Tensão na madrugada

1401 Palavras
ALANA NARRANDO A madrugada era pesada. O ventilador fazia um barulho insistente no canto do quarto, mas nada acalmava o que fervia dentro de mim. O cobertor já nem me cobria, estava jogado num canto da cama, e meus olhos, mesmo fechados, não davam descanso. Eu virei de um lado, virei do outro, abracei o travesseiro como se ele fosse conter o que queimava por dentro. Mas não contia. E no fundo, eu sabia por quê. Meus dedos já tavam tremendo quando peguei o celular. O nome dele ali… Ayron. Eu sabia que não devia. Sabia que tava tarde, sabia que ele não tava sozinho — sabia que ele tava com a Catarina . E talvez foi exatamente por isso que eu liguei. Porque a dor de imaginar era menor do que a dor de não saber. Ele atendeu no segundo toque. LIGAÇÃO ON Ayron — Alô? — a voz veio grave, um pouco abafada, mas eu reconheceria mesmo se fosse no meio do caos. Mas eu não consegui responder. Só chorei. O choro veio preso na garganta, sufocado, e tomou conta. Era como se toda a minha alma tivesse escorrendo pelos olhos. — Alana? — ele perguntou de novo, agora mais tenso. — O que aconteceu? Alana, fala comigo… pelo amor de Deus… LIGAÇÃO OFF Mas eu não falei. Porque não era só tristeza, era vergonha. Era um aperto de saber que, naquele momento, ele tava na cama com outra mulher — e ainda assim foi a voz dele que eu procurei. Eu não voltei pra casa antes de ir pra escola. Saí direto. Fui com a cara lavada e a alma esfolada. Porque se eu voltasse, o Ayron ia ver. E eu não queria encarar ele. Não com os olhos inchados, não depois de ter ligado pra ele daquele jeito. Quando empurrei o portão, depois da aula, só o Ayron tava na sala, sentado com o celular na mão. Ele olhou na mesma hora. Ayron — Ei — ele se levantou —, como foi a escola? — Normal — respondi, tirando o tênis. Ayron — Você chegou cedo… não passou em lugar nenhum? — Não. Vim direto — Ele tentou sorrir. Eu só passei por ele. Ayron — A gente pode conversar? — ele perguntou, vindo atrás. — Sobre o quê? Ayron — Sobre a ligação da madrugada. Sobre você… — Não foi nada demais — cortei, sem olhar pra ele. — Só um sonho r**m. Eu sabia que ele sabia que era mentira. Mas foi o que eu escolhi dizer. E ele respeitou, mesmo incomodado. Ayron — Quer comer alguma coisa? Eu fiz arroz, tem carne moída… até que ficou bom. — Tô sem fome. Ayron — Quer assistir um filme? Tem aquele que você disse que queria ver, do cachorro… — Não, obrigada. Quero só deitar um pouco — Ele ficou ali parado, me olhando como se não soubesse onde pisar. Como se qualquer movimento dele fosse acionar uma bomba. E era isso mesmo. Porque por mais que ele tivesse se mostrado preocupado, ele não voltou. Ele não largou a Catarina pra vir ver o que eu tinha. Ele ficou lá. Com ela. Os dias seguiram assim. A mesma casa, os mesmos horários. Mas um abismo entre nós. Eu falava o necessário. Respondia o que era preciso. Mas não dava espaço. E ele sentia. Sentia no olhar, no silêncio, na falta de qualquer aproximação. E quanto mais ele tentava, mais eu me fechava. A Catarina, como sempre, percebia. Catarina — Tá tudo bem com você, Lana? — perguntou num final de tarde, sentadas na varanda. — Tá — respondi, com os olhos longe, vendo as crianças brincando na rua. Catarina — Tem certeza? Você tá estranha. Quietinha. — É só cansaço — Ela me olhou com aquele olhar doce, mas firme. Catarina — Eu sei que as coisas aqui dentro não são perfeitas. Mas se você precisar conversar, eu tô aqui, tá? — Assenti com um aceno de cabeça. Fiquei uns minutos em silêncio — Catarina? — ela voltou seu olhar pra mim — como faz pra esquecer alguém ? —ela sorriu , mas quando ia me responder o Ayron apareceu com o semblante fechado .. No sábado, teve um churrasco. Ayron quis reunir todo mundo pra aliviar o clima. Tinha música, refrigerante, carne assando no espeto, e eu sentada num canto, com um copo de suco na mão e a cabeça em outro lugar. Catarina sentou do meu lado, com uma simpatia irritantemente gentil. Catarina — Você pensa em fazer faculdade? — Como é? Catarina — Faculdade, Lana. Você já tá no terceiro ano. Tem alguma coisa que você queira? Engoli em seco. O Ayron, do outro lado da varanda, tava conversando com um dos rapazes da contenção , mas me olhou na mesma hora. — Não sei… nunca pensei nisso. Catarina — Mas você devia. Eu fiz na UFMG, em Belo Horizonte. Foi a melhor coisa da minha vida. Me deu liberdade, me deu visão de mundo. Você tem capacidade de sobra. — Belo Horizonte é meio longe — respondi, desviando o olhar. Catarina — E é exatamente por isso que seria bom — ela sorriu. — Te daria independência, foco, paz. Às vezes, a gente precisa se afastar do que nos prende pra descobrir o que realmente quer. Eu senti o coração bater forte. Não pela ideia da faculdade, mas pelo que ela estava realmente dizendo. Era como se ela tivesse me sugerindo fugir daqui. Fugir dele. Ayron — Dá pra parar com isso? — a voz do Ayron cortou a conversa. Ele se aproximou, o rosto sério. — Toda vez esse papo de tirar ela daqui. Tem faculdade boa no Rio, tem até perto do morro. Pra quê Belo Horizonte? Catarina — Ayron… — ela começou, calma. Ayron — Não, Catarina. Você vive querendo colocar ideia na cabeça dela. Alana é daqui. Sempre foi. Não precisa sumir do mapa pra se encontrar. Catarina — Não é sumir, é crescer — ela respondeu, sem se alterar. — Mas tudo bem, a escolha é dela. Ayron — Então deixa que ela escolha, sem pressão. — Você estar certa .. eu vou pensar com mas carinho — digo encarando ela , de certo modo ela não estava errada .. Eu conseguia sentir os olhos dele me queimando feito brasa Naquela noite eu tava lavando a louça quando ele apareceu na cozinha. Nem percebi que ele tinha entrado, só notei quando senti o calor do corpo dele se aproximando pelas minhas costas. Não tive nem tempo de virar. Ayron — Você me odeia agora? — ele perguntou com um meio sorriso cansado na voz, colando o peito nas minhas costas. Antes que eu respondesse, senti os braços dele passando pela minha cintura, me puxando devagar. Meu corpo travou. Ele afastou meu cabelo pro lado com uma delicadeza que não combinava com o cheiro forte de whisky que vinha dele desde o churrasco. — Ayron… — murmurei, mas a voz saiu fraca, quase um sussurro. Os lábios dele encostaram na minha nuca, depois desceram pro meu pescoço, e um arrepio tomou meu corpo inteiro. Eu fechei os olhos. Não queria, mas fechei. O toque dele sempre mexia comigo, e ali, naquele silêncio abafado da cozinha, tudo parecia explodir dentro de mim sem som nenhum. Ele suspirou perto do meu ouvido, quente, lento, e a respiração dele causou outro arrepio que percorreu minha espinha. O corpo dele tava colado no meu, firme, e eu senti. Senti ele duro, roçando de leve nas minhas costas, como se o desejo tivesse escapado mesmo que ele tentasse segurar. Ainda assim, respondi: — Não. Ayron — Então por que tá me tratando como um estranho? — ele perguntou baixo, ainda com os lábios perto da minha pele. — Porque você se comportou como um — falei, sem conseguir esconder a dor. Ele não se afastou. Continuou ali, alisando minha cintura com uma das mãos, os dedos quentes e pesados sobre o tecido fino da minha blusa. E mesmo sem dizer mais nada, o silêncio entre a gente tava carregado. Carregado de tudo o que nunca foi dito. De tudo o que se sentia e se engolia. E eu fiquei ali, com as mãos molhadas dentro da pia, o coração acelerado no peito, e o gosto amargo da vontade atravessando a garganta. OBS: PARA MAIS CAPÍTULOS COMENTEM E DEIXEM BILHETES LUNARES ..
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR