Bianca havia tido dificuldade para pregar os olhos durante a noite inteira. A cada vez que tentava cochilar, a figura de Gabriel pairava em sua mente, trazendo uma mistura de medo e raiva. O tom frio, a maneira como a avaliava sem pudor, o sorriso de escárnio ao lembrá-la de seus “três minutos de atraso”... tudo aquilo deixava claro que não havia espaço para meias-palavras ou complacência. Ela precisava estar preparada para o pior.
No entanto, quando a manhã chegou, a realidade a arrancou de qualquer devaneio: hoje seria o dia em que Gabriel apresentaria as condições que supostamente a “ajudariam” com as dívidas. O que poderia significar aquele enigmático “veremos se vale a pena” que ele proferira?
Reencontro Marcado
Antes das seis, Bianca já estava de pé, preparando um café fraco com o restante do pó que tinha na cozinha. Letícia ainda dormia no colchão, encolhida sob um lençol puído. A imagem da filha adormecida provocou um aperto no peito de Bianca. Precisava agarrar qualquer oportunidade de sair daquele buraco: ameaça de despejo, agiotas batendo à porta, nenhuma fonte de renda fixa.
Se Gabriel lhe oferecesse um respiro — por mais humilhante que fosse — ela não tinha escolha. Precisava proteger Letícia custasse o que custasse.
Uma brisa fria entrava pela fresta da janela, sussurrando que o tempo estava virando. O bairro silencioso, ainda amanhecendo, dava a Bianca uma estranha sensação de urgência. Ela tinha de se arrumar rápido, levar a filha à vizinha e correr até o Edifício Cavalcanti. Não podia repetir o atraso do dia anterior; Gabriel deixara claro que não toleraria outro “erro” desse tipo.
Depois de um banho apressado, vestiu a melhor roupa que tinha — uma calça social surrada, mas bem passada, e uma blusa preta que, embora simples, estava em bom estado. Soltou os cabelos para tentar parecer mais apresentável, ainda que não dispusesse de maquiagem ou enfeites caros. Olhou-se no pequeno espelho do banheiro, as olheiras lhe denunciando a noite m*l dormida. “Melhor do que nada”, pensou, forçando uma coragem que não sentia.
— Mamãe? — A voz suave de Letícia a puxou. — Você vai sair de novo?
Bianca engoliu em seco, saindo do banheiro para encarar a filha. A menina erguia os braços, pedindo colo, com o rostinho ainda amassado de sono.
— Vou, meu amor. Preciso resolver umas coisas importantes. Mas a Dona Célia vai ficar com você, tá bom?
— Tá… eu não gosto quando você volta tarde — murmurou a pequena, esfregando os olhinhos.
A culpa consumiu Bianca por dentro. Sabia que, se tudo desse errado, ainda teria de trabalhar em algum canto até de madrugada. Se é que haveria trabalho. Suspirando, ela embalou a filha num abraço apertado:
— Vai dar tudo certo, princesa. A mamãe promete que vai resolver nossa situação. Seja boazinha com a Dona Célia, tá?
Letícia concordou, um tanto sonolenta. Em seguida, Bianca arrumou a mochila da filha e saiu, rezando para que o ônibus não atrasasse — mas, para ganhar tempo, usaria parte do dinheiro emprestado pela vizinha e pegaria um táxi novamente. Não daria chance ao azar; não queria chegar sequer um minuto além das oito da manhã.
A Chegada Antecipada
Para seu alívio, ela conseguiu chegar à recepção do Edifício Cavalcanti faltando exatos cinco minutos para as oito. A mesma atendente da véspera a reconheceu, erguendo a sobrancelha, mas sem comentar nada. Apenas autorizou a subida ao trigésimo andar.
Já no elevador, Bianca conferiu o relógio de pulso — um modelinho antigo que m*l funcionava direito — e percebeu que teria ainda dois minutos de folga ao chegar. Inspirou profundamente, sentindo as pernas trêmulas. Podia não estar atrasada, mas o pavor continuava ali, pulsando.
Ao desembarcar, encontrou novamente a secretária de coque impecável. A mulher ergueu os olhos dos papéis e fez um breve meneio de cabeça.
— O senhor Cavalcanti está aguardando. Pode entrar.
Sem bater, Bianca girou a maçaneta e se deparou com o mesmo escritório luxuoso de antes: janelas amplas, mobília cara, e uma vista panorâmica da metrópole. Gabriel estava ao telefone, em pé junto à vidraça, a voz firme reverberando:
— Eu exijo resultados imediatos… não quero desculpas. Faça o que for preciso, mas entregue o projeto no prazo. Entendeu?
Ele escutou a resposta do interlocutor e então encerrou a ligação com um suspiro impaciente. Ao se virar, notou a presença de Bianca e franziu o cenho.
— Bom dia. — Ela tentou soar confiante.
Ele não respondeu de imediato, apenas a avaliou de alto a baixo, como se checasse cada detalhe de sua aparência. O silêncio se estendeu por alguns segundos que pareceram uma eternidade. Então, Gabriel deu dois passos à frente, o semblante indecifrável.
— Você chegou na hora, dessa vez. Ponto pra você. — O elogio irônico saía seco.
— Sim… não quis repetir o erro — murmurou, abaixando o olhar.
Gabriel contornou a mesa, apontando para uma cadeira vazia.
— Sente-se.
Bianca obedeceu, as mãos suando. Ele permaneceu de pé, encostado na borda da mesa, os braços cruzados no peito, emanando uma aura de poder e desprezo.
— Antes de começarmos, quero deixar claro: não sou caridoso. Eu não costumo jogar dinheiro fora. Se você está aqui, Bianca, é porque me deve algo em troca da ajuda que pretende receber. Entendeu?
Ela assentiu, a garganta travada.
— Ótimo. — Ele deu um sorriso torto. — Então vamos ao ponto: você disse ontem que faria qualquer coisa para conseguir o dinheiro e se livrar dos agiotas. Está mesmo disposta?
A palavra “qualquer coisa” ecoou, trazendo aquele incômodo que ela sentira na véspera. Havia um peso perverso na entonação dele.
— S-sim… — ela respondeu, tentando manter a voz firme. — Desde que não seja algo… criminoso.
Gabriel deixou escapar um riso, balançando a cabeça.
— Criminoso? Engraçado você se importar com isso agora. A vida toda cercada de golpes e trambiques da sua família, e vem me falar de escrúpulos? — Ele estalou a língua. — Mas, tudo bem, não vou pedir que assalte um banco. O que quero de você é algo bem diferente.
Bianca apertou as mãos no colo, o coração disparado. Sentiu que estava prestes a ouvir algo degradante — talvez uma oferta de secretária “particular” ou um acordo mais sórdido. Ainda assim, manteve-se calada, esperando que ele prosseguisse.
— Eu tenho… certas necessidades — Gabriel continuou, com a voz baixa e carregada de malícia. — E não estou falando apenas de trabalho administrativo. Quero alguém que esteja disponível pra mim quando eu quiser, como eu quiser. — Ele inclinou o rosto,
avaliando a reação dela. — Digamos que… meu tipo de “assistente pessoal” exige outros talentos.
Uma pontada de náusea subiu à boca de Bianca. O que ele estava insinuando era evidente. Era sexo, pura e simplesmente, mas envolvido em uma relação de poder e dominação. Ela sentiu a pele arrepiar, uma mistura de repulsa e uma vergonha quase elétrica.
— Você quer… — não conseguiu terminar a frase.
— Que você seja inteiramente minha, Bianca. Sem questionar, sem reclamar. Uma p*****a de luxo a meu dispor. — As palavras cortantes a atingiram em cheio, pintando as bochechas dela de vermelho. — É isso que eu ofereço: pagar suas dívidas, comprar seu silêncio e dar-lhe alguma estabilidade financeira. Em troca, você satisfaz as minhas vontades.
Ele fez uma breve pausa, como se saboreasse o constrangimento dela.
— É claro que preciso ter certeza de que você não vai me passar a perna. Portanto, exigirei um contrato. Algo que formalize nossa… parceria. É melhor do que ficar devendo favor pra agiota, não acha?
Bianca sentiu os olhos marejarem. Ser chamada diretamente de “p*****a” soava como um soco no estômago. Mas, ao mesmo tempo, a lembrança de Letícia, da ameaça de Teodoro, do despejo iminente, tudo pesava contra qualquer dignidade que quisesse preservar. Se fosse essa a única saída para salvar sua filha, não tinha escolha.
— Isso… é humilhante — ela sussurrou, semicerrando as pálpebras.
— Você disse que faria qualquer coisa, certo? Eu não pedi que aparecesse na minha frente implorando. Você que veio atrás de mim.
Ele tinha razão, de certo modo. Bianca levantou o olhar, tentando controlar as lágrimas.
— Então é isso que você quer, Gabriel? Me tratar como… sei lá, uma prostituta particular?
A risada dele soou amarga.
— Se você prefere esse nome, tudo bem. Mas saiba que até prostitutas têm limites. E eu tenho os meus próprios. — Seus olhos brilharam com uma lascívia sombria. — Não pense que será fácil. Você vai ter de se submeter a certas regras.
A vergonha, a raiva e a tristeza se embolaram no peito de Bianca. Ela quis xingá-lo, gritar que ele era um desgraçado. Mas engoliu as palavras, lembrando-se da filha e da carta de despejo. Precisava perguntar pelos valores, pela segurança… e havia tantas dúvidas.
— Quanto… — A voz saiu fraca, então ela pigarreou e tentou de novo. — Quanto você está disposto a pagar?
Ele deu de ombros, abrindo um sorriso condescendente.
— Vai depender do seu desempenho. Mas, para começar, digamos que quitarei suas dívidas com os agiotas. Você me diz quanto deve e a quem, e eu resolvo. Em seguida, podemos discutir um valor mensal para suas “funções” comigo.
— E… o prazo? — Bianca murmurou, um nó na garganta. — Preciso pagar parte da dívida em três dias, ou eles ameaçam vir atrás de mim e da minha filha.
Gabriel descruzou os braços, dando de ombros.
— Vou providenciar o dinheiro hoje mesmo, se for necessário. Mas, antes, preciso de garantias. — Ele retornou ao lado da mesa e puxou uma pasta de couro, tirando folhas impressas. — Preparei algo de antemão. Um esboço de contrato particular. A ideia é que você se comprometa a me obedecer em tudo, desde a forma de se vestir até disponibilidade total no horário que eu determinar.
Ele folheou algumas páginas, sem pressa.
— Também exijo que não mantenha contato íntimo com mais ninguém — enfatizou, a voz endurecendo. — Se eu descobrir que há outro homem nessa história, ou que você está tentando algum golpe, eu anulo o acordo, retiro meu dinheiro e, de quebra, arranco tudo que você tenha.
Bianca estremeceu. O tom ameaçador deixava claro que ele não hesitaria em arruiná-la caso ela falhasse.
— Eu… não tenho outro homem, Gabriel. Meu marido sumiu. — Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas tentou conter.
— Ótimo. Melhor assim. — Ele jogou a pasta sobre a mesa, fazendo um gesto para que ela pegasse. — Dê uma olhada. Temos cláusulas sobre confidencialidade, horários, enfim… Está tudo aí.
Com as mãos trêmulas, ela pegou as folhas. Um calafrio percorreu seu corpo quando viu cláusulas que falavam sobre “disponibilidade s****l irrestrita” e “respeito a exigências específicas do contratante”. Era como se estivesse assinando a própria alma.
— Você é louco… — ela sussurrou, a voz embargada. — Isso é muito perverso.
— Louco, não. Apenas certeiro em conseguir o que quero. E eu quero você, Bianca, do meu jeito. Preciso saber se ainda está disposta ou se prefere voltar pra casa, aguardar os agiotas e rezar pra não acontecer nada com a sua filha. — Ele inclinou a cabeça, fingindo um ar de compaixão. — O que acha?
A menção à filha desarmou qualquer resistência final. Com o rosto ardendo de humilhação, Bianca respirou fundo. Sentia as lágrimas querendo saltar, mas se recusava a chorar na frente dele. Precisava ser forte, engolir o próprio orgulho.
— Eu… topo. — A palavra soou como uma sentença de morte. — Mas tenho condições.
— Quais? — Ele arqueou a sobrancelha, curioso.
— Primeiro, não quero que minha filha seja envolvida nisso. Quero mantê-la fora desse acordo. Não quero que seja exposta, nem que você apareça na minha casa sem aviso, assustando-a. — Ela forçou a voz a não tremer.
Gabriel semicerrou os olhos.
— Tudo bem. Eu não tenho interesse em traumatizar a garotinha. Você se encarrega de manter a vida dela separada de nós. Mas, se houver alguma emergência, eu irei até onde for preciso.
— Certo… — Bianca engoliu em seco. — Segundo, eu preciso de um lugar seguro para viver com ela. Meu apartamento está praticamente sendo tomado pelas dívidas, e posso ser despejada a qualquer momento.
— Também previsto no contrato. Vou providenciar uma acomodação adequada, perto do centro. Você ficará mais acessível aos meus chamados.
— E… por último — ela hesitou, mas continuou — eu peço que você não me machuque fisicamente. Eu não sou um objeto, Gabriel. Por mais que… que eu esteja nessa situação, eu ainda sou um ser humano.
Ele deu um sorriso enviesado, como se achasse graça.
— Machucar fisicamente? Que tipo de monstro você acha que eu sou? Bom… — Ele deu de ombros, olhando para o teto por um instante. — Se refere a agressões e espancamentos, fique tranquila, não é meu estilo. Mas devo alertar: na cama, ou seja lá onde for, eu vou querer intensidade. E você vai obedecer. Não espere gentilezas românticas.
O comentário fez o estômago dela revirar. Já imaginava que Gabriel teria preferências duras, dominadoras. “Preciso suportar”, repetiu mentalmente, fechando os olhos por um segundo para se acalmar.
— Então… me deixe levar esse esboço do contrato pra casa, ler com calma e…
— Sem chance — ele a cortou, firme. — Você pode ler aqui. Depois, assina. Não quero que saia espalhando detalhes por aí antes de se comprometer.
— Mas Gabriel… — Ela tentou argumentar, mas viu a frieza no olhar dele. — Tudo bem.
Ele puxou uma cadeira ao lado da mesa e abriu a pasta.
— Sente-se aqui. Temos tempo. Leia cada cláusula. Se tiver dúvida, pergunte. Se não concordar, pode ir embora e não me procure nunca mais. Mas já sabe o que isso significa, certo?
Bianca sentiu as mãos suarem novamente. Aquela imposição era sufocante, mas não poderia recuar. Assim, ela se sentou ao lado dele, cada um numa cadeira, a mesa forrada de documentos. Enquanto os olhos passavam pelas linhas e parágrafos, Bianca sentia a cabeça girar. Palavras como “disponibilidade s****l”, “caráter confidencial”, “rescisão imediata” saltavam aos seus olhos.
A certa altura, seus dedos começaram a tremer, e ela se forçava a respirar fundo. A vergonha era tamanha que quase a fazia desmoronar ali mesmo.
Gabriel, por sua vez, mantinha-se em silêncio, observando-a. Às vezes, soltava uma inspiração impaciente, como se quisesse apressar. Após longos minutos de leitura, Bianca levantou o rosto:
— Está tudo… bem explícito.
— Era essa a intenção. — Ele coçou o queixo. — Você quer mudar alguma coisa?
Ela pensou em protestar sobre a cláusula que dizia que Gabriel teria o direito de determinar seu jeito de vestir, falar ou se portar em eventos. Mas, ao lembrar-se de Letícia, acabou ficando em silêncio. Sabia que qualquer obstáculo adicional poderia fazê-lo desistir de bancar a dívida. O medo falou mais alto.
— Não… não, eu aceito. — A voz quase sussurrou. — Onde assino?
Gabriel esticou uma caneta, apontando para duas linhas específicas.
— Aqui… e aqui.
O arranhar da caneta no papel pareceu ressoar na mente dela como um gongo fúnebre. Cada letra que traçava era a confirmação de que se tornaria, literalmente, propriedade dele. O último ponto final saiu tremido, refletindo a intensidade do momento.
— Bom, Bianca. — Ele recolheu as folhas, examinando-as. — Seja bem-vinda ao seu novo inferno. Espero que esteja pronta.
Ela mordeu o lábio, contendo a vontade de chorar. Precisava ao menos um pouco de dignidade.
— E… as dívidas? Você vai realmente providenciar o dinheiro? — tentou questionar, a voz quase trêmula.
— Vou mandar que meu advogado entre em contato com esse agiota de merda. Assim que ele for pago, você não terá mais preocupações quanto à sua segurança, exceto pela minha. — Gabriel fez um sorriso sombrio. — Agora você me deve total obediência, entendeu?
Ela meneou a cabeça, sem forças para retrucar. A alma gritava em revolta, mas as circunstâncias a esmagavam. Precisou apertar os punhos no colo para não deixar as lágrimas escaparem.
— Ótimo. — Ele se levantou, guardando o contrato numa gaveta com chave. — Vou providenciar também um apartamento decente pra você e sua filha, como mencionei. Mas aviso desde já: não será longe de mim. Preciso de você acessível.
— Tudo bem. — A voz saiu fraca.
Gabriel se aproximou, parando na frente dela. Inclinou-se ligeiramente e segurou o queixo de Bianca entre os dedos, forçando-a a erguer o rosto. Ela se arrepiou com o toque frio.
— A partir de agora, você me pertence, Bianca. E eu não vou ser bonzinho. — Ele esfregou o polegar no lábio inferior dela, numa atitude de posse. — Quando eu quiser, vou te chamar, e você virá. Sem desculpas, sem atrasos. Fui claro?
Ela fechou os olhos, odiando cada célula do corpo por consentir.
— S… sim, Gabriel.
Ele soltou o queixo dela e se endireitou, alisando o paletó.
— Certo. Pegue suas coisas e vá pra casa. Hoje vou tratar da sua dívida. Amanhã mesmo, enviarei alguém para levar você e a menina pro novo apartamento. E prepare-se: em breve, vou testar se valeu a pena abrir minha carteira pra esse acordo.
Bianca levantou-se, lutando para manter a postura. Queria gritar um “você é um monstro”, mas reprimiu. Sabia que qualquer reação negativa poderia pôr tudo a perder.
— Obrigada… — sussurrou, quase num fio de voz. — Eu realmente agradeço.
Gabriel deu de ombros.
— Poupe-me dos agradecimentos falsos. Pode ir.
Ela caminhou até a porta, passos trôpegos, e, antes de sair, arriscou encará-lo de relance. O semblante dele estava impassível, como se tivesse acabado de fechar um negócio banal. Não havia nenhum resquício de empatia ou remorso.
Assim que saiu, sentiu o ar do corredor bater em seu rosto, trazendo uma sensação de sufoco libertador. Começou a respirar com mais força, controlando o choro que ameaçava vir. Atravessou a área da secretária sem trocar uma palavra e entrou no elevador com a alma em frangalhos. Tinha vontade de vomitar, chorar, sumir. Mas não podia fraquejar agora. Precisava manter-se de pé e pensar em Letícia.
“Estou vendendo meu corpo… minha liberdade… Será que vou suportar? Que tipo de homem ele se tornou?”
As perguntas rodopiavam em sua mente enquanto o elevador descia. Cada andar percorrido era um degrau a mais rumo a um futuro incerto e sombrio, onde ela teria de se sujeitar aos caprichos de Gabriel Cavalcanti para salvar a própria pele e a da filha.
Quando as portas do elevador se abriram no saguão, o telefone de Bianca vibrou em seu bolso. Uma mensagem desconhecida:
“Contratos assinados. Não ouse sumir, ou eu acabo com você. Aguarde instruções sobre a mudança. — G.C.”
Ela apertou o celular contra o peito, tremendo, os olhos marejados de lágrimas contidas. Tinha plena consciência de que havia se prendido a um acordo sujo, mas não conseguia vislumbrar outra saída. As próximas horas — e principalmente os próximos dias — revelariam se ela teria força para encarar o inferno pessoal que Gabriel prometera. E ele, por certo, não hesitaria em lembrá-la a cada instante de quem tinha o controle naquela relação perversa.