Capítulo 3

2531 Palavras
“Fefe, me espera, cara,” disse Andrew me puxando pelo braço. Parei com um pé fora do quarto, e me virei para ele. Seu rosto estava amedrontado. Retrai o meu braço, fazendo-o sair de suas mãos, e fiquei esperando para ver o que ele falaria, qual a mentira da vez. “Por favor, eu sei que sou s*******o às vezes, mas, por favor, não diga o que viu para a mãe e o pai. Eles vão começar a infernizar a minha vida e me afastar do Igor, por favor, por favor,” o semblante de Andrew agora estava mais para choro do que desespero. Ouvi-lo dizer aquilo me deixou ainda mais confuso. Ele era o cara insensível e nunca o tinha visto falar sobre seus sentimentos abertamente assim. “É só isso?” perguntei em uma voz seca. “É,” ele disse lentamente, sua cabeça caiu e seu rosto ficou tão triste que quis abraçá-lo fortemente, mas, quando dei um passo à frente, Igor se levantou e a cena do beijo me veio à cabeça. Afastei-me de And e continuei caminhando de volta para a cozinha. Mesmo longe deles, a cada passo mais apressado, eu ainda pensava neles lá dentro. Se abraçando e provavelmente se beijando. Meu coração espancava o peito, a cada pensamento de que: os braços que eram só meus agora estavam em outro corpo. “Ah, maldito And,” disse entrando na cozinha. “Fernando?” chamou Cleiton. Se tentasse dizer qualquer coisa, sairia apenas um ruído horrível. Deixei o suco e os lanches sobre a mesa e procurei rapidamente a porta da cozinha. Saí por ela desejando que Cleiton não viesse atrás de mim. Por sorte, ele não veio. Aposto que foi correndo para o meu quarto, saber o que eu tinha visto para me deixar assim. Dei a volta na casa e parei na varanda, com a b***a no concreto e a cabeça entre as pernas. Comecei a piscar rapidamente, segurando os lábios entre os dentes até sentir o gosto do sangue, mas não adiantou. As lágrimas começaram a verter, uma atrás da outra, sem dar intenção de parar. Logo havia uma pequena poça abaixo de mim. Eu chorava porque entendia, finalmente, os meus sentimentos pelo meu gêmeo. Eu o amava além do amor de irmãos, além do amor que sentia por Cleiton. O amava como Igor poderia amá-lo. Ele tinha que ser só meu, ser meu namorado e me abraçar. Porém, agora que entendia esse sentimento vulgar, também compreendia que Andrew não me olhava assim. Ele poderia ter, no máximo, sentido desejos carnais por mim, como insinuou antes, mas não amava de verdade. No meio do choro, acabei rindo sem querer. “Estou um maldito chorão,” disse comigo mesmo, fungando e pensando em como a vida me fazia chorar nas últimas semanas. Uma mão apareceu sobre meus ombros, com unhas grandes e pintadas de azul, me pegando desprevenido, na pior situação que uma pessoa pode desejar. “Quando fui pegar meu carro, ouvi seu choro,” disse o dono da mão que fazia carinho em meu ombro. Movi a cabeça diagonalmente para a frente, vi que era a mãe de Igor, a mulher baixinha e ruiva da mudança. “Tudo bem com você, querido?” “Não muito, no momento...” mordi o lábio, queria dizer toda a verdade, a sem-vergonhice que o filho dela estava fazendo na minha casa. Mas do que isso adiantaria? Arrancar o Igor do Andrew, só faria o meu gêmeo ir atrás de outro cara. “Você é um rapaz tão bonito para estar chorando. Acho que aconteceu algo de muito r**m,” ela supôs. Me emprestou um lenço, que tirou da algibeira. “Obrigado, senhora...” peguei o lenço e enxuguei o canto dos olhos. “Sou muito nova para ser uma senhora,” me deu um sorriso indicando que não queria ser chamada de “senhora”. “Eu sou Úrsula Manson, mãe do Igor. Qual o seu nome, filho?” Não sei explicar bem o que era, mas havia algo na voz de Úrsula que foi me fazendo parar de chorar. Ela me deixava confortável. “Fernando”, respondi. “Sabe, Fernando, quando meu Igor fica triste, sempre o levo para ir a algum lugar, comer algo. Se afastar dos problemas pode nos ajudar a pensar na melhor formar de solucioná-los. Por falar nisso, estou de saída para o centro, se quiser pode ir comigo.” "Valeu, mas minha cabeça não está no lugar para sair,” entreguei o lenço para Úrsula. “Espero que melhore, caso não aconteça, adoraria conversar quando voltar,” com essas palavras, e um sorriso encorajador, Úrsula se despediu de mim. Caminhou até o outro lado da cerca viva, que não tinha mais de meio metro de altura e trinta centímetros de espessura. A mãe de Igor acenou uma última vez e entrou no carro. Após dar a ré, notei ela lançando um beijo em direção a varanda de sua casa, quando meus olhos foram até lá, vi o homem de bigode preto mandando outro beijo para ela. “Uma família feliz,” sussurrei imaginando qual seria o motivo da nova briga de hoje. O sol foi se pondo e eu permaneci sentado na varanda, sem coragem de entrar. E sem vontade de fazer qualquer outra coisa. Por dentro, contava os segundos para que o Igor saísse pela porta, mas ele não fez isso. Cleiton saiu por volta das cinco horas, com uma mochila cheia de livros nas costas. “Por favor, se o pai e a mãe começarem de novo, ignore. Venha para a varanda, de uma volta no quarteirão,” ele se aproximou o suficiente para eu sentir o cheiro do perfume, que lhe dei de presente de aniversário. “Não precisa agir como se eu tivesse cinco anos,” me levantei com um sorriso. Dei um tapa na minha b***a, para limpar a sujeira acumulada. Cleiton, de brincadeira, deu dois tapas na minha b***a também, doeu um pouco. Mas eu gostei. “Lembra quando a gente era mais novo e não ligava para o que os pais diziam?” meu irmão me fitou com aqueles lindos olhos claros, de um verde cintilante. Eu lembrava, como se tivesse acontecido hoje de manhã. Era raro o dia em que Andrew, Cleiton e eu não brincávamos na frente de casa, com uma bola velha e furada; com uma corda; ou qualquer outra coisa que a gente encontrasse pelo caminho. Íamos do amanhecer ao crepúsculo, no final estávamos todos suados e fedidos, cobertos de sujeira. Cleiton nos dava banho, claro, sendo o mais velho. Nos esfregava até que ficássemos brilhando. A última lembrança que eu tinha era de um dia chuvoso, em que saímos para brincar na chuva. Voltamos encharcados e pingando lama. Andrew vinha caminhando com o queixo trincado, tremendo de frio. Eu vinha nas costas de Cleiton, um menino forte o suficiente para cuidar dos caçulas. Quando estávamos em frente de casa, eu fui sussurrar no ouvido do Clay, para dizer que já poderia me pôr no chão, exatamente nesse instante, ele se virou para trás. Nossos lábios bateram um no outro, houve mais dor do que contato físico. Talvez fosse por isso que eu mantivesse essa lembrança. “Bons estudos,” desejei com um abraço no menino magricela que se tornou um rapaz alto e bonito. “Se cuida,” ele retribuiu o abraço quase que esmagando minhas pobres costelas. Aproximadamente meia hora depois que Cleiton foi para a faculdade, o carro dos meus pais entrou na garagem. Meu pai pulou do banco do motorista e bateu a porta fazendo os vidros tremerem. Caminhou apressado para dentro de casa, com a maleta do serviço debaixo dos braços, fingindo ou realmente não me vendo sentado ali. Minha mãe deu a volta até o porta-malas, tirando dele algumas sacolas de supermercado. Não pediu minha ajuda, e eu não fiz questão de ajudar. Apenas fiquei olhando-a fazendo várias viagens para dentro de casa, num silêncio cortante. “Onde está o seu irmão?” perguntou Carmen, quando trouxe a última das sacolas. “No quarto, com o filho dos novos vizinhos,” eu respondi temendo que aquelas criaturas não tivessem ouvido o som do carro e julgando que era eu quem fazia o barulho dentro de casa. “Filho? Vizinho?” Carmen lançou um olhar azedo sobre a cerca viva. Segui seu olhar e encontrei o cara de bigode recolhendo algumas coisas do seu jardim. Ela fez um som m*l-humorado com o nariz e entrou. Levantei-me o mais ágil que consegui e corri até o quarto, passando por minha mãe, levando as sacolas até a cozinha. Abri a porta esperando encontrar duas pessoas agarradas, aos beijos, talvez até um sexo oral quase no final. Por sorte, Andrew parecia alguém normal, sentado em frente à televisão. “A mãe está vindo aí,” avisei caminhando para minha cama. Enquanto me sentava, testemunhei a fúria de dois loucos colocando a roupa jogada pelo piso e ajeitando os fios de cabelos revoltados. Igor e Andrew estavam perfeitamente sentados, um do lado do outro, e jogando, quando a porta se abriu e o rosto de Carmen surgiu. Seus olhos castanhos claros, assim como o meu e do And, estudando atentamente todo o local. Seu maxilar enrijeceu ao avistar Igor. Saiu sem dizer palavra. “Valeu,” Igor me agradeceu. Dei de ombros, logo depois os encolhi. Andrew estava mesmo afim desse cara? “Acho melhor eu ir para casa, vou deixar o videogame aqui, Andrew.” Os olhos do meu gêmeo brilharam, ele se levantou com um pulo e abraçou Igor. Ambos rumaram para fora do quarto. Fiquei pensando o que And poderia ter visto em Igor. Ele não era do tipo de cara que frequentava a academia. Tinha um copo normal, talvez considerado desnutrido pelos especialistas. Seu cabelo de fogo era ondulado, sardas pelo rosto, seus olhos verdes eram o que ele tinha de mais chamativo. O queixo formava um quadrado e sua pele deixava claro que ele era um viciado em jogos que não sabia o que era a luz do sol. Depois de alguns minutos, Andrew retornou. Caminhou diretamente até a minha cama e se sentou na minha frente. “Desculpe se te fiz alguma coisa,” disse tentando colocar as mãos sobre as minhas pernas cruzadas no colchão. Recuei. “Está com raiva de mim.” Até que, para um i****a, ele sabia que um pingo também é letra pra quem sabe ler. “Eu não estou com raiva de você,” tentei parecer debochado. “E por que me olha e age como se estivesse?” ele endureceu o queixo, sem deixar se intimidar. “É aquele cara. Eu não sabia que você era de sair beijando qualquer um.” “Quem disse que nos beijamos?” “A porcaria dos meus olhos, eu não sou i****a, Andrew,” estava começando a ficar com raiva. “Não vou mentir, eu quis beijar. Mas depois que você e o Cleiton apareceram, perdi a vontade. Só ficamos jogando.” “Uhum,” fiz com a boca, expressando minha melhor cara de entediado. “Quer dizer, eu nem sabia que você é gay, p***a!” “Fala baixo,” Andrew olhou apreensivo em direção a porta. “Já disse que não beijei ninguém.” “Só teve a intenção, e teria feito se eu não tivesse aparecido. Não gostei nadinha disso, aliás.” “Está com ciúmes?” “Talvez esteja, talvez nem ligue.” “Acho que está.” “Se eu estiver, o que vai fazer?” “Não posso fazer nada,” constatou ele. “Mas me responde uma coisa, sinceramente, quando me viu abraçado com o Igor, sentiu t***o?” “Que pergunta i****a é essa, Andrew?” minha voz denunciava minha raiva. “Eu quero saber se tu é mesmo gay. Calma. Se sentiu t***o vendo dois homens se beijando, então, pode ser gay.” “Não, não senti porcaria nenhuma de t***o,” respondi. “O que sentiu?” ele já estava fazendo perguntas demais. “Acho que foi ciúme mesmo.” “De mim ou dele?” virei o rosto, rosnando de raiva. Andrew pareceu entender e continuou: “Acho que sentiu de mim.” “Você gosta de mim?” eu perguntei encarando And. Nossos rostos ficaram lado a lado, como ele havia feito com Igor. Ele tocou minha bochecha esquerda, o simples toque fez uma corrente elétrica percorrer meu corpo por inteiro. “Claro que gosto,” afirmou And. Um sorriso brotou em seu rosto, como se aquela fosse uma pergunta que ele há muito esperou. “Digo: gosta normal ou olha para mim como olha para o Igor?” refiz a pergunta, sentindo meu mundo ficar menor, esperando que ele não se levantasse e ficasse com ódio de mim pelo resto de nossas vidas. “Fefe, eu amo você mais do que amarei qualquer cara,” respondeu And, olhando dentro dos meus olhos. Não sabia o que estava me dando, mas algo me atraiu feito imã. O corpo de Andrew estava se aproximando ainda mais de mim, agora centímetros nos separavam. “Sempre que durmo abraçado com você, eu acordo e vou para o banheiro me masturbar, porque você me excita. Eu sinto t***o e amor por você, Fefe.” Levei um tapa na cara, rolei pelo chão, fiquei de pé e levei um tiro. “Eu sinto o mesmo,” disse entre gaguejos. Meu coração pulsava nas têmporas. “Sabe que isso é errado, né? Temos o mesmo sangue, os mesmos pais,” indagou And. Seu hálito batia no meu rosto, sua respiração quente me provocando arrepios na espinha. “Fernando?” ouvir meu nome nunca me causou tanto horror. Era meu pai, Rogério, bem do lado de fora do nosso quarto. Ele não era muito mais alto do que eu e And, Cleiton já o havia ultrapassado em tamanho há mais de dois anos, meu pai tinha os olhos verdes claros de Cleiton, uma barba por fazer no queixo e uma expressão sempre bondosa, era impossível vê-lo nervoso quando estava a sós com os filhos. Me levantei de tal modo que cai logo depois, as pernas cruzadas e o rosto no chão. Andrew, sendo ele mesmo, estava calmo como sempre, me ajudou a levantar enquanto nosso pai entrava no quarto. “Seus safados, o que estavam fazendo para ficarem tão assustados?” com um sorriso que insinuava o pior, meu pai veio até nós e nos abraçou. “Senti saudades de vocês, meus tesouros.” “Eu também,” disse com o rosto afundado no peito do meu pai. “É melhor irem tomar banho, logo o jantar estará pronto. E desligue esse videogame, Andrew. Amanhã tem aula.” “Sim, pai.” Assim que nosso pai nos deixou sozinhos, no quarto escuro, Andrew me olhou e começou a rir. Eu estranhei, entretanto não detive um riso que também me invadiu. Rimos um para o outro. Eu amando ver os lábios dele retraídos, os dentes alinhados à mostra. Eu estava feliz, pela primeira vez no dia.
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