquela cama de hospital. Em seu braço uma agulha onde ela estava recebendo soro e medicamentos.
- Vó, o que aconteceu? – Eduardo finalmente reencontrou a sua voz.
- Meu querido, que bom que você veio. E você também Clara. Peguem uma cadeira e sentem-se.
- Não se preocupe conosco vó, eu quero saber é da senhora. A senhora passou m*l? O que foi que aconteceu?
- Bom, são muitas perguntas – Gardênia riu fraquinho
– Eu vou te dizer meu neto, porque não será possível esconder isso de você. Eu já estava desconfiada que estava doente, cheguei a comentar com você sobre algumas idas ao médico, alguns exames. Eles desconfiavam, mas precisavam de uma confirmação mais exata e parece que tal confirmação se deu hoje.
- Confirmação de que? O que a senhora tem?
- Eu passei m*l logo após o almoço e não adianta esbravejar – ela fez um sinal para que ele se calasse – eu que pedi a Jerfeson que não te alarmasse ainda. Eu me senti m*l, Jeferson me trouxe, eles fizeram mais testes e finalmente encontraram a confirmação que precisavam – ela suspirou antes de continuar – eu estou com câncer no fígado.
O queixo de Eduardo caiu. Ele olhou para o lado e a expressão de Clara era a mesma. Câncer? Só podia ser brincadeira, tinha que ser!
- Meu Deus vó, não pode ser! Mas tem tratamento não tem? Eles já sabem o que fazer? Vão operar a senhora? – ele falou tudo de uma vez só sem parar para respirar.
- Calma filho – foi Jeferson quem respondeu – Infelizmente o câncer já está um pouco avançado meu filho. Os médicos dizem que conseguem garantir mais um ano de vida confortável para sua avó, depois disso, eles não conseguem garantir nada.
As lágrimas queimavam os olhos de Eduardo, sem perceber ele se levantou de uma vez só e saiu de supetão. Praticamente correu pelo corredor do hospital deixando as lágrimas caírem.
- Essa não Jeferson , eu sabia que ele não reagiria bem – Gardenia se lamentou.
- Eu vou atrás dele Dona Gardenia – Clara se levantou – Eu o acho e o trago aqui de volta, te prometo.
- Faça isso minha filha, faça isso. – ela respondeu com um sorriso e Clara se foi.
Ela começou a andar a esmo pelos corredores, aquele hospital era gigantesco. Clara sabia que Eduardo não teria ido embora e deixado a avó ali, ele só levara um susto e fugira. Ela passou pela porta de uma capela e parou somente alguns passos depois, havia alguém lá.
Clara voltou e viu um homem alto, parado no meio da capela e olhando para o altar. Ela reconheceu Eduardo. Entrou na capela andando devagar e quando se aproximou, colocou a mão no ombro dele.
- Eduardo... – ela chamou suavemente.
Quando ele se virou, Clara não o reconheceu. Era a face de um homem desesperado. Ela percebeu que Eduardo fazia força para segurar as lágrimas, pois seus olhos estavam marejados e vermelhos. Ela não resistiu e o abraçou.
- Oh Eduardo... chora, está tudo bem, você pode chorar.
Eduardo balançou a cabeça, se negando a chorar, mas seu corpo inteiro tremia. Ela não sabia dizer por quanto tempo ficaram abraçados, em um certo momento, quando ele parou de tremer, se desvencilhou do abraço dela, mas não a soltou totalmente. Ela olhou nos olhos dele e viu sobretudo, medo.
- Eduardo, você precisa voltar lá e dar apoio a Gardenia, ela precisa de você ao lado dela.
- Estou com medo Clara... não posso perdê-la.
- Escuta – ela o puxou e eles se sentaram em um dos bancos da capela – sabe, eu aprendi uma coisa depois que comecei a fazer terapia. Todos nós sabemos disso, mas ninguém dá muita importância. A vida, Eduardo, é muito frágil, basta um segundo para ela se esvair e não nos sobrar nada além de um corpo sem vida. Além disso ela passa muito rápido pois o tempo que temos nunca, nunca será suficiente para vivermos com as pessoas que amamos, por mais tempo que tenhamos, sempre vamos querer mais e mais tempo. Mas esse tempo acaba e por esse motivo, precisamos aproveitar cada segundo de vida que temos ao lado de quem a gente ama verdadeiramente. E há vida na Gardenia, Eduardo, ela está aqui entre nós, viva! E não importa por quanto tempo ela ainda permanecerá entre nós, você deve aproveitar esse tempo, casa segundo dele, como algo precioso que ele é. Então não fuja dela, por mais medo que você esteja sentindo, é ao lado dela que você deve ficar.
Quando Clara finalmente terminou de falar, percebeu que estava com a voz embargada e que uma lágrima solitária caia pelo seu rosto. Ela realmente acreditava naquilo, só precisava lembrar a si mesma da verdade que existia naquelas palavras as vezes. Eduardo não disse nada a princípio, somente a abraçou apertado.
- Obrigado – ele finalmente a soltou. Levantou, estendeu a mão para ela e continuou – Volta lá comigo?
- Claro – ela aceitou a mão que ele lhe oferecia e voltaram ao quarto de Gardenia.
Clara acompanhou Eduardo de volta ao apartamento de Gardênia . Quando se aproximaram, notou um homem de terno e gravata e com uma pasta nas mãos, parado ao lado da porta do quarto, mas não o reconheceu. Ela apenas acenou para ele e em seguida entraram.
Jeferson estava sentado em uma poltrona ao lado da cama dela mexendo no celular e Gardenia lia um livro. Assim que eles entraram, ela levantou o olhar e abriu um enorme sorriso para Eduardo.
- Oh meu querido! Desculpe ter te dado esse susto – ela disse enquanto abria os braços para ele. Eduardo se jogou nos braços dela e lhe deu um abraço demorado.
Clara observou a cena emocionada, era realmente muito bonito ver como os dois eram conectados. Quando eles finalmente se soltaram, Clara se lembrou que sua irmã Monica dava plantão naquele hospital.
- Gardênia , eu acabei de lembrar de uma coisa, minha irmã dá plantão aqui nesse hospital quando ela não está no consultório dela. Eu poderia ligar para ela e pedir que ela passasse aqui de vez em quando, ver se a senhora está precisando de algo. A senhora sabe por quanto tempo vai ficar aqui?
- Segundo meu médico, por mais alguns dias. Ele me pediu uma série de exames que vão ajudá-lo a decidir o melhor tratamento para meu caso, e assim já posso começar a tomar os medicamentos o mais rápido possível. Eu agradeceria muito se ligasse para Monica sim, qualquer ajuda é bem vinda – ela sorriu.
- Eu posso ir lá para fora e fazer isso agora mesmo, enquanto isso eu dou um pouco de privacidade para vocês.
- Não Clara – foi Jeferson que disse, em seguida se virou para Gardenia – Mamãe, eu acho que já que Clara já está aqui e o Tomas também, podíamos ter uma conversa todos juntos, o que acha?
- Você está certo filho – ela deu um suspiro – ela não deixa de ter interesse nessa conversa também.
Clara olhou de um para outro sem entender do que estavam falando, quando se voltou para Eduardo, ele parecia tão confuso quanto ela. Observou Jeferson abrir a porta do quarto e pedir para que alguém entrasse. O homem que ela vira parado do lado de fora assim que chegou entrou. Ele cumprimentou a todos e se apresentou, era o advogado de Gardenia.
- Bom, já que estamos todos aqui eu gostaria de falar sem interrupções e Eduardo, se você tiver de esbravejar, xingar e brigar que seja depois – Gardenia começou deixando Eduardo e Clara ainda mais confusos. – Mas antes eu preciso saber, Clara minha filha, você sabe o que aconteceu anos atrás com meu outro filho, irmão de Jeferson e o porquê do George não ser mais frequente em nossa casa?
- Coincidentemente, Eduardo me contou essa história hoje. – Clara não estava entendendo o motivo de todo aquele rodeio.
- Ah isso é muito bom! Então você deve saber que depois de todas aquelas brigas, depois de vermos como George mudou e se deixou influenciar pelo pai eu tomei uma decisão. Naquela época eu fiz um testamento e deixei toda a minha parte da empresa para Eduardo . Ele ainda era jovem, estava no início da faculdade, mas eu quis me precaver.
Jeferson fundou sua empresa sozinho, nem eu nem William, pai de George, tivemos participação nisso. Ele usou a herança do pai dele, seu avô Eduardo , como capital inicial. Essa herança foi dividida igualmente entre os dois, nunca houve nenhuma injustiça. Eu tenho as ações que tenho hoje porque James quis colocar a maior parte da empresa no meu nome, eu nunca entendi a razão disso, mas sempre me senti grata com a generosidade. Ainda assim, senti medo que William ou George quisesse colocar as mãos nas minhas ações quando eu morresse, e depois de todas as brigas, toda aquela inveja, raiva e rancor eu não podia deixar. Eles são minha família exatamente como você Ethan, e você Jeferson, mas não seria justo. Por isso eu fiz esse testamento.
Clara ainda não entendia o motivo dela ter que ouvir aquela conversar, mas não fez objeção nenhuma, apenas ouviu:
- Mas Eduardo, você me conhece bem, sou muito observadora. Você sempre foi um ótimo filho, neto e é um ótimo ser humano, mas você sabe que nunca foi muito interessado nos negócios da família. Eu observei você crescer e usufruir do dinheiro que seu pai lhe dava com mulheres, bebidas, noitadas e viagens e comecei a me preocupar. O que seria da empresa quando eu me fosse, e depois seu pai? Me perguntei se havia mais alguém da família que pudesse continuar o trabalho da vida do seu pai depois que ele se fosse, e me lembrei de George. Vocês talvez não saibam, mas eu mantenho contato com ele até hoje. Não me olhe assim Eduardo – ela disse diante do olhar que ele lhe dirigiu – ele é meu neto tanto quanto você. Mas, por manter esse contato eu posso afirmar com certeza: ele não mudou nada! Continua cheio de rancor e inveja de você meu querido!
Você consegue imaginar o desespero que senti quando pensei que depois que eu e seu pai morrermos, e você sem interesse pela empresa, que George poderia tentar e teria chances de conseguir ficar à frente da empresa? E se ele fizer isso um dia, não vai ser para dar continuidade, vai ser para destruí-la. Então eu convenci seu pai e a intimar você a acompanhar o dia a dia da empresa e para minha alegria você o fez com maestria, aprendeu o que tinha para aprender e ajudava seu pai a tomar decisões. O problema é que você continuava vivendo aquela orgia na qual transformou sua vida.
- Vovó! – exclamou Eduardo indignado.
- Não me faça essa cara, você me conhece Eduardo! Acha que eu deixaria de perceber a vida que você leva! Várias mulheres por semana, mas nunca assumindo compromisso com nenhuma. E vamos combinar, o tipo de mulher que se entrega assim, sabendo que você vai para cama cada dia com uma, não é o tipo de mulher que quero que entre para nossa família. São mulheres que não perderiam a oportunidade de ter um filho seu e arrancar todo seu dinheiro, nosso dinheiro, o dinheiro da empresa! Uma mulher dessa que consiga um filho seu teria parte na empresa do seu pai, da nossa família e agora, da família de Clara também!
Então, quando seu pai decidiu fundir as empresas eu pensei que fosse a luz no fim do túnel, seria uma forma de te obrigar a trabalhar, você já estava pronto para isso, então seu pai fez a proposta, ou você assumiria a presidência ou seria deserdado.
- Então isso foi ideia da senhora também? – Eduardo parecia indignado.
- Sim! E seu pai concordou, mas Eduardo, com essa doença as coisas mudaram de figura.
- Como assim vó? Eu já não fiz tudo que a senhora queria? Me tornei um homem de negócios, estou levando a sério o trabalho na empresa. Eu e Clara estamos fazendo um ótimo trabalho até agora!
- Sim, vocês estão, mas ainda não viram nada. Sabe, e isso serve para você também Clara, ter um negócio próprio, principalmente uma empresa grande como a nossa, é como um casamento. As coisas vão muito bem, até que começam a ir muito m*l e você simplesmente não pode virar as costas, você precisa lutar por aquilo. O que quero dizer é que vocês ainda têm um árduo caminho pela frente, e que em algum momento, vão ter que lutar para manter a empresa de pé e que só terão sucesso se tiverem pessoas competentes e que os apoiem ao lado de vocês.
- Mas nós temos um ao outro, vó!
- Sim, mas não sei se você ainda é o homem responsável e comprometido como a M&J precisa que seja. Sua vida pessoal continua uma orgia e isso não é postura do homem de negócios que precisa ser, além do mais, é chamariz de mulheres vigaristas que só querem colocar as mãos em uma parcela do que o Jeferson e o pai da Clara construíram e por isso eu mudei uma cláusula do meu testamento. E antes que você pergunte, eu tenho documentos que atestam minha sanidade mental, então o que consta lá é totalmente legal.
Eduardo, você herdará todas as minhas ações se, no momento da minha morte, se você for um homem casado. Do contrário, minha parte da empresa será leiloada, e devo te lembrar, que se isso acontecer, qualquer pessoa poderá comprá-la, inclusive George.
O queixo de Clara caiu, literalmente. Nunca, nem em um milhão de anos ela achou que Grace diria isso. Ela olhou para o lado, e pela segunda vez naquela noite, viu um Eduardo branco feito gelo e totalmente sem palavras.