AYRON NARRANDO
A Catarina era o tipo de mulher que muita gente passava a vida inteira procurando. E eu sabia disso. Ela era bonita, centrada, doce… O tipo que sabe escutar até no silêncio. Já estavam pra fazer quatro anos que a gente tava junto. E de todos esses, pelo menos uns três, ela tinha carregado nas costas um fardo que nem era dela. Ela acolheu a Alana e o Ian como se fossem dela, sem pestanejar, sem me cobrar nada. Aquele jeitinho paciente, voz calma, olhar sincero. Eu olhava pra ela às vezes e pensava: essa mulher merecia um amor do tamanho do mundo. E tudo que eu conseguia oferecer era minha presença. E nem sempre era inteira.
Não era que eu não gostasse dela. Gostava, sim. Respeitava. Admirava. Mas amor? Daquele que bagunça tudo por dentro? Não. Nunca senti. E ela sabia. Ou fingia que não sabia. Mas de algum jeito, a gente funcionava. E eu achava que ela era a pessoa certa pra mim.
Naquela noite, eu tava sentado na sala. A casa em silêncio. O Ian já tinha apagado . A Alana tinha ido dormir mais cedo também, cansada do dia de aula. Eu fiquei ali, com o controle remoto na mão, sem nem prestar atenção na TV. Só pensando.
A chave girou na porta. Catarina entrou, tirando o tênis com um suspiro cansado.
Catarina — Amor.. cheguei — disse, com a voz baixa, mas ainda suave.
— E aí, doutora? — sorri de lado. — Como foi o plantão?
Catarina — Lotado. Mas graças a Deus sem tragédia hoje. — Ela deixou a bolsa no canto, tirou a touca, e veio sentar do meu lado, apoiando a cabeça no meu ombro. — E você, sobreviveu às crianças?
— Ian quase me nocauteou com a almofada. Mas tirando isso, tudo sob controle.
Ela riu baixinho e, por alguns segundos, a gente ficou em silêncio.
Catarina — Ayron — ela começou, mexendo no zíper do casaco com os dedos finos. — Eu precisava te contar uma coisa. Uma oportunidade apareceu.. uma entrevista.
— Entrevista?
Catarina — É. Numa clínica no centro. Fiquei sabendo hoje, pelo doutor Arnaldo. É uma vaga boa, melhor salário, mais estrutura, mais chance de crescimento. Achei que era importante te contar. Saber o que você acha…
— Ué — sorri. — Acho ótimo. Que isso, parabéns! Quando vai ser?
Catarina — Amanhã de manhã.
— Amanhã já?
Catarina — Aham. Me pegou de surpresa também, mas.. eu quero ir. Ver o que dá.
— Então eu te levo. Fico lá contigo — Ela me olhou com aquele sorriso que misturava gratidão com carinho. Aquele sorriso dela que dizia mais do que qualquer palavra.
No dia seguinte, busquei a Alana na escola, levei pra casa, ela pegou umas coisas, e depois deixei ela na casa da Aurora. Ian já tinha ido pra aula, depois futebol, e o Kael ficou de passar pra buscar ele. No fim da tarde, fui até o postinho pegar a Catarina.
Ela entrou no carro com o jaleco meio amarrotado, prendeu o cabelo num coque e falou, ajeitando o cinto:
Catarina — Conseguiu pegar a Alana na escola?
— Peguei. Já tá com a Aurora.
Catarina — E o Ian?
— Foi pra escola, depois futebol. Kael vai buscar ele — Ela assentiu, olhando pela janela. Depois de um tempo, virou pra mim, com aquele olhar que já dizia que vinha assunto..
Catarina — Sabe que Alana vai fazer 18 Anos daqui quatro messes e já é o ultimo ano dela na escola..
— Sei. Tá quase aí.
Catarina — Já pensou.. que faculdade a Alana vai fazer? — Fiquei em silêncio por uns segundos.
— Pra ser sincero… nunca tive essa conversa com ela — Ela assentiu outra vez, mas agora com um pouco mais de firmeza.
Catarina — Seria uma boa hora. Pra ela estudar fora do morro , talvez. Ter oportunidade de viver melhor. De sair da comunidade. Escolher um futuro diferente pra ela — Franzi a testa, incomodado com a ideia.
— Por que você pensa isso?
Ela me olhou, sincera.
Catarina — Porque no fundo, Ayron o sonho de toda menina, de toda mulher, é ser bem-sucedida. Não depender de ninguém. Ter escolha. Se ela conquistar isso por mérito, vai ser feliz. Eu tenho certeza — engoli em seco — fora que talvez não seja o sonho dela viver pra sempre dentro do morro..
Não respondi. Só olhei pra frente. A rua parecia mais longa do que era de verdade.
Catarina — Eu estudei em Belo Horizonte — ela continuou. — Na Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais. Excelente estrutura. Se ela quiser, eu indico de olhos fechados.
— Belo Horizonte é longe demais — falei, tentando manter a calma. — Longe demais pra deixar ela sozinha.
Ela suspirou, olhando a paisagem que ia ficando pra trás enquanto a gente descia o morro.
Catarina — Às vezes, Ayron , a gente precisa aprender a dar espaço. É o momento dela de escolher a independência… assim como eu escolhi a minha.
A conversa morreu ali. Fiquei quieto. Aquilo mexia comigo. Não conseguia imaginar a Alana longe. Não depois de tudo. Era mais que medo. Era pavor do que podia acontecer.
Chegamos na clínica. Ela desceu, ajeitou a bolsa no ombro e me deu um beijo na bochecha.
Catarina — Me deseja sorte?
— Muita sorte — sorri.
Enquanto ela estava lá dentro, andei pelo centro, entrei numa padaria, pedi um café e fiquei olhando pela janela. Pensando em tudo que ela falou. Na Alana crescendo. Indo embora. E eu… ficando. Será que eu tava pronto pra isso? Eu não sabia.
O celular vibrou. Era ela.
MENSAGEM ON
Catarina — Já acabei
— To indo ..
MENSAGEM OFF
Fui buscar. Ela entrou no carro sorrindo.
Catarina — Foi ótima. Me trataram super bem. Achei a estrutura maravilhosa. A médica chefe é uma referência… — parou um segundo, me olhando de lado. — Amor… já que a gente tá aqui embaixo, o que você acha da gente aproveitar?
— Como assim?
Catarina — Passar a noite por aqui. Só nós dois. Jantar, dormir num hotel… amanhã a gente completa quatro anos juntos. Queria que a gente se curtisse um pouco. Porque… a gente vive cercado de criança. E às vezes… esquece da gente, né?
Fiquei meio sem graça. Ela tinha razão. A gente não tinha muito tempo a sós. E quando tinha, era no nosso quarto, com medo de acordar alguém. Nunca teve um momento só nosso.
— Tá certo. Vamos fazer isso.
Achamos um hotelzinho perto da Lapa. confortável. Saímos pra jantar num restaurante italiano, ela pediu vinho, riu das minhas caretas pra comida estranha, e voltou pro hotel com aquele brilho no olhar. A noite aconteceu. Beijos, toques, gemidos abafados.
Mas pra mim… era comum. Rotina. Era o que sempre foi desde o início com a Catarina . Ela foi a primeira mulher com quem me relacionei depois da Sabrina. E talvez por isso, tudo ali era só… seguro. Sem intensidade. Sem labareda no peito. Só presença.
A madrugada foi chegando. O silêncio tomou conta do quarto, quebrado apenas pelo som do ar-condicionado. Eu dormia meio torto na cama quando o celular vibrou sobre a mesinha.
Peguei o aparelho com a vista embaçada. Número da Alana.
Sentei na cama num pulo.
LIGAÇÃO ON
— Alana? — Atendi, saindo pra varanda. A brisa da noite me acertou o rosto. E então… veio o som que gelou meu sangue.
O choro.
Um choro sufocado. Dolorido. Desesperado.
— Alana? — insisti, com a voz engasgada. — O que tá acontecendo? — Mas ela só chorava. E aquele choro… parecia cortar minha alma em pedaços.
Meu coração começou a martelar no peito. Eu encostei na grade da varanda, tentando respirar fundo.
— Alana, fala comigo. O que foi? — Só o choro.
LIGAÇÃO OFF
E foi ali, com a cidade lá embaixo e a madrugada me apertando o peito, que eu soube: alguma coisa tinha acontecido.
E nada ia ser como antes.
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