— Liliana…
O chamado Preencheu o ambiente como um aviso de perigo. Não era apenas o nome dela; era o tom. Seco, impaciente, carregado de algo que sempre terminava m*l.
Liliana se levantou rápido demais, o coração disparado. Sabia que, se demorasse, a punição viria dobrada. Seu pai não tolerava atrasos, especialmente os dela. Cruzou o corredor quase correndo, sentindo o chão frio sob os pés e o aperto familiar no peito.
Quando entrou na grande sala, teve a confirmação do que já temia.
Ferdinando estava sentado na poltrona central, postura rígida, olhar duro. Ao lado dele, Caren mantinha a elegância fria de sempre, como se tudo aquilo fosse apenas mais um detalhe incômodo do dia. Isadora ocupava o sofá com um sorriso preguiçoso nos lábios, observando Liliana como quem assiste a um espetáculo previsível.
Nada de bom sairia dali.
— Pai, estou aqui — disse Liliana, em voz baixa, tentando controlar o tremor.
Ferdinando a encarou lentamente, da cabeça aos pés, como fazia desde que ela se lembrava. O olhar não era de pai, nunca foi. Era o olhar de quem procura falhas, defeitos, algo que justifique o desprezo.
— Já falamos sobre isso — ele disse, com frieza. — Quando eu te chamar, quero você aqui em menos de um minuto.
— Desculpa, pai… não vai se repetir.
Isadora soltou uma gargalhada curta e c***l. O som fez Liliana se encolher instintivamente. A irmã se levantou e caminhou até ela, analisando-a com um desdém quase divertido. Tocou o tecido simples da blusa que Liliana vestia, beliscando-o entre os dedos.
— Papai, tem certeza de que essa mendiga serve para ser esposa de Eduardo?
O coração de Liliana falhou.
Esposa?
O nome soou estranho, pesado, como algo que não fazia sentido.
Ferdinando inclinou levemente a cabeça, observando-a como se fosse um objeto defeituoso.
— Isadora tem razão — disse Caren, com um sorriso fino. — Como comparar uma verdadeira Monterey com essa bastarda?
A palavra queimou mais do que o tapa que viria a seguir.
Liliana sorriu por reflexo, um sorriso duro, vazio, aprendido ao longo dos anos. Foi o suficiente para irritar Caren, que se levantou de súbito e estalou a mão no rosto dela.
O som seco soou pela sala.
Liliana sentiu o ardor imediato, a pele pulsando, mas manteve o queixo erguido. Não choraria ali. Nunca chorava na frente deles.
Caren ajeitou o próprio cabelo, satisfeita.
— Não se esqueça de onde veio. Aqui, você não é nada.
Ela sabia. Sempre soube.
Liliana era filha da empregada. Um erro varrido para debaixo do tapete. Um caso que Ferdinando teve anos atrás. Caren, para não perder os luxos e o sobrenome, fechou os olhos. Naquela época, a família Monterey ainda tinha dinheiro suficiente para comprar silêncio.
Liliana só descobriu a verdade quando completou dez anos. Sua mãe, já muito doente, a trouxe para aquela casa com a promessa de que cuidariam dela.
— Chega! — Ferdinando gritou, batendo a mão na mesa.
Por um instante perigoso, Liliana sentiu algo crescer dentro do peito. Esperança.
Talvez, pela primeira vez, ele fosse defendê-la.
Mas as palavras seguintes esmagaram qualquer ilusão.
— Não podemos deixá-la marcada — ele disse, frio. — O senhor Eduardo quer uma noiva em plenas condições.
O mundo pareceu girar.
Liliana tentou organizar os pensamentos. Se havia um casamento, por que não Isadora? Ela era a filha legítima. Mesmo com a família à beira da falência, os Monterey ainda carregavam um nome antigo, respeitado, sustentado por glórias passadas.
— Por que eu? — Liliana perguntou, a voz baixa, cortante. — Vocês não dizem que não passo de lixo?
Isadora respondeu antes de qualquer um, o sorriso abrindo devagar, venenoso.
— Porque papai jamais me entregaria a um homem que eu não amo. Eu já tenho alguém. E, convenhamos, você combina mais com esse tipo de destino.
A ficha caiu de uma vez.
Liliana seria descartada. Oferecida a um desconhecido como moeda de troca. Em pleno século XXI, decidiam sua vida como se fosse um contrato. E ela não tinha escolha.
Se recusasse, perderia a única coisa que ainda importava.
— Está decidido — Ferdinando anunciou. — Será daqui a uma semana. Eduardo não se importa com quem seja a noiva. Ele quer o nome da família.
— Dois lixos, um par perfeito — Isadora comentou, rindo, satisfeita com a própria crueldade.
Liliana sentiu o nó subir pela garganta.
— Lixo? — perguntou, quase num sussurro.
Ela não sabia quem era Eduardo. Podia ser um velho, um homem violento, alguém de quem ninguém queria se aproximar. Eles não se importavam. Nunca se importaram.
— Sim — Isadora respondeu. — Não se sinta importante. Você só vai casar com esse sujeito por causa do dinheiro que ele ofereceu ao papai. Um qualquer, mas com recursos suficientes para nos salvar.
— Vocês não podem fazer isso comigo — Liliana gritou, finalmente, as lágrimas rompendo o controle.
— Podemos, sim — Ferdinando disse, impassível. — E já está decidido. Se você recusar, esqueça o tratamento da sua mãe.
O silêncio caiu pesado.
Liliana fechou a boca. O choro cessou. A ameaça era antiga, conhecida e eficaz. Tudo o que ela suportava era por causa da mãe. Sempre fora assim. Uma mulher humilde, boa, que só teve o azar de cruzar o caminho de um homem como Ferdinando.
— E tem mais — Caren acrescentou, cruzando os braços. — Você vai se mudar para uma fazenda.
Liliana ergueu o olhar, alarmada.
— Uma fazenda?
— É onde Eduardo mora — Caren respondeu. — Isolada, longe da cidade. Vai aprender rápido a obedecer.
Liliana sentiu o peso da palavra isolamento cair sobre os ombros.
— E não esqueça — Ferdinando completou, com desprezo —, mesmo que você não seja uma Monterey, faça seu papel. Pelos anos que comeu de graça nesta casa.
De graça.
A vontade de rir quase escapou.
Trabalhou como empregada dentro da própria família. Limpou, serviu, abaixou a cabeça. Juntou cada centavo para ajudar a mãe, e pagar sua faculdade de moda, sonhar com algo além daquelas paredes.
Agora, queriam arrancar tudo.
Mas ali, naquela casa, sua palavra não tinha valor algum. E se ousasse negar, sua vida se tornaria um inferno.
Liliana saiu da sala com passos pesados, o rosto ardendo, o peito em frangalhos.
O que ela ainda não sabia era que aquele inferno não estava apenas à espera.
Ele já tinha começado.