Capítulo 2

2324 Palavras
  Max não viu quando Bruce chegou. Depois do banho acabou por permanecer em seu quarto ouvindo música nos fones de ouvido enquanto desenhava em seu caderno.    Cabelo preso, sobrancelhas expressivas e nariz empinado. Max se deixou levar pelos devaneios enquanto o lápis corria pelo papel, e agora ela tinha um desenho de Paige cabisbaixa no refeitório, quase uma réplica do que fora visto mais cedo. Max soltou um suspiro enquanto descansava as costas no encosto da cadeira, e quase que instantemente ouviu o barulho da sua barriga. Ela não havia comido direito no almoço e agora estava morta de fome.    — Garota! — Gritou Bruce da sala, quando ouviu os passos dela descendo as escadas. Ela parou o percurso até a cozinha, desviando o caminho para encontrar o pai.   — Trouxe hambúrguer para o jantar — disse levantando a sacola de papel da mesa de centro.   Max sem falar nada apenas se aproximou pegando o saco da mão do pai. Bruce sentou novamente pegando o controle remoto da televisão, enquanto com a outra mão segurava uma lata de cerveja. Já Max decidiu sentar no sofá vasculhando o lanche, verificando se havia acompanhamento. Ficou bem satisfeita quando encontrou batatas fritas.   A sala era preenchida apenas pelo barulho da televisão, que exibia uma reprise de um jogo do Dallas Cowboys. Max comia vagarosamente enquanto Bruce tomava goles de cerveja, uma cena bem típica da família Jones. Porém, o pai de Max resolveu falar antes que a filha terminasse sua refeição e voltasse para o quarto.   — Você não vai à corrida hoje? — Perguntou em um tom despretensioso.    — Não estou afim. — Respondeu, limpando o canto da boca com a manga da camiseta.   — Eu acho que você deveria ir... — Tomou mais um pouco da bebida — sair um pouco de casa, entende?     — Saquei...    — A Paige parece ser uma garota legal. Vocês passavam bastante tempo juntas quando eram crianças.   — É, mas não somos mais crianças. — Falou deixando as embalagens de lado. Já havia terminado de comer.   — Certeza que não quer ir? Te dou vinte pratas para tomar um Dr. Pepper por lá, se você for — apelou.     — Você está me pagando pra sair de casa? — Questionou arqueando a sobrancelha.   — Entenda como quiser — disse estendendo uma nota amassada que acabara de tirar do bolso do jeans.  Max olhou para o dinheiro e para o pai, e viu que o suborno viera em uma hora bem oportuna. A realidade é que uma parte dela queria ir, mas o fato de Bruce ter ouvido quando Paige a convidou a deixou receosa. Se ela fosse apenas pelo convite, na cabeça de Max, Bruce perceberia que ela só estaria indo por conta da garota, e ela não queria seu pai a questionando depois. Não queria ter essa conversa. Porém, agora com Bruce fazendo questão que ela fosse, o cenário havia mudado.     — Tá, tudo bem.    Sem cerimônia, Max pegou o dinheiro de Bruce, que ostentava um sorrisinho de vitória no rosto, feliz que sua abordagem havia funcionado.  O corpo de Max a passava uma sensação de inquietude. Sentia como se sua barriga estivesse coçando por dentro, o que fazia ela ter vontade de correr. Ela estava ansiosa. Extremamente ansiosa.   Colocando a jaqueta e calçando os tênis, tentava se convencer que todas essas sensações não eram causadas pelo fato de que ela iria encontrar Paige. Em vão. Ela sabia que nunca se sentiria dessa forma por simplesmente ir ver garotos do ensino médio correndo na picape dos pais. Max considerou até o fato de tudo ser empolgação para tomar o refrigerante o qual Bruce havia falado, mas só de pensar, acabou por rir sozinha.    Seu pai não falou nada quando a viu saindo. Ele não era muito de advertências, mas isso não o fazia menos protetor. A única certeza que ele tinha em toda sua vida, é que faria qualquer coisa por sua filha. Nesse meio tempo, Max já estava tirando sua bicicleta da garagem e pedalando rumo à arena do pai de Christopher, que neste caso, era o ponto de referência do evento. Não demorou muito para chegar, o que justifica o fato de Max não ter pego o carro de Bruce.     Tinha uma quantidade considerável de pessoas para assistir aquela perda de tempo. Porém, era mais organizado do que ela havia imaginado. Haviam montado até algumas arquibancadas para as pessoas se acomodarem. O estacionamento da arena estava liberado e grupos se amontavam por lá tanto quanto perto da pista de areia.      Depois de prender sua bicicleta em uma das vagas apropriadas para esse tipo de transporte, Max colocou as mãos suadas dentro dos bolsos da jaqueta e saiu andando pelo estacionamento.    Já era de se esperar que o pessoal do interior do Texas gostasse de exibir suas botas e seus chapéus. Qualquer mínimo sinal de algo que parecesse uma festa eles estavam lá... vestidos como se fosse um show do Willie Nelson em Abbott. Max não curtia muito a moda. Não dispensava as camisas de flanela, estava usando uma inclusive, mas botas e cintos de fivela country era basicamente ultrapassar a linha do aceitável.   Acomodada na parte baixa da arquibancada, ela observava o lugar onde os carros iriam correr. Uma espécie de redondel imenso, o que dava a entender que a corrida seria em círculos naquele espaço limitado, para que todos pudessem acompanhar.    — Que perigo... — Disse a si mesma, pensando que se um dos carros saísse do percurso, seria fácil ultrapassar a cerca e bater em quem estivesse por perto.     — Eu realmente não achei que te veria aqui hoje.    Max sabia de quem era essa voz. Era a mesma que havia ouvido no corredor da escola e na carpintaria mais cedo. E lá estava Paige. Em toda sua glória com jeans, coturnos, r**o de cavalo e uma camiseta que abraçava muito bem as suas curvas.     Max quase soltou um suspiro audível quando a viu.    — E perder... isso? Hm, achei melhor não — Respondeu com um singelo sorriso, só para a ironia não parecer tão ácida.     Ela estava aliviada que Paige havia a encontrado. Enquanto caminhava para as arquibancadas, encontrava-se procurando pela outra olhando ao redor, mas só havia visto Christopher e Jean na carroceria da 4x4 do rapaz. Procurar por Paige e acabar por acha-la, implicaria em Max ter que falar com ela primeiro, e sinceramente, essa hipótese a apavorava.     — Não parece tão legal de primeira, mas às vezes eles batem um no outro. Isso sim que é emocionante — Paige respondeu se acomodando ao lado de Max.  — Seu namorado não corre também? — Perguntou estranhando o entusiasmo de Paige em acidentes automobilísticos.   — Sim, mas ele é muito cauteloso para algo assim acontecer.   Óbvio. O namorado dela era bom demais para esse tipo de coisa, pensou Max.   — Claro... — Disse com um sorriso sem graça.   Falando no d***o, Max não ficou nada surpresa quando Christopher apareceu para atrapalhar o clima constrangedor que ficaria. Não seria ao todo r**m, mas era o Christopher!    —Achei você! — disse quando avistou a namorada ao lado de Max.   — Acabei achando a Max quando estava voltando. — apontou para a garota.   Christopher a mirou percebendo que, agora que Paige havia puxado a puxou para a conversa, ele teria que ser cordial.     — Ah, você é a filha do Bruce, não é? Ele e o Richard fizeram um serviço bem maneiro lá em casa. — Disse simpático.       — É... — Max respondeu fingindo um sorriso sem mostrar os dentes.      — Enfim, eu só queria avisar que já vou me preparar para correr.      — Se cuida e boa sorte — Paige falou sorrindo para o namorado.     Christopher se aproximou, aparentemente buscando os lábios de Paige para um beijo, mas acabou por encontrar apenas a pele de sua bochecha, já que de última hora, ela resolveu virar o rosto. Christopher estranhou, mas não se deu ao trabalho de questionar.    Paige parecia meio sem graça com a tentativa do namorado, já Max estava em outra escala de desconforto. Não fazia nem quarenta minutos e sentia um arrependimento tremendo por ter se deixando levar e ter aceitado o convite.     i****a, i****a, i****a, i****a.     — Eu acho que já vou indo... —Max disse se levantando. Estava sentindo um misto de constrangimento e raiva inexplicável por dentro. Entretanto, quando a mão de Paige segurou em seu antebraço, ela sentiu que poderia ser capaz de congelar ali mesmo.   Na verdade, ela sentiu tantas coisas ao mesmo tempo que parecia que seria capaz de explodir.   — Fica — pediu afrouxando o aperto.    Max estava surpresa, e pelo que acabara de ver, não era só ela. Paige largou rapidamente a garota, aparentemente arrependida por ter parecido tão precipitada, ou se dando conta que era simplesmente estranho ela agir assim.   — Espera mais um pouco... assim que cruzarem a linha de chegada vai ter as sobras do quatro de julho. Vai ser a melhor parte — ela mordeu o lábio inferior, algo que costumava fazer quando pedia por algo e esperava resposta.    Paige estava tão presa nesses pequenos detalhes, que quase esqueceu que deveria falar algo.   — Tudo bem... — respondeu sentando-se novamente. Paige sorriu, e dessa vez ela retribuiu. Bem, ao menos um pouco.    — Vai que no final o The d***s aparece, você não iria ficar decepcionada? — Paige perguntou fazendo graça.  — Bom, acho que eles ficariam mais decepcionados comigo por ter chegado uns quarenta anos atrasada na última apresentação deles — Retrucou fazendo-a rir.     — Você tem cara de quem curte The d***s — Replicou apoiando o rosto na mão direita observando Max.    — E você tem cara de quem curte muitas coisas — Revidou cruzando os braços.    Paige arqueou as sobrancelhas perguntando a si mesma se Max havia sido realmente tão sugestiva quanto ela estava pensando, ou se era apenas coisa da sua cabeça.     — Você nem imagina...   Max se sentiu em um ringue de boxe. Paige acabara de desviar do seu soco de esquerda e revidado com um gancho em seu queixo. Estava na lona esperando que alguém tirasse seu corpo deste estado de incredulidade.    — Isso é estranho, quer dizer, você falando comigo depois de tanto tempo. Por quê?     Por mais que o flerte — ou como Max estava chamando: loucura da sua imaginação lésbica — tivesse sido algo bem diferente do que ela esperava conversar com Paige hoje, essa dúvida estava correndo por sua cabeça desde o convite da carpintaria. Quanto à encarada na aula ela preferiu não comentar, tinha receio que ela ficasse constrangida.   — Só porque a gente não se fala mias, não quer dizer que eu não goste de você. Tipo, você era uma ótima amiga até onde eu me lembro. Só nos distanciamos com o passar dos anos, mas acho que isso acontece com todo mundo em algum momento — deu de ombros.    Ainda não parecia uma desculpa plausível. Na verdade, não parecia nada plausível, porém Max não iria estender mais àquele assunto.     — Então só no último ano você lembrou que eu existo e que por um acaso tenho um ótimo senso de humor — Estava na hora de sair do assunto antes que ficasse tudo muito esquisito.    — Eu realmente espero que você não ache que possa viver por conta do seu senso de humor.    — Seria um fracasso? — Fingiu tom de decepção.    — Colossal.   As duas começaram a rir, e logo em seguida a atenção de ambas foi tomada pelo narrador oficial dos rodeios da cidade, mas que agora anunciava que a competição teria início.   Paige parecia mais interessada em conversar com Max, por mais trivial que o assunto poderia ser. Não deu tanto atenção à corrida nem na quantidade de voltas que faltavam até acabar, ao contrário da maior que às vezes se pegava observando quem estava na frente ou quem estava em último.   Christopher chegou em segundo naquele dia, e quando os carros romperam a linha de chegada, os fogos de artifícios haviam estourado como Paige prometera.   Parecia que era dia da independência novamente, com todos os olhos no céu enquanto as cores vibrantes davam um contraste a escuridão, a qual as luzes do evento não alcançavam. Max encarava tudo com tanta admiração que quase não percebeu o roçar dos dedos de Paige nos seus. Suas mãos estavam bem próximas uma da outra na arquibancada, e Max estava custando muito a acreditar que estava realmente acontecendo.    Afinal, poderia ser apenas um engano e não significasse nada para Paige, e justamente por isso Max se sentiu patética por fazer tanto alarde por algo tão... bobo.      — Eu tenho que ir agora — disse levantando de súbito.   Paige não soube o que dizer. Não poderia pedir para Max ficar novamente sem parecer insistente demais quanto à presença da outra. Já havia coisas demais as quais não tinha como explicar. Então apenas ficou em pé, vendo ela ir embora enquanto os fogos de artifícios tomavam o céu de uma noite que acabara de se tornar soturna.   Max pedalou de volta para casa se sentindo irritada. Ela decidiu que a partir daquele momento ela odiava Paige.    Odiava o som da sua risada, odiava o modo como ela era bonita sem fazer esforço algum, odiava como ela mexia com ela apenas existindo, odiava o fato dela achar que elas poderiam ser amigas novamente, quando ela simplesmente se afastou sem explicação alguma.    Quando deixou sua bicicleta na garagem e foi se aproximando da porta de entrada, notou que os acordes do violão de Bruce ficavam mais notórios à medida que ela chegava mais perto. Ele estava na pequena varanda esperando Max voltar.  Max sentou ao lado do pai no banco de madeira, esperando ele terminar a música enquanto se deleitava na melodia agradável.    — Como foi a corrida? — Perguntou ainda fazendo um dedilhado despojado nas cordas.    — Uma d***a.   — Aconteceu algo?   — Sim. Esqueci de tomar o Dr. Pepper.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR