INSANO
Fala aí, mulherada. Eu me chamo Igor, mas vocês podem me chamar pelo vulgo Insano. Tenho 23 anos e sou o irmão mais novo do Monstro. Desde que ele foi preso, eu tô de frente no morro. Casei cedo, tá ligado? Com 18 anos eu já tava com a Maciel na pista. Achei que ela era o amor da minha vida. Fazia de tudo por ela, dava tudo do bom e do melhor. Gastava meu dinheiro todo com ela. Eu nem tinha olho pra outra mulher; pra mim era só ela.
Só que foi aí que ela me jogou na mão da polícia.
Eu só não rodei porque meu irmão pulou na bala por mim. Ele se rendeu pra eu poder sair. Sabe qual é o pior de tudo? Ele tá lá dentro por minha causa. Eu quase me f.u.d.i e ainda arrastei ele junto. Isso não sai da minha cabeça.
Depois daquele dia eu passei a entender uma parada que eu não queria aceitar. Como o próprio Mano Brown já disse:
“Confiança é uma mulher ingrata, que te beija e te abraça, te rouba e te mata.”
E eu vivi isso na pele.
Eu tava tão apaixonado que fiquei cego. Fazia tudo por ela enquanto ela armava contra mim. No final, não serviu de nada. É por isso que eu nunca mais vou confiar em mulher nenhuma. Tô fora desse bagulho de me apegar. Mulher atrás de sentimento quase tirou a vida do meu irmão, que é a única família que eu tenho.
Às vezes eu acho que é muita responsa. O morro inteiro nas minhas mãos, meu irmão preso por minha causa… mas eu não posso fraquejar. Não posso dar uma de doidão com a responsa toda comigo. Às vezes eu fico perdido, sem saber qual é o melhor caminho, mas eu faço o que tem que ser feito.
Fiel eu não tenho mais. Eu sigo me divertindo com as p.u.t.a.s daqui do morro, porque pelo menos eu sei o que esperar. Não tem ilusão, não tem promessa. É só o que é.
Mesmo assim, vez ou outra eu penso na minha ex e dá vontade de arrancar a cabeça dela. Mas enquanto eu não trombo de frente, eu sigo tocando a vida.
Meu irmão tava precisando de uma nova visita íntima. Ele já cansou das mulheres que passam pela vida dele. Nunca quer repetir a mesma pra não dar briga depois. E adianta alguma coisa? Não. Sempre tem disputa. Às vezes eu até deixo as meninas carecas de tanto puxar cabelo quando começam a brigar pra ver quem vai visitar ele. Eu nem mando; elas mesmas se estapeiam.
Eu tava de boa na minha sala quando o Biel, meu gerente de confiança, entrou. Ele me encarou por alguns segundos, passou a mão no rosto… e eu já vi que tinha dado m****.
Biel: — Pô, patrão… preciso te passar uma visão.
Insano: — Fala aí, meu mano.
Biel: — Tá ligado naquele casal da Rua 7? O velho safado e a mulher que vive bebendo no bar e dando calote? Eles já vieram parar aqui na boca duas vezes pra desenrolar dívida. Só que agora o bagulho ficou sério.
Eu já tava ficando sem paciência com aqueles dois. Vivem aplicando golpe em comerciante do morro.
Insano: — Não me fala que deram volta em mais alguém.
Biel: — Deram volta na boca, patrão. Tão devendo vinte mil em droga.
Na hora eu travei.
Vinte mil. E ninguém percebeu antes.
Ele começou a me explicar o esquema que fizeram. Fecharam mês, giraram mercadoria por fora… Papo reto, os caras foram espertos. Só que espertos demais vivem pouco.
Eu saí da sala direto pra casa deles. Ameacei os dois. O velho começou a tremer. Foi aí que eu toquei no nome da filha.
A morena bonitona.
Ele mesmo ofereceu: disse que ela podia fazer visita íntima pro Monstro pra pagar a dívida.
Eu ainda não tinha passado a visão pro meu irmão. Quando passei, ele ficou bolado no começo. Mas eu tinha certeza: quando ele visse a foto, ia mudar de ideia.
Mais tarde, meu telefone tocou.
Número dele.
A gente tem código. Se ele não fala primeiro, eu desligo.
Ligação.
Monstro: — Antes de continuar a conversa, me manda a foto da mina.
Mandei pelo w******p. Ele ficou mudo uns minutos.
Eu já tava pronto pra ouvir um “não”. Se ele recusasse, eu ia ter que voltar lá e resolver do meu jeito.
Monstro: — Pode mandar ela sexta na visita íntima. Já passa a visão pro Fábio pra agilizar as paradas.
Insano: — Já é.
Monstro: — Mas não manda nada ilegal por ela. Comida e o que eu precisar pra semana. O resto a gente desenrola de outro jeito.
Insano: — Suave. Só que ela trabalha sexta. Pode ir quinta.
Monstro: — Isso não é problema meu. Manda ela dar o jeito dela. Se aceitou o acordo, agora sustenta.
E desligou.
Eu fiquei rindo sozinho. Já mandei um vapor buscar ela. Quinta-feira ela vai ter que faltar o trabalho pra visitar meu irmão no presídio.
Com o gênio que ela tem, vai surtar.
Mas ninguém mandou o pai dela brincar com a boca.
E no meu morro, quem faz dívida paga.
De um jeito ou de outro.