A semana passou rápido demais, como se o tempo tivesse decidido não lhe dar escolha. E então chegou o dia do casamento.
Liliana se encarava no espelho com uma sensação estranha, quase de deslocamento. O vestido era caro demais, pesado demais para alguém que nunca tivera permissão para escolher nada. As joias reluziam sobre a pele clara como correntes delicadas. Tudo nela parecia excessivo, como se estivesse vestida para outra pessoa.
O vestido havia chegado em uma caixa lacrada, enviado por Eduardo. Apenas o nome. Um homem que ainda não conhecia, mas que já controlava sua vida. Ninguém parecia saber muito sobre ele. Falavam pouco, sempre em tom respeitoso, quase temeroso. Era como se fosse um fantasma, invisível, mas poderoso o bastante para decidir seu destino.
Sabia apenas o essencial: Eduardo era dono de muitos negócios, um homem que havia crescido por conta própria, alguém que exigia obediência e não aceitava falhas.
Liliana passou o batom com cuidado, os dedos levemente rígidos. Respirou fundo. Os cabelos cacheados estavam presos em um coque elegante, domados à força. A maquiagem simples realçava os olhos âmbar, herdados da mãe. Por um instante, lembrou-se dela deitada no hospital, frágil, ausente. Aquilo apertou seu peito.
Quando terminou de se arrumar, permaneceu sentada por alguns segundos, ouvindo apenas o próprio coração. Cada batida parecia um aviso.
A batida na porta veio suave.
— Senhorita, está na hora.
Liliana assentiu. Pegou o pequeno buquê com mãos frias e saiu do quarto.
Na grande sala, encontrou o pai sentado, imóvel, como se aquele fosse apenas mais um dia comum. Ferdinando não usava roupas de cerimônia. Não havia sinal algum de que pretendia acompanhá-la.
O estômago de Liliana se revirou.
— Pai, estou aqui.
Ele se levantou devagar e se aproximou, avaliando-a da cabeça aos pés. O olhar era técnico, distante. Não havia orgulho, nem emoção. Apenas julgamento.
— Ótimo — disse. — O motorista irá levá-la.
Ela demorou um segundo para entender.
— Você não vai? — perguntou, a voz baixa.
Ferdinando franziu o cenho, impaciente.
— Ir? Por que eu perderia meu tempo? Faça o seu papel. Nada mais que isso.
O ar pareceu faltar. Liliana sentiu um peso no peito, como se algo estivesse afundando lentamente dentro dela.
Casaria-se com um desconhecido. A mãe não poderia estar presente. Ainda assim, acreditara, tola que o pai estaria. Que ao menos naquele dia ele faria o mínimo.
— Pai, por favor… — implorou, quase sem voz.
— Chega, Liliana. Você é uma adulta. Comporte-se.
Adulta.
Ela tinha vinte anos.
Sozinha.
Ferdinando virou as costas, encerrando qualquer discussão. O gesto foi definitivo. Liliana permaneceu ali por alguns segundos, imóvel, até entender que não havia mais nada a fazer.
Saiu em direção ao carro. O motorista a observou com um misto de respeito e compaixão.
— Senhorita, você está linda — disse, tentando suavizar o clima.
Liliana forçou um sorriso.
— Obrigada. Podemos ir.
Durante o trajeto, ela pensou em fugir. Em abrir a porta, em pedir ajuda, em desaparecer. Cada rua parecia uma possibilidade que se fechava logo em seguida. Não havia saída. Apenas o caminho imposto.
Depois de quase uma hora, chegaram à capela. O lugar estava cheio. Pessoas bem-vestidas conversavam em pequenos grupos. O coração de Liliana acelerou.
Antes de descer, colocou o véu.
Assim que começou a caminhar, percebeu os olhares. E os cochichos.
— Ela está sozinha…
— Nenhum parente veio?
— Não é estranho?
Ela manteve a cabeça erguida, fingindo não ouvir. Cada passo exigia esforço.
Então o viu.
Eduardo.
Alto, imponente, parado à frente do altar. O terno escuro parecia feito sob medida. Os cabelos pretos estavam perfeitamente alinhados. Os olhos castanhos observavam tudo com atenção calculada. Mesmo sem ver o rosto dela, havia algo em seu olhar que a fez estremecer.
Quando se aproximou, o silêncio tomou conta da capela.
O padre iniciou a cerimônia. As palavras passavam por Liliana sem sentido. Ela respondeu mecanicamente, como se estivesse fora do próprio corpo.
Chegou o momento do beijo.
Eduardo levou a mão ao véu e o retirou com um gesto cuidadoso. Por um segundo, quase pareceu um homem gentil.
Então ele a viu.
O choque foi imediato. O rosto dele perdeu a cor. Os olhos se estreitaram, duros. A mão que segurava o véu caiu lentamente.
Ele apertou o braço dela.
— Quem é você? — murmurou, com a voz tensa. — Onde está Isadora?
Liliana sentiu o sangue gelar. O zumbido nos ouvidos abafou tudo ao redor.
— Eu… eu não entendo — disse, tremendo. — Meu pai me mandou. Disse que você queria uma noiva da família Monterey.
Eduardo soltou uma risada baixa, perigosa.
— Então foi isso — disse, agora alto o suficiente para todos ouvirem. — Eu pensei que estava me casando com Isadora Monterey. Em vez disso, me enviam você.
Ele ordenou que todos saíssem. Um a um, as pessoas deixaram a capela, evitando olhar para Liliana. Em poucos minutos, o lugar estava vazio.
— Quem é você? — ele perguntou novamente, agora sem levantar a voz.
— Sou Liliana Monterey.
— Impossível — respondeu. — Ferdinando só tem uma filha. E não é você.
De repente, ele a puxou pelos cabelos. A dor foi imediata. Liliana gritou, deixando o buquê cair.
— Senhor, eu estou dizendo a verdade! Eu sou filha de Ferdinando!
— Você não se parece em nada com ela — disse ele, com desprezo. — Como ousa ocupar o lugar que não é seu? Eu devia ter entendido quando você chegou sozinha. Com esse véu, escondendo o óbvio.
Os dedos dele se apertaram ainda mais. Liliana sentia o couro cabeludo arder.
— Pode ligar para meu pai — implorou. — Ele vai confirmar.
Eduardo a soltou bruscamente. Pegou o telefone e ligou. A discussão foi curta, áspera. Liliana ouviu o tom frio do pai do outro lado da linha. Tudo havia sido planejado.
Quando desligou, Eduardo respirou fundo, como alguém que tenta conter a própria fúria.
— Você é apenas uma bastardinha descartável.
As lágrimas escorreram sem controle. Ela se sentia pequena, reduzida a nada.
Eduardo sentou-se em um dos bancos e fez um sinal discreto. Um homem entrou logo depois.
— Prepare nossa volta.
— Sim, senhor.
Eduardo se levantou, segurou Liliana pelo braço e disse, com voz firme:
— Vamos. Você ainda carrega o nome Monterey. Até que isso se resolva, fará o papel de minha esposa. Mas não se engane. Esse lugar não é seu. A única mulher que ocupará esse posto é Isadora. E sua vida, a partir de agora, será tudo, menos fácil.
Ele a levou para fora.
Os convidados ainda estavam ali. Eduardo anunciou, sem emoção:
— Podem ir embora. Não haverá festa.
Naquele instante, Liliana entendeu.
Talvez o inferno em que vivera até então tivesse sido, na verdade, uma ilusão de segurança.
Porque agora, finalmente, ela estava entrando no verdadeiro sofrimento.