Monstro
E aí, mulherada. O meu nome é Matheus, mas vocês podem me chamar pelo meu vulgo Monstro. Perdi a minha mãe, tá ligado? A coroa, era a maior traficante que eu já conheci na vida, mas acabou sendo morta numa invasão da facção rival. Ela morreu, me deixou no poder e deixou o meu irmão pra eu criar.
Eu tenho 28 anos e sou dono do Complexo do Céu, o Morro do Céu, como é conhecido por aí. Tenho 1,86 m de altura, sou forte, me acho bonito, todo tatuado. Moreno, olhos castanhos, me acho um gostoso do c.a.r.a.l.h.o; tenho certeza que eu sou gostoso.
Eu fui preso por causa desse projeto de pacificação. A ex do meu irmão entregou a casa onde a gente tava pros caras azuis e a gente foi traído. Eu tive que me entregar pra eles pra ele conseguir sair, tá ligado? Ele saiu por trás e eu fiquei. Depois a gente descobriu que ela já tava sentando com um delegado fazia tempo e agora ela é casada com ele.
Depois desse bagulho eu nunca mais confiei em mulher nenhuma, nem eu, nem o Insano, tá ligado? O bagulho é que eu só tenho ele no mundo e confio nele de olhos fechados; ele só tem um no mundo e confia em mim de olhos fechados. Tô aqui dentro, mas tudo o que acontece no meu morro tem que passar por mim. Vagabundo não pode dar um tiro sem pedir a minha autorização. Eu gosto de controlar tudo pra o meu morro não ficar à mercê dos cu azuis.
Tô tentando sair daqui faz tempo, mas tá difícil convencer um juiz que eu mudei, até porque eu não mudei nada. Mesmo gastando o maior malote, os caras não querem me tirar daqui de dentro. Tenho mordomia aqui dentro: tem televisão, fico na sala sozinho. Minhas putas conseguem vir me ver toda hora, vêm duas por semana, e eu nunca olho pra cara da mesma, tá ligado? Não gosto de repetir, até porque depois vai ter confusão no morro, vão querer fingir que tem alguma coisa séria comigo e eu vou ter que matar geral. Não quero me apegar a ninguém depois do que a mulher do Insano fez. Prefiro ficar sozinho na pista do que me f***r de novo.
Tava deitado quando o meu celular tocou. Peguei ele na mão devagar e vi o número do Insano. Eu não salvo o número de ninguém, mas guardo os números na cabeça, tá ligado? Porque se esse vagabundo pegar meu telefone querendo se mostrar pros caras do Estado, ele não vai saber de quem é o contato.
Ligação
Monstro: Fala, passa a visão.
Insano: Fui na casa do Comédia cobrar a dívida. Te falei que ele tava devendo R$20.000, né? Ele e a mulher dele, os dois parecem até aspirador de pó. Quando eu fui na direção, eles ficaram chorando.
Monstro: E quem foi o arrombado que deixou ele chegar numa dívida de R$20.000 pra poder me passar a visão? Vocês tão se fazendo de cego ou de maluco? Qual foi? Não tô te entendendo direito! Já gritei puto.
Insano: Não deu pra desconfiar dele; só deu pra saber que ele tava devendo tanto quando eu fiz o relatório do fim do mês. Fui bater todos os cadernos e aí vi que ele tava pegando em vários vapores diferentes.
Monstro: Me diz que tu meteu uma bala na cara dos dois.
Insano: Não, eu não meti uma bala na cara dos dois. A verdade é que eu arrumei uma nova visita íntima pra tu. Tu falou que queria um bagulho diferente dessa vez e eu arrumei.
Monstro: R$20.000 por uma b.u.c.e.t.a? Melhor tu matar ele, c.a.r.a.l.h.o, mata ele e a família dele toda.
Insano: Com todo respeito, Monstro, a mina é uma boneca. Todo mundo aqui do morro que viu ela, vagabundo ou trabalhador, nunca teve confiança dela. Agora eu tô jogando ela no teu peito, ela nem queria. Pô, só fiz isso porque falei que ia meter uma bala na cara daquele velho arrombado.
Monstro: A mina é tão gata assim? Perguntei curioso, né.
Insano: A minha gata trabalhadora, nunca vi ela em baile nem em evento nenhum. Nunca vi ela com ninguém daqui do morro, tá ligado? Nem com namorado. Se pá ela é virgem, mas não tenho certeza.
Monstro: P.o.r.r.a, mas R$20.000? Essa mina tem que ficar de cabeça pra baixo no teto, é dinheiro pra c.a.r.a.l.h.o.
Insano: Tu tá falando esse bagulho agora, mas quando tu botar os olhos nela eu tenho certeza que tu vai falar que ela vale mais do que R$20.000.
Monstro: Na moral, tu tá tentando entrar na minha mente, né, f.i.l.h.o d.a p.u.t.a?
Insano: Eu nunca te passei visão errada, só tô te falando que é a minha gata e tu com certeza vai gostar.
Quando eu ia responder, o guarda veio gritando que tava na hora da contagem.
Monstro: Mais tarde a gente desenrola essa fita aí. Agora eu vou ter que desligar porque tá na hora da contagem. Tu tá ligado que vagabundo aqui dentro sempre arruma uma desculpinha pra levar celular, né? Depois vendem de novo e metem a mão.
Insano: Suave, mais tarde a gente continua desenrolando e sai.
Desliguei e respirei fundo. Escondi meu telefone porque sei que se eles pegarem, vão levar; depois vou ter que pagar um dinheiro do c.a.r.a.l.h.o pra eles devolverem. Aqui só tem safado.