Era segunda feira e Clara não conseguia deixar de sentir um certo nervosismo ao pensar que encontraria Eduardo . Ao chegar na empresa, passou de computador em computador para ver como andava o trabalho de animação no qual estava trabalhando. Uma empresa de cosméticos os contratara para fazer a animação que eles usariam na divulgação de uma nova linha de produtos. Era um contrato muito lucrativo e imensamente importante para eles depois da criação da nova empresa. Em seguida, passou na sala de Cintia para pegar alguns papéis com ela. A loira parecia não ter aceitado o fato que não era mais chefe de setor, embora seu salário não tenha diminuído, ela parecia sentir falta do status de chefe. Ainda assim, Clara percebia que ela lhe tratava com uma falsa cortesia, provavelmente somente por que era a vice-presidente da M&J Games e Tecnologia.
Quando foi para sua sala, Milena a acompanhou para passar a agenda da semana. Foi então que descobriu que tinha um almoço marcado para aquele mesmo dia com o dono da empresa de cosméticos para a qual estavam fazendo a animação.
- Segundo a Michelle – Milena explicou
- Micael entrou em contato com Eduardo hoje bem cedo pois quer tratar com vocês de uma mudança no contrato, e como o lançamento da linha nova está próximo, ele pediu que fosse um encontro urgente.
- E Micael disse que tipo de mudança ele quer?
- Não, a Michelle só me ligou para avisar que você e Eduardo têm esse almoço para hoje. Vou anotar o endereço para você.
- Eduardo também vai? – Clara perguntou tentando parecer indiferente.
- Vai – ela lhe lançou um olhar malicioso
- Tem algum problema?
- Não, Milena, nenhum. Vou cuidar desses papéis agora, pode ir.
Ignorando o sorrisinho de Milena, Clara se afundou no trabalho. Faltando uns quarenta minutos para o horário marcado para o almoço, ela resolveu parar o trabalho e se arrumar um pouco para encontrar Micael. “E Eduardo também”, seu subconsciente disse sem permissão. Quando estava saindo do banheiro que tinha na sua sala, deu um grito:
- Eduardo, você quase me matou de susto!
- Bom dia para você também Clara! – ele a olhava de um jeito misterioso, estava sentado na poltrona próximo à janela da sala. Ela não sabia dizer o que ele estava pensando. Para quebrar aquele silêncio incômodo, ela resolveu continuar a conversa como se não tivesse percebido o olhar dele.
- Eu já estava saindo para nosso almoço com Micael. E então, a gente se encontra lá?
- Eu vim aqui para lhe dizer que podíamos ir no mesmo carro, ou no meu ou no seu, o que acha?
- Ahhh... talvez devêssemos ir em carros separados, caso algum de nós queira passar em outro lugar depois do almoço – ela definitivamente não queria ficar dentro de um espaço tão pequeno sozinha com ele.
- Bom, como o almoço deve demorar um pouco, imaginei que ambos voltaríamos para cá depois – ele estava polido demais para o gosto de Clara
- Tudo bem então – ela se deu por vencida.
- Então, vamos no meu carro ou no seu? – ele perguntou enquanto abria a porta para ela sair. Clara agradeceu em silêncio por Milena não estar na mesa dela, não ia suportar o olhar da amiga caso ela os visse juntos.
- Tanto faz desde que você dirija, para ser honesta eu ainda não acostumei a dirigir em São Paulo , principalmente nesse horário.
- Então vamos no meu.
A descida de elevador não foi fácil. A tensão entre eles estava tão grande que Clara achou que poderia pegá-la com as mãos, quando saiu do elevador, já no estacionamento do edifício, sentiu um alívio ao poder respirar melhor no espaço mais amplo.
Quando Eduardo saiu dirigindo pelas ruas de São Paulo, uma música começou a tocar no rádio, Clar reconheceu o som da banda Kings of Leon. Ela se sentiu um pouco mais calma e começou a balançar a perna no ritmo da música.
- Como passou de sexta? – Ethan perguntou de repente.
- Bem e você? Acordei quase meio dia no sábado, mas pensei que teria uma ressaca muito pior do que a que tive.
- Então você deve ser fraca para bebida. Saí no sábado também e nem ressaca tive. – ele falou indiferente.
- Fazia muito tempo que eu não bebia vodka.
- Hum, devia beber mais vezes, o resultado foi... interessante.
- O que você quer dizer com isso? – ela perguntou um pouco brusca demais.
- Gostei de ver você dançando. – ele a olhou de lado.
- Ah sim... gosto de dançar, só sou meio retraída, segundo a Camila, eu preciso me soltar mais.
- Concordo com sua amiga – ele fez uma pausa
- O que achou que eu ia dizer, pareceu brava com minha pergunta.
- Ah, nada não, não fiquei brava, impressão sua.
Ele permaneceu em silêncio por uns minutos, e quando Clara achou que iriam mudar de assunto, ele disse:
- Claro que o nosso beijo também foi um produto interessante do álcool que eu gostaria de ver mais.
- Eduardo... será que podíamos não falar disso? Estamos indo para um almoço de trabalho.
- Claro - ele respondeu quando estacionava o carro próximo ao restaurante
- Mas você sabe que é inevitável que em algum momento a gente fale sobre isso não é? Ou até repita a dose um dia desses – e saiu do carro deixando Clara sem fala.
Duas horas depois e eles estavam saindo do almoço e voltando para o carro de Eduardo. Ele não admitira para si mesmo, mas desde a madrugada de sábado, não via a hora de ver Clara novamente. Passou o fim de semana inteiro se perguntando se devia ou não ligar para ela, mas resolveu não fazê-lo, afinal ele não era de correr atrás de mulher nenhuma e com ela não seria diferente. Tentou parecer indiferente e tratá-la de maneira profissional, mas não resistiu à tentação e tocou no assunto do beijo deles assim que chegaram ao restaurante. E percebeu, com um certo prazer, que ela não era indiferente àquele assunto.
Agora estavam voltando à empresa, mas o único assunto que tinham naquele momento era trabalho. O que Micael queria era aumentar o tempo da animação que eles estavam montando para a divulgação da nova linha de cosméticos deles. Um minuto a mais no tempo da animação renderia para a empresa um lucro considerável, mas também muito trabalho devido ao pouco tempo que tinham.
- Eu quero que você faça os desenhos, Clara.
- Eu não tenho condição de fazer tudo isso sozinha com esse curto tempo Eduardo , eu te disse, acho que fizemos m*l em aceitar.
- Não fizemos não, será ótimo para nós e eu confio em você, sei que vai conseguir. Além disso, não disse que teria que fazer sozinha, disse que eu queria que você fizesse os desenhos.
- Tudo bem Eduardo ! Assim que chegarmos à empresa vou pegar os desenhos que fiz quando começamos esse projeto e continuar de onde paramos. Vou tentar fazer os esboços hoje, nem que eu tenha que ficar até mais tarde na empresa hoje.
- Tudo bem, eu também terei que ficar, Micael vai enviar um advogado e um funcionário da empresa hoje ainda para refazermos o contrato com eles.
- Ok! Quando eu já tiver alguma coisa pronta eu vou à sua sala para você ver o que acha, e vou ter que acionar a Cintia também, afinal ela é que está a frente da parte de Marketing e Propaganda o que não deixa de ser o objetivo final desse trabalho que estamos fazendo.
Algumas horas depois, Milena bateu na porta da sala de Clara e perguntou se ela precisava de mais alguma coisa.
- Olá Milena, nossa, já são quase sete da noite, você não precisava ter ficado aqui até tão tarde. – Clara esfregou os olhos cansados enquanto respondia
– Eu só preciso que veja se Cintia ainda está na sala dela e que a peça para vir aqui. Depois você está liberada.
Pouco tempo depois, Cintia foi até à sala de Clara com aquele jeito falso de sempre.
- Mandou me chamar, Clara?
- Sim Cintia, me desculpe, sei que está tarde, mas será que pode levar esses papéis até a sala do Eduardo para mim, eu revisei o que você me mandou e preciso que ele dê o aval dele. É sobre aquele projeto que te disse hoje, o que terá um minuto a mais de duração.
- Claro, será um prazer. Depois disso posso ir embora? Ou você precisa de mim para mais alguma coisa?
- Não, depois disso você pode ir, eu já estou de saída também.
Quando Cintia saiu, Clara olhou para os esboços espalhados na mesa dela. Perfeccionista como era, decidiu dar mais uns retoques e uns quarenta minutos depois, em vez de ir embora, resolveu ir até à sala de Ethan ver se ele ainda estava por lá. Queria mostrar o trabalho que tinha feito durante o dia e ver o que ele achava.
Já no andar da presidência, viu que a porta da sala da presidência estava entreaberta e a luz estava acesa. Sem bater, ela foi logo abrindo a porta e se deparou com uma cena que fez o corpo dela congelar, mas o sangue ferver: Cintia estava sentada na mesa de Eduardo com a saia levantada até a cintura deixando a mostra uma calcinha vermelha fio dental. Ela estava com as pernas abertas e Eduardo estava entre as pernas dela. Suas mãos estavam na b***a dela enquanto ele beijava o pescoço dela.
Após alguns segundos de incredulidade, ela pigarreou bem alto. Eduardo deu um pulo de meio metro no chão e se afastou de Cintia como se tivesse levado um choque. Clara não pôde deixar de perceber, com raiva, o volume nas calças dele. Cintia por outro lado, deu um sorrisinho sacana, limpou o batom borrado com o polegar e disse:
- Clara, achei que você já tivesse ido embora. – ela saiu da mesa lentamente, abaixou a saia e abotoou os botões da blusa sem a menor pressa.
- Resolvi ficar mais um pouco para melhorar esses esboços, agora gostaria de mostrá-los para o presidente, isso é – Clara olhou de um para o outro
- Se eu não estiver atrapalhando alguma coisa.
- Claro que não – foi Eduardo que respondeu, ele ainda estava com os olhos arregalados
- Vai embora Cintia, precisamos trabalhar.
- Terminamos isso depois então. – ela beijou a bochecha dele antes de sair
– Até amanhã Clara .
Clara sentia o sangue dela queimar nas veias e ouvia as batidas do seu coração como se fossem tambores. Ela não saiu da posição que estava, não sabia dizer o porquê, mas não conseguia se mover. Continuou olhando para Eduardo enquanto ele tentava se recompor e viu que ele tinha a dignidade de ao menos parecer envergonhado.
- Então Clara, você queria me mostrar alguma coisa? – ele perguntou.
Clara ainda não havia saído do lugar.
- Na empresa Eduardo?
Ele suspirou e se jogou na cadeira.
- Achei que todos já haviam saído.
- Isso não é justificativa.
Ele apenas a olhou sem dizer nada.
- Em cima da sua mesa ainda? Me lembre de nunca tocar nessa mesa. Se bem que se fosse no sofá seria muito pior, eu não me sentaria nele nunca mais. – ela completou, fazendo cara de nojo. Finalmente conseguiu se mover e fez um movimento como se fosse se sentar na cadeira à frente dele, em seguida hesitou
– Me fala que aquela b***a branca da Cintia não se esfregou nessa cadeira também.
Eduardo deu uma risadinha.
- Não Clara, a cadeira está segura, pode se sentar.
- Não tem graça Eduardo . Você é o presidente dessa empresa, imagina se seu pai ou o meu tivessem entrado aqui e dado de cara com aquela cena? E Gardênia ? Eles estão aqui a todo momento.
- Ah Clara, não faz drama, até parece que eles não conhecem o sexo, você acha que eu e você fomos concebidos como? – ele pensou um pouco
- Agora se minha avó visse isso, aí sim eu teria um problema.
- Imagina se eu, a vice-presidente, fosse encontrada semi nua, gemendo, com um homem no meio das minhas pernas sentada na minha mesa de trabalho? – por um momento, ela achou que um semblante de raiva passara pelo rosto de Eduardo , logo em seguida, ele reassumiu aquela cara de deboche que ele tinha toda vez que ia falar uma s*******m.
- Se fosse eu no meio das suas pernas, eu não ia achar r**m.
- Argh... você não tem jeito! O que eu quero dizer é: que credibilidade um presidente ou vice passaria se fosse encontrado nessa situação? E por favor - ela completou
- Não me faça imaginar você no meio das minhas pernas, não depois de já ter estado no meio das pernas daquela loira falsa.
- Será que isso tudo é ciúme? – ele começou a sorrir.
“Se controla Clara”, ela disse a si mesma. Para disfarçar, começou a rir.
- Ciúme? Claro que não! De você, com a Cintia ainda por cima? Não era ela que ficava disputando com a sua secretária pela sua atenção? Será que ela sabe que a Michelle deve ter se esfregado nessa mesa exatamente como ela estava fazendo agora mesmo?
- Ela não precisa saber disso.
Clara respirou fundo enquanto fechava os olhos por uns segundos. Estava realmente cansada.
- Quer saber de uma coisa, não quero saber em quais terrenos você anda ciscando, desde que você não coma suas galinhas na sala na presidência ou em outra dependência da empresa, por mim tudo bem! – ela se levantou
- Eu vim mostrar esses esboços para você, mas estou muito cansada e preciso ir embora. Vou deixar com você e você dê uma olhada por favor.
Clara se levantou e foi em direção à saída.
- Boa noite, Eduardo . – ela disse sem olhar para trás. Não queria admitir para si mesma, mas aquela reação por parte dela só podia significar uma coisa: estava com ciúmes de Eduardo..