ALANA NARRANDO
Era mais um daqueles dias nublados no morro. A neblina cobria os becos como um véu silencioso, e eu descia devagar pela viela de sempre, com a mochila nas costas, o fone num ouvido e a cabeça cheia. A escola ficava na parte mais baixa da comunidade, um prédio velho de janelas largas e portões enferrujados. Mesmo assim, era onde eu sentia uma pontinha de normalidade, apesar de tudo.
Na escola, eu não era exatamente invisível… mas também não era notada como alguém especial. Cumprimentava uma ou outra colega, trocava palavras educadas com uma professora ou outra, mas nunca fui de laços firmes. Era difícil confiar. Difícil entregar.
Passei a manhã em silêncio, copiando a matéria de Biologia, ouvindo a aula de História meio distraída, e tentando fingir que minha mente não estava constantemente voltada pro mesmo nome: Ayron.
Aquele era o nome que atravessava meus pensamentos nos intervalos entre uma aula e outra. Era só lembrar da voz dele, do jeito protetor, dos braços firmes que ele sempre colocava à minha frente quando alguma situação ameaçava meu sossego, e meu peito apertava de um jeito que eu não sabia explicar sem sentir culpa.
Quando o sinal do meio-dia tocou, enfiei os cadernos na mochila, como sempre. Mas assim que passei pelo portão da escola, parei de súbito. O carro preto dele estava ali. Estacionado meio de lado, com o vidro abaixado. E ele… sentado ali, camisa preta justa, barba por fazer, mexendo no celular como se não estivesse chamando atenção nenhuma. Meu coração disparou.
— Oi — murmurei, meio sem acreditar.
Ele olhou pra mim, sorriu de leve, e acenou com a cabeça.
Ayron — Entra aí, princesa. Hoje vou te deixar na casa da Aurora. Eu e a Catarina vamos precisar descer pro asfalto.
Engoli seco, abrindo a porta do passageiro. Sentei, ajeitando a mochila no colo. Ele colocou o celular no suporte, deu partida, e começou a subir de volta o morro.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei, tentando não soar desconfortável.
Ayron — Não. A Catarina conseguiu uma entrevista numa clínica de reabilitação. A gente vai lá conhecer o lugar. Coisa rápida. Mas como o Ian só volta mais tarde da escola, achei melhor te deixar com a Aurora. Tá tudo bem pra você, né?
— Tá sim — forcei um sorriso.
Mas não estava. Só o nome “Catarina” já era suficiente pra me deixar com o estômago embrulhado. Ainda mais imaginar os dois juntos… no carro, rindo, conversando, sonhando com uma vida que talvez nunca me incluísse.
Chegando em casa, corri pro quarto, troquei de roupa, peguei umas mudas extras e uma nécessaire. Quando voltei, ele já estava esperando no carro com o motor ligado.
Ayron — Bora? — perguntou, abrindo a porta.
Assenti e entrei.
No caminho até a casa da Aurora, o silêncio foi maior que a estrada. Eu queria perguntar se ele ia demorar. Queria saber se ia dormir fora. Mas engoli tudo. Fingi maturidade.
— Você vai demorar muito no asfalto? — soltei de repente, quase num sussurro.
Ele olhou pra mim de relance, sorrindo.
Ayron — Acho que não. Mas qualquer coisa, você fala com a Aurora, ou me liga, tá?
Assenti de novo, com um nó preso no peito.
Quando chegamos, ele estacionou e desceu. Me entregou a mochila e ficou um instante parado ali, olhando pra mim com aquele olhar que me desmontava.
Ayron — Se cuida, tá?
— Você também — Ele sorriu, virou-se e entrou no carro. Eu fiquei parada ali, vendo o carro sumir na curva, o som do motor diminuindo até se perder. E só então respirei fundo e bati no portão da Aurora.
Ela me recebeu sorrindo, sempre muito doce.
Aurora — Oi, minha flor! Entra, vem. A Maria Vitória tá de castigo, então talvez ela esteja mais azeda que o normal — brincou, piscando pra mim.
Entrei. A casa era organizada, aconchegante, e tinha cheiro de café fresco. Aurora me levou até o quarto de hóspedes, ajudou a colocar minhas coisas, e logo depois me chamou pra almoçar. O Kael estava lá também, sentado à mesa com o Kalleb e a Maria Vitória, que estava de braços cruzados e cara emburrada.
Maria Vitoria — Tirou meu celular por três dias! — resmungou a menina, encarando a mãe.
Aurora — Porque você ficou assistindo vídeo escondida de madrugada, Vitória. A gente já conversou sobre isso.
Eu me sentei em silêncio, observando aquela dinâmica tão viva, tão familiar. Almoçamos entre falas rápidas, conversas de adultos e pirraça de criança. Era estranho… mas reconfortante.
Passamos a tarde fazendo pequenas tarefas. Ajudei a Aurora a lavar umas roupas, e depois ficamos dobrando juntas no sofá, enquanto a TV passava um jornal qualquer.
Aurora — E o Ayron? — ela perguntou, como quem não queria nada. — Você tá gostando de ficar lá com ele e com a Catarina?
Fiquei tensa.
— Tô sim. Eles são… bons comigo.
Ela me olhou de lado, como se percebesse o desconforto, mas não insistiu. Mudou de assunto. Falamos de escola, da vida, de como era difícil confiar nas pessoas. E a conversa seguiu até o sol começar a baixar.
Já era fim de tarde quando perguntei, com o coração disparando:
— A Aurora… o Ayron vai voltar hoje?
Ela suspirou, com pena.
Aurora — Não, minha flor. Ele me mandou mensagem avisando que não volta. Parece que a Catarina preparou uma surpresa pra eles passarem a noite fora. Quatro anos juntos, né? Eles tão comemorando.
Foi como se o chão sob meus pés sumisse. Engoli o choro, agradeci e subi pro quarto. Aurora ainda preparou o jantar com carinho, chamou a todos, inclusive o Ian que já tinha chegado da escola. Sentamos todos à mesa, e eu fingi um sorriso, com o peito apertado.
Depois, no quarto, sozinha, deixei as lágrimas caírem em silêncio. Ninguém me ouvia. Ninguém me via. Deitada na cama arrumada com carinho pela Aurora, olhei pro teto escuro e imaginei como devia estar sendo a noite deles. Catarina rindo. Tocando nele. Deitando ao lado dele. E eu… ali. Esperando como uma sombra.
Fechei os olhos com raiva. Raiva de mim, por sentir o que eu sentia. Raiva dela, por ocupar um lugar que eu queria. Raiva dele, por não me ver de outro jeito.
E foi então que sussurrei no escuro, a voz falha, mas decidida:
— Eu não vou me sentir assim de novo. Nunca mais. Eu vou lutar pelo que é meu. Nem que eu tenha que passar por cima dela.
As lágrimas continuaram a cair. Mas dessa vez, elas não vieram com dor. Vieram com uma decisão.
Ayron seria meu ..
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