Lua Alcantara
O clima estranho dentro do lugar, só piora com a música caótica que toca do lado de fora dessas cortinas, a sensação que tenho é a de que os saltos pesam como toneladas nos pés. Sempre gostei de dançar desde criança, mas foi aos quinze no baile de aniversário quando chamei mais atenção do que deveria, Marcela deu a ideia para que trabalhasse na boate da Juju.
Num primeiro momento, Romarcio, o homem que chamava de pai ignorou a ideia, depois achou interessante e por ultimo usou isso como uma maneira de punição. Poder se passar por um homem sofrido diante da decepção da filha, engrandece o seu ego. Desvio do toque dele em minha cintura, parando ao lado do pequeno palco para colocar a garrafa da bebida no chão. Ignoro a sensação nociva que sinto em cada movimento como se os olhos verdes estivessem queimando a minha pele.
“Gabriel!” Azulão entra no seu modo de traficante simpático, falando o nome do homem, achei que fosse estrangeiro , mas tem o nome tão brasileiro. “Como vão as coisas amigo?”
Subo no palco, apoiando a mão no metal, curiosa demais para saber o que ele pensa do Azulão. Noto a postura ainda relaxada com as pernas separadas, levando o charuto aos lábios, mesmo diante de um homem usando uma semi automática como se fosse uma bolsa, o homem que agora sei se chamar Gabriel, não demonstra medo, parece mais entediado.
A respiração tranquila, os olhos vazios enquanto os lábios grossos se abrem para soltar a fumaça na cara do Azulão, esse parece inflamar de estresse, suas mãos agitadas ao lado com dedos tamborilando contra a arma, o joelho balançando e o olhar fixo em Gabriel.
“Eu sou italiano, Romarcio e não surdo.” Responde depois de soltar toda a fumaça dos pulmões.
Abaixo o rosto para disfarçar o arregalar de olhos com a surpresa pelo modo como chama o dono do morro da rocinha pelo nome, encolho os ombros virando de costas fingindo girar no pole enquanto espero o som dos disparos. Ninguém no morro fala o nome dele, seja por respeito, medo ou para não ser acusado de tramar com a policia uma invasão.
“Já pedi para não falar o meu nome de batismo cara.” A raiva fica grave na voz dele.
“E eu já disse que não vou falar esse apelido ridículo que usa.” Gabriel rebate rouco, giro no pole encontrando seus lábios em volta do charuto.
Azulão parece estar prestes a ter uma sincope de raiva, seja qual for sua relação de negócios com o homem, sinto um prazer sorrateiro em perceber que talvez ele tenha um superior. No mesmo instante, o olhar verde encontra o meu, franzindo as sobrancelhas, Gabriel desce o olhar pelo meu corpo sem demonstrar nenhum sentimento.
Fazendo a curiosidade pinicar dentro da minha mente, os homens aqui do morro quando pedem uma dança exclusiva não conseguem disfarçar o desejo que sentem, a cobiça em ter algo que para eles é proibido. Quando Chocolate, Gato ou Pixote pagam pela minha noite dançando no pole para eles, fazem questão de puxar o p*u para fora e bater punheta enquanto sinto nojo.
Gabriel não demonstra nem interesse, sua atenção nos meus movimentos parece se resumir a tédio e me incomoda a maneira como passo a querer desejar sua atenção.
“Gostou do presente?” Azulão quebra a atenção dele nos meus movimentos ao falar, fazendo o homem erguer uma sobrancelha. “É aniversário da novinha hoje, dezenove anos, como sei que vocês italianos tem essa tara em virgem trouxe essa pra você.”
Dou um solavanco no pole, a mistura do álcool criando uma alucinação na minha cabeça, mas quando caio de joelhos em cima do pequeno palco percebo estar bem acordada. Os olhos do tal de Gabriel assumem um brilho que faz a minha barriga se contorcer a sensação que tenho é a de ser uma caça para o caçador.
Ele traga o charuto, já pela metade, apoia os cotovelos nos joelhos.
“O que te faz achar que quero a sua filha na minha cama?” Quando fala consigo notar o sotaque forte em sua voz grave, a maneira como essa voz acende um fogo dentro de mim, quase consegue apagar a informação que soltou.
Viro o rosto para Azulão, que parece estar vermelhão de raiva, abro um sorriso bêbado com a piada ridícula da minha mente, Gabriel, não so tem poder em cima dele como sabe de todos os detalhes da sua vida.
Ergo o olhar encontrando a mão aberta, vindo em direção ao meu rosto, fecho os olhos já sentindo a dor que nunca chega.
“Não te ensinam que é falta de educação bater em uma mulher fora da cama, Romarcio?” Noto o sotaque italiano com um tom de raiva fazendo o meu ventre alcoolizado se contrair.
Abro os olhos encontrando Gabriel, segurando o punho do Romarcio, em uma única mão com tanta força que pela primeira vez ele não consegue disfarçar a dor. Quero pular de alegria por ver ele sentindo como é ser humilhado, é quando o olhar de Gabriel encontra o meu, fazendo um leve arquear de lábio aparecer em seu rosto, posso jurar ser como a segunda emoção que o vejo transparecer desde que entramos aqui.
Usando a mão que segura o resto do charuto ele leva a ponta em brasas a palma aberta do Azulão que grita diante da dor, fico encantada com a violência dele contra o homem que despeja sua violência em mim todos os dias. O odor da carne queimada sobe rápido, viro o rosto para trás esperando que algum dos homens do Azulão entre aqui para resolver isso, mas não acontece.
Viro o rosto encontrando o sorriso aberto de Gabriel, lembro que os homens de terno estavam na frente das cortinas, e um traço entre homens ruins é o quanto eles gostam de exibir o seu poder, nesse caso não consigo ficar com raiva por Gabriel estar exibindo o seu, na verdade retribuo seu sorriso, fazendo os olhos dele brilharem.
Quando ele solta a mão do Azulão que se parece com um cachorro machucado, ergo o corpo voltando para a minha tarefa de dançar no pole, fico de costas para eles, mesmo que tenha sentido alguma felicidade diante dessa violência sei que quando o homem estiver longe, Azulão vai dar um jeito de descontar sua fúria em mim.
“Ela é minha filha, precisa de uma lição.” Resmunga Azulão.
“Você a trouxe de presente para mim, perdeu o direito que tinha.” Rebate rápido, fazendo movimentar o meu rosto rápido para encontrar seu olhar frio por sob o ombro.
“Presente hoje para sua noite no país.” É quando noto o nervosismo de Azulão. “Mikeias não costuma mandar seus homens subir o morro, achei que o irmão do Don poderia querer se divertir.”
“Tem razão.” Gabriel fala. “Mikeias quer saber porque o rendimento da armas que ele te mandou diminuiu, como você falou sobre não ter vendido tudo, vim conferir seu estoque.” Ele sorri se erguendo do pequeno sofá.
Deslizo no pole entre movimentos com os quadris, enganchando a coxa para deslizar no metal, sem as mãos, tendo a visão livre do rosto de Azulão perdendo a cor e tentando se recuperar rápido. Atordoada pelos giro e pela bebida, demoro para ligar os pontos entre os novos acordos com os milicianos e a fala do italiano que diz querer conferir um estoque de armas.
Ergo a mão para segurar no pole, pronta para fazer um giro com os braços, quando um braço enorme exibe o gargalo da garrafa de vodca, aceno rápido com a cabeça para ele, que pondera por um momento antes de apertar os olhos e levar o gargalo a boca. Fico fascinada com a maneira dos seus lábios tocarem o vidro, o pomo de adão subindo e descendo junto com a bebida.
“Faz o show completo para o gringo, filha.” O momento se perde com a voz do Azulão, olho para ele por sob o ombro, vendo a maneira como sua respiração está fora de ritmo com o nervosismo. “O homem quer ver o melhor das mandadas do morro.”
Viro o rosto para Gabriel que apenas ergue uma sobrancelha enquanto a ponta da língua vermelha recolhe uma gota de álcool do canto do lábio impedindo de sujar a barba. Engulo em seco abrindo o botão da calça jeans, atraindo a atenção dele para o movimento. Seus olhos que voltaram a carregar o vazio do desinteresse reacende o fogo para ter sua atenção.