Capítulo 3

1979 Palavras
  Max fizera um esforço descomunal para ir à escola no dia seguinte. Ela se sentia frustrada, e a última pessoa com quem queria dar de cara era Paige.   Passou toda a madrugada planejando e obrigando a si mesma a não sentir nada quando a visse no outro dia. Achou que poderia ficar em casa, Bruce sabia que ela nunca matava aula, então caso acontecesse algo do tipo, seria por um motivo realmente necessário. Mas Max não estava disposta a fazer Paige parecer tão importante ao ponto de interferir na sua rotina. Acatar a ideia seria como dizer que ela importava de verdade, e Max não queria admitir isso nem em palavras, e muito menos em suas ações.   Ela é só uma hétero sacana que tinha namorado e estava brincando com os sentimentos dela. Max pensava dessa forma, realçando o “hétero” e o “sacana” para dar ênfase na concepção que acabara de aderir. Mesmo com a conversa descontraída de ontem, ela ainda achava que havia algo acontecendo por trás de toda essa simpatia repentina.   Até onde sabia, Paige não costumava agir de má fé, mas não conseguia não desconfiar. Ela não a conhecia mais.    Seu plano era extremamente promissor, porém, assim que se passou os primeiros períodos, ela percebeu que não precisaria pôr em prática. Paige sequer a olhou quando chegou à escola. Paige não a olhou nas aulas e nem ao menos a cumprimentou com um aceno de cabeça ou um sorriso, como fazia antes.    Ela estava fingindo que Max não existia. E ao contrário do ela havia pensado, isso a estava incomodando mais que tudo. O que deveria ser um favor estava tornando Max uma tremenda de uma confusão.     Max idealizou várias vezes durante os períodos situações as quais ela extraía a verdade de Paige. A sua favorita do momento se tratava dela prensando a garota contra o seu armário e dizendo "O que você quer de mim, p***a?!". Com certeza havia opções menos agressivas e amigáveis, mas o que Max menos sentia era como poderia fazer isso sem antes ter um surto.    Ela estava guardando os livros no armário enquanto as ideias maturavam em sua mente, mas o universo parecia ter tirado o dia para maltrata-la. Em um instante estava trancando suas coisas, e no momento seguinte, tinha seu corpo colidindo contra a porta de metal gelado. O impacto a fez ricochetear caindo no chão.    — Olha por onde anda, Sapatão — Disse Jason a olhando com um sorriso zombeteiro.    Max travou a mandíbula e levantou o mais rápido que suas pernas permitiam. A ofensa de Jason havia ferido mais que o empurrão, e entorpecido seus sentidos ao ponto de se sentir apenas cega pela raiva.    — O que você disse?! — Gritou. Todos já haviam parado tentando entender o que estava acontecendo no corredor. Max não estava se importando nem um pouco em ser o centro das atenções.     — Eu gaguejei? — Perguntou cínico.    Max se aproximou com passadas raivosas e acertou um chute certeiro entre as pernas do garoto. Ele esperava que ela iria reagir, mas não dessa forma, literalmente, baixa.      Vários sons de "uh" foram ouvidos pelo corredor, principalmente dos garotos imaginando a dor que o rapaz sentira. Max aproveitou quando Jason se curvou acertando-lhe uma cotovelada no rosto, bem em seu nariz. Ela não queria parar, ainda mais quando ele estava no chão gemendo de dor. Ela queria espanca-lo até que o mesmo ficasse inconsciente. Acabar com ele era não só uma questão de raiva, mas de satisfação. Bel-prazer.     Quando ela estava a ponto de chutar o rosto do rapaz, o amigo de Jason a atrapalhou. O garoto sem pensar duas vezes correu e se jogou em Max, levando-a para o chão quando a empurrou pela cintura. Ela bateu não só as costas, mas também a cabeça no chão. Instantaneamente ela sentiu a fisgada em seu crânio, mas antes mesmo que ela pudesse reagir, Dylan desferiu um soco em sua boca a fazendo ficar tonta.   O segundo soco veio, e mesmo atordoada Max conseguiu defender com os antebraços. Ele não estava dando a mínima se estava batendo em uma garota na frente de todo mundo. Ver o amigo apanhando mexeu com ego de Dylan na mesma proporção que havia mexido com o de Jason.    E um homem com ego ferido seria capaz de qualquer coisa.   Max se contorcia embaixo do garoto tentando desvencilhar-se. Ela perdia boa parte das habilidades no chão, mas mesmo assim continuava tentando revidar atrapalhando Dylan, que a todo custo tentava acerta-lhe novamente.   De súbito, o corpo de Dylan fora arrancado de cima de Max com brutalidade. Ela, cambaleante, sentou-se tentando se recuperar a tempo de ver Jean jogando o corpo de Dylan contra o armário.   Oh! Ela era forte. Mas já era de se esperar. Jean tinha um corpo incrivelmente desenvolvido, ao nível de fazer inveja a qualquer jogador de futebol universitário.   — Você está bem? — Christopher perguntou estendendo a mão para ajudar Max a levantar-se.   Ela assentiu com a cabeça colocando a mão na boca. Estava com lábio cortado e um gosto metálico de sangue na boca, que só não era mais incômodo que todas aquelas pessoas a encarando com cara de espanto. Entre os alunos estava Paige. Totalmente sem reação.   Ela só queria sumir.                                                *                                                                                                                           Max segurava uma bolsa de gelo de encontro aos lábios enquanto esperava ser chamada pelo diretor. Jason estava na enfermaria tentando amenizar o estrago do nariz, para poder ser capaz de formular o que havia acontecido sem suas palavras saírem tão anasaladas. Já Dylan estava na outra ponta da sala com o lado esquerdo do rosto roxo. Totalmente fulo da vida, nem considerava olhar para os lados para não encontrar os olhos de Jean e Max.   A garota de corpo robusto estava de braços cruzados, e tinha uma calma inquietante quanto a situação.   — Obrigada — Max disse baixinho.    Ela odiava pedir desculpas ou agradecer. Em suma, odiava depender de outras pessoas para as coisas, e justamente por isso, seu agradecimento custou a sair.    — Não precisa agradecer, desde que eu comecei a trabalhar na arena tinha essa vontade louca de bater no Dylan, então você começar a briga foi meio que um favor — disse com a voz baixa. O rapaz poderia ouvir, e levando em conta que estavam uma ao lado da outra, não era necessário aumentar o tom.    — Não achei que te falassem desaforos.    — Quando se é uma mulher que gosta de rodeios, acredite, é o que ouço todos os dias. Sempre que ele vai montar me manda preparar os animais. Pra provocar, saca?    — Cretino.    — Aparentemente eles odeiam mulheres.     — Aposto que ele e o Jason devem ficar se chupando atrás das arquibancadas.   Jean riu cruzando os braços abaixo dos s***s. Contaria essa a Christopher depois.     — Não sei se você já ouviu, mas acho que você deveria saber — Jean começou cautelosa. — Começaram o boato que você estava dando em cima da Paige ontem, secando ela e essas coisas. Acho que foi por isso que eles te importunaram hoje.   Max nem sequer respondeu. Claro, todo mundo conhecia Paige e ontem ela trouxera Max para um holofote quando conversou com ela. E Paige nem sequer estava falando com ela no dia seguinte.   Foi como se uma lâmpada tivesse acedido em sua cabeça.   Paige havia mudado da água para o vinho por medo da nova fama de Max, que ela só havia conseguido por conta da própria Paige. Antes disso ela não existia para a maioria das pessoas, mas agora era conhecida o suficiente para ser uma piada.    Max sentiu os olhos arderem por conta das lágrimas prematuras que havia se formado. Ela se sentia humilhada em níveis absurdos e tudo isso era porque ela havia falado com a garota errada, na hora errada e no lugar errado.   Jean olhava para a garota ao seu lado com pesar. Ela nem sabia se Max era lésbica, de fato, mas não tirava a maldade dos boatos. Independente se ela fosse ou não, não deixaria de ser preconceituoso e invasivo.  — Se serve de consolo, rolou algo assim comigo uma vez. E me arrependo muito de ter feito de tudo para me provar para outras pessoas.   Por conta de sua estrutura física, Jean fora taxada de muitas coisas pelas pessoas da cidade. Juntando com seu sonho de participar de rodeios, eles não poupavam comentários. Óbvio que sendo amiga de Christopher as pessoas não mexeram com ela como fizeram com Max, mas Jean se viu obrigada a ficar com um cara dez anos mais velho e bêbado, resultando na perda de sua virgindade em uma fatídica noite de sábado há dois verões atrás.        Era o maior arrependimento de sua vida.    — Não esperava menos da terra de George Bush.   Bruce rompeu pela porta esbaforido, procurando pela filha por toda sala.    — O que aconteceu? Quem fez isso com você?   Ninguém precisou responder. Bruce descobriu quem era o culpado assim que colocou os olhos em Dylan.   — Eu vou acabar com a sua raça, seu fedelho...  — Disse raivoso.   O rapaz encolheu-se no banco, como quem já sente o peso de um soco de Bruce Taylor Jones, porém ele foi contido por Max e Jean que o seguraram.   — Bruce, eu estou bem, tá legal? Você vai piorar as coisas — Reclamou.   Havia sido um dia cheio e Max só queria ir para sua casa. Longe de pancadaria, adolescentes babacas e escola que a passava uma sensação claustrofóbica.    Bruce se acalmou por conta do pedido da filha, mas em compensação estava praticamente soltando fogo pelas narinas de tão bravo.  A mãe de Jason e o pai de Dylan haviam chegado mais cedo, então foi só o pai de Max fazer-se presente para que o falatório dentro da sala do diretor começasse.  Durou uns vinte minutos até que os três foram chamados.    Como Jean só havia entrado na briga no final e era maior de idade, o diretor dispensou-a apenas com uma advertência, o que a fez sair com um sorriso discreto e um ar vitorioso, enquanto o rapaz parecia inchar de tanta raiva.   Max sentia como se não estivesse ali. Olhava para eles discutindo entre si, mas só acompanhava as bocas mexendo como se todos estivessem no mudo.  Jason fora trazido da enfermaria e se juntou a Dylan em um forçado pedido de desculpas. Max queria ter mandado eles se foderem, mas sua cabeça estava aérea demais para poder começar uma briga com ataques verbais.  Caminhando para o carro do pai, que havia ido buscar sua bicicleta para pôr na carroceria da picape, Max ouviu passos apreçados atrás de si.    — Max! — Era Paige.   Ela travou o passo e respirou fundo fechando os olhos, nesse meio tempo a garota a alcançou.   — Ei, como você está? — Perguntou preocupada.   — Fui tirada de um armário o qual as pessoas nem sabem se realmente existe, eu estou bem pra c*****o, acredita?    Paige engoliu em seco vendo a postura hostil que Max adotou. Não esperava que ela fosse uma miss simpatia, entretanto, ser tratada daquela forma não deixava de machucar menos.   — Eu sinto muito...   — Se você realmente sente muito, vai me fazer o favor de ficar longe — disse dando as costas para ir em direção ao carro. Não esperou resposta alguma da outra, ela não queria justificativas.   Depois que Bruce voltou o silêncio se instalou entre os dois. Ele conhecia a filha o suficiente para saber que pela reação que tivera na sala do diretor, ela não iria falar um pio sobre o assunto.    Obviamente ele não deixaria o dia de hoje passar, com certeza teriam que falar dessa confusão toda, mas Bruce sabia que ela necessitava do momento dela. Tudo que ele poderia fazer agora era fingir que não estava vendo-a enxugar as lágrimas teimosas que caiam de seus olhos. 
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