A manhã nasceu pálida. O sol, tímido, atravessava as frestas da cortina e caía em traços dourados sobre o lençol amassado do quarto de hóspedes. O cheiro de café recém-passado se misturava ao de flores frescas no aparador — o juiz Matheus Diniz tinha esse costume delicado de deixar pequenos vasos em cada cômodo, como se o perfume das pétalas fosse capaz de espantar os fantasmas que viviam dentro das pessoas. Ana acordou devagar, o corpo pesado, o coração mais ainda. Por um instante, quis fingir que o mundo lá fora não existia, que Antenor era apenas um nome apagado, uma lembrança desbotada. Mas a mente não obedecia. Tudo nela pulsava culpa, medo e vergonha. Ouviu o riso distante do filho do juiz no corredor e, por um segundo, o som inocente trouxe uma ponta de paz. Levantou-se, vest

