Lua Alcantara
Tão assustador quanto o olhar raivoso de Chocolate e sua mão agarrando os meus fios pela nuca fazendo os nossos rostos se aproximarem, é a maneira como Azulão aperta o meu ombro com uma força enorme. Não consigo impedir o retorcer dos lábios com tanta dor.
“Você ficou tão linda quanto sua mãe, sempre chamando atenção.” Sua voz maldosa contra o lóbulo da minha orelha só me deixa ainda mais atormentada.
Engulo a vontade de deixar as lágrimas caírem sem sentido, a saudade da minha mãe é como uma dor viva, aberta no meu peito.
“Ela é a mandada mais linda do morro, chefe.” Chocolate responde mesmo que não tenha sido uma pergunta.
O som alto do lugar é abafado pela maneira como sinto meu corpo sujo com o toque dos dois homens, um deles sendo o meu pai, aquele que deveria me amar acima de tudo. Com o olhar busco alguma salvação, a maldita da Marcela desapareceu como fumaça, pois, não aparece para fazer confusão nem quando preciso.
Azulão, mexe nos meus cachos, tocando a pele exposta do ombro, pego o copo de cerveja levando aos lábios para conseguir engolir a vontade de vomitar. O DJ toca um MTG novo que em outro momento iria adorar dançar.
“A Dacinha dava um trabalho do c*****o, Chocolate, foi preciso embuxar ela pra maldita se aquietar.” Ele ri com suas palavras horriveis como se a minha mãe fosse algum daqueles cachorros que ele diz amar.
Os bichos ficam presos, esperando as ordens dele, que pouco se importa em lhes dar amor quando quer usar eles para cobrir as mortes dos seus desafetos. Quero perguntar como era a relação deles, se a minha mãe sorria quando os dois se conheceram.
Mas lembrando as conversas com Juju, procuro não manter uma imagem romântica dos dois andando pelo morro, antes da morte, Dona Dacia pedia para obedecer Azulão, não o contrariar e sempre que possível ficar longe. Depois de algumas semanas depois da sua morte entendi o motivo, sua agressividade se transforma em agressões facilmente, rápido demais. Juju contou que minha mãe se apaixonou novinha pelo Azulão, com quatorze ou quinze anos, as coisas entre eles eram até fofas de se ver, mas quando o vapor começou a subir no comando as coisas foram ficando diferentes. Começou com um ciúme louco e no final, mamãe já não podia sair de casa para nada foi quando quis deixar ele que descobriu estar gravida.
“O chefe precisa dá a permissão pra levar a mandada como minha mulher pra acalmar ela.” Escutar a voz grave de Chocolate dizendo isso, me faz acordar do transe.
Seguro o punho de Azulão, deixando as lagrimas presas nos olhos queimando, meu coração dispara com tanta.
“Por favor papai, eu não quero ser mulher do Chocolate.” Deve ser a primeira vez que o chamo assim, seus olhos brilham, não sei se por orgulho ou por saber que tem controle sobre mim, o aperto do homem na minha frente é doloroso.
“Solta a minha filha, Chocolate, ela não te quer é r**m igual a mãe.” Azulão fala em um tom de ordem que o maldito não vê outra alternativa a não ser aceitar, seu olhar vibrando com tanto ódio.
Suspiro aliviada por um momento baixando o olhar para longe dos dois, em direção ao baile.
“Chefe...” Chocolate tenta chamar a atenção dele que apenas ergue uma mão negando.
Sinto o toque de Azulão contra o meu ombro, sua barba m*l feita contra a pele e a respiração pesada com hálito de cerveja e maconha.
“Esse filho da p**a toda semana aumenta o lance na sua b****a, junto com o Gato.” Resmunga fazendo os meus olhos se arregalarem. “Hoje é o teu aniversário e ainda me chama de papai, para amolecer esse meu coração, mas tu não vai escapar assim.”
“Eu não quero nenhum deles, papai.” Insisto para tentar dobrar ele.
Pelo canto dos olhos vejo a maneira como abre o sorriso dourado, seus dedos passando no cabelo bagunçado.
“Hoje tu vai escapar dos dois, dessa vez te ajudo, com uma condição.”
Engulo em seco sentindo os lábios ressecados, as mãos tremendo embaixo da mesa, retorço os dedos piscando um pouco atordoada até pela falta de costume em beber.
“Qual?” Questiono.
“Levanta que vai descobrir agora.”
Obedeço sua ordem, erguendo o olhar e dando dois passos para a direita quase grudando no corpo dele, para fugir da maneira como Chocolate tenta vir para cima de mim.
“A mandada já tem um serviço pra hoje, Chocolate.” Azulão sorri atiçando a raiva do homem, passa um braço por cima do meu ombro.
A ponta dos dedos brincando com o tecido jogando o meu cabelo para trás do ombro, deslizando para a frente do cropped, fazendo os olhos famintos de Chocolate se grudarem no lugar, meu pai faz um circulo sob o bico do meu peito, engulo o nojo, recebendo seu beijo na testa. O olhar do Chocolate so sai de mim quando sou arrastada pelo lugar, Azulão pega uma garrafa de vodca a colocando na minha mão.
“Bebe, é seu aniversário de dezenove.” Sorri, não quero mais beber nem comemorar. “AGORA!” Grita no meu ouvido.
Uma lagrima escorre na lateral do meu olho esquerdo quando pego a garrada a levando aos lábios tomo um longo gole.
“Olha só como você sabe ser obediente.” Resmunga, segurando os meus cachos, desmanchando eles, ficando parado na minha frente. “Meu convidado tá la embaixo, preciso ter uma conversa com ele, tu vai subir no pole e enfeitiçar o filho da puta.”
“Mas..” Estremeço com a sensação r**m. “Dançar de roupa?”
Sinto o tapa forte no rosto, me fazendo morder a bochecha por dentro.
“Tu vai ficar pelada, Lua, ta ouvindo?” Questiona me obrigando a balançar a cabeça afirmando. “Vai arreganhar essa b****a pra ele ver.”
“Eu.. sou..”
Outro tapa na cara, dessa vez do outro lado, antes de apertar o meu queixo com o indicador e polegar.
“Os meus dois homens do comando tão parecendo cachorro no cio porque o c*****o do morro inteiro sabe dessa merda.” Ele ergue o meu queixo, descendo a mão ate apertar o bico do meu seio. “Se tu não escolher um deles pra tirar esse selo, vou fazer questão de tirar ele no meio do baile, não quero briga entre os meus homi porque tu quer fazer cu doce não, tá ouvindo?”
Aceno sem segurar as lagrimas que escorrem com sua ameaça, nem consigo respirar direito e o álcool já está subindo fazendo efeito. Acompanho os seus passos, descendo as escadas, percebendo um dos seguranças na frente do banheiro do camarote, imagino que o convidado seja muito especial para o Azulão impedir a Marcela de criar uma confusão. Descemos as escadas quando vejo alguns homens de terno, lembro dos homens que tavam na contenção.
Noto que próximo a escada colocaram um tecido vermelho tipo cortina para separar a visão do baile, os homens de terno olham torto para o Azulão que sorri se sentindo como um rei, ao afastar o tecido vejo o espaço pequeno por baixo da escada quase como um pequeno quarto, um espelho de corpo inteiro foi colado na parede.
Um sofá circular no centro um pole em cima de um mini palco de madeira, tudo provavelmente muito novo, mas é o homem sentado no sofá circular soltando a fumaça de um charuto para cima com o olhar fixo no teto que chama a minha atenção. Suas coxas grossas marcadas pelo tecido social cinza, o blazer aberto exibindo uma gravata desarrumada e botões desajeitados. Quando Azulão se mexe pegando a garrafa da minha mão, ele se ajeita.
Soltando o ar pelas narinas que batem com força, fazendo a fumaça do charuto sair por elas quando abre os olhos, fico paralisada, o peso do seu olhar desestabiliza as minhas pernas. Iris verdes, profundas como uma floresta esperando para ser descoberta, seus olhos se apertam na direção do meu pai que dá um tapa na minha b***a.
Começo a dar passos incertos para o mini palco, agora, hipnotizada pelo olhar dele como se só estivéssemos nós dois aqui, por um único momento gostaria de que fossemos só nos dois.