A noite caía em lâminas de cobre sobre a cidade. Do alto da sacada do escritório, Clara via o trânsito feito um rio nervoso, luzes vermelhas e brancas costurando a avenida. O vidro refletia seu rosto — firme por fora, trêmulo por dentro —, e por trás do reflexo havia arquivos abertos, pastas anônimas, e uma xícara de café que esfriava há horas. O ar tinha cheiro de papel, tinta e chuva distante. — Você me chamou, mas não disse por quê — disse Jonas, fechando a porta às costas, o ruído seco trocando o mundo de fora pelo silêncio dentro. Clara virou-se. Os olhos dele traziam o cansaço de quem passou semanas costurando verdades com linha fina. A gravata estava frouxa; as mangas, dobradas até o antebraço; o relógio marcava um tempo que, entre os dois, sempre escolhira se atrasar. — Porque j

