Capítulo 1

1067 Palavras
— Liliana… O chamado Preencheu o ambiente como um aviso de perigo. Não era apenas o nome dela; era o tom. Seco, impaciente, carregado de algo que sempre terminava m*l. Liliana se levantou rápido demais, o coração disparado. Sabia que, se demorasse, a punição viria dobrada. Seu pai não tolerava atrasos, especialmente os dela. Cruzou o corredor quase correndo, sentindo o chão frio sob os pés e o aperto familiar no peito. Quando entrou na grande sala, teve a confirmação do que já temia. Ferdinando estava sentado na poltrona central, postura rígida, olhar duro. Ao lado dele, Caren mantinha a elegância fria de sempre, como se tudo aquilo fosse apenas mais um detalhe incômodo do dia. Isadora ocupava o sofá com um sorriso preguiçoso nos lábios, observando Liliana como quem assiste a um espetáculo previsível. Nada de bom sairia dali. — Pai, estou aqui — disse Liliana, em voz baixa, tentando controlar o tremor. Ferdinando a encarou lentamente, da cabeça aos pés, como fazia desde que ela se lembrava. O olhar não era de pai, nunca foi. Era o olhar de quem procura falhas, defeitos, algo que justifique o desprezo. — Já falamos sobre isso — ele disse, com frieza. — Quando eu te chamar, quero você aqui em menos de um minuto. — Desculpa, pai… não vai se repetir. Isadora soltou uma gargalhada curta e c***l. O som fez Liliana se encolher instintivamente. A irmã se levantou e caminhou até ela, analisando-a com um desdém quase divertido. Tocou o tecido simples da blusa que Liliana vestia, beliscando-o entre os dedos. — Papai, tem certeza de que essa mendiga serve para ser esposa de Eduardo? O coração de Liliana falhou. Esposa? O nome soou estranho, pesado, como algo que não fazia sentido. Ferdinando inclinou levemente a cabeça, observando-a como se fosse um objeto defeituoso. — Isadora tem razão — disse Caren, com um sorriso fino. — Como comparar uma verdadeira Monterey com essa bastarda? A palavra queimou mais do que o tapa que viria a seguir. Liliana sorriu por reflexo, um sorriso duro, vazio, aprendido ao longo dos anos. Foi o suficiente para irritar Caren, que se levantou de súbito e estalou a mão no rosto dela. O som seco soou pela sala. Liliana sentiu o ardor imediato, a pele pulsando, mas manteve o queixo erguido. Não choraria ali. Nunca chorava na frente deles. Caren ajeitou o próprio cabelo, satisfeita. — Não se esqueça de onde veio. Aqui, você não é nada. Ela sabia. Sempre soube. Liliana era filha da empregada. Um erro varrido para debaixo do tapete. Um caso que Ferdinando teve anos atrás. Caren, para não perder os luxos e o sobrenome, fechou os olhos. Naquela época, a família Monterey ainda tinha dinheiro suficiente para comprar silêncio. Liliana só descobriu a verdade quando completou dez anos. Sua mãe, já muito doente, a trouxe para aquela casa com a promessa de que cuidariam dela. — Chega! — Ferdinando gritou, batendo a mão na mesa. Por um instante perigoso, Liliana sentiu algo crescer dentro do peito. Esperança. Talvez, pela primeira vez, ele fosse defendê-la. Mas as palavras seguintes esmagaram qualquer ilusão. — Não podemos deixá-la marcada — ele disse, frio. — O senhor Eduardo quer uma noiva em plenas condições. O mundo pareceu girar. Liliana tentou organizar os pensamentos. Se havia um casamento, por que não Isadora? Ela era a filha legítima. Mesmo com a família à beira da falência, os Monterey ainda carregavam um nome antigo, respeitado, sustentado por glórias passadas. — Por que eu? — Liliana perguntou, a voz baixa, cortante. — Vocês não dizem que não passo de lixo? Isadora respondeu antes de qualquer um, o sorriso abrindo devagar, venenoso. — Porque papai jamais me entregaria a um homem que eu não amo. Eu já tenho alguém. E, convenhamos, você combina mais com esse tipo de destino. A ficha caiu de uma vez. Liliana seria descartada. Oferecida a um desconhecido como moeda de troca. Em pleno século XXI, decidiam sua vida como se fosse um contrato. E ela não tinha escolha. Se recusasse, perderia a única coisa que ainda importava. — Está decidido — Ferdinando anunciou. — Será daqui a uma semana. Eduardo não se importa com quem seja a noiva. Ele quer o nome da família. — Dois lixos, um par perfeito — Isadora comentou, rindo, satisfeita com a própria crueldade. Liliana sentiu o nó subir pela garganta. — Lixo? — perguntou, quase num sussurro. Ela não sabia quem era Eduardo. Podia ser um velho, um homem violento, alguém de quem ninguém queria se aproximar. Eles não se importavam. Nunca se importaram. — Sim — Isadora respondeu. — Não se sinta importante. Você só vai casar com esse sujeito por causa do dinheiro que ele ofereceu ao papai. Um qualquer, mas com recursos suficientes para nos salvar. — Vocês não podem fazer isso comigo — Liliana gritou, finalmente, as lágrimas rompendo o controle. — Podemos, sim — Ferdinando disse, impassível. — E já está decidido. Se você recusar, esqueça o tratamento da sua mãe. O silêncio caiu pesado. Liliana fechou a boca. O choro cessou. A ameaça era antiga, conhecida e eficaz. Tudo o que ela suportava era por causa da mãe. Sempre fora assim. Uma mulher humilde, boa, que só teve o azar de cruzar o caminho de um homem como Ferdinando. — E tem mais — Caren acrescentou, cruzando os braços. — Você vai se mudar para uma fazenda. Liliana ergueu o olhar, alarmada. — Uma fazenda? — É onde Eduardo mora — Caren respondeu. — Isolada, longe da cidade. Vai aprender rápido a obedecer. Liliana sentiu o peso da palavra isolamento cair sobre os ombros. — E não esqueça — Ferdinando completou, com desprezo —, mesmo que você não seja uma Monterey, faça seu papel. Pelos anos que comeu de graça nesta casa. De graça. A vontade de rir quase escapou. Trabalhou como empregada dentro da própria família. Limpou, serviu, abaixou a cabeça. Juntou cada centavo para ajudar a mãe, e pagar sua faculdade de moda, sonhar com algo além daquelas paredes. Agora, queriam arrancar tudo. Mas ali, naquela casa, sua palavra não tinha valor algum. E se ousasse negar, sua vida se tornaria um inferno. Liliana saiu da sala com passos pesados, o rosto ardendo, o peito em frangalhos. O que ela ainda não sabia era que aquele inferno não estava apenas à espera. Ele já tinha começado.
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