AYRON NARRANDO
A ligação caiu.
A tela ficou preta no mesmo segundo em que a voz da Alana engasgou em mais um soluço abafado. Por um instante, fiquei só olhando pro celular, como se esperando que ela voltasse a ligar. Mas não voltou. Não tinha mais nada, só o silêncio seco da madrugada.
Peguei minha blusa que estava jogada na poltrona. Não dava. Não dava pra dormir sabendo que ela tava daquele jeito. Que por algum motivo, mesmo sem querer falar nada, ela tinha me ligado chorando. Chorando de um jeito que me deu um aperto no peito, uma aflição que eu não sabia explicar.
Eu não sabia o que era. Só sabia que doía. E que se eu ficasse ali, deitado, fingindo que tava tudo bem, eu ia pirar.
Catarina — Pra onde você vai? — a voz da Catarina me fez virar de leve. Ela tava se sentando na cama, os cabelos desgrenhados
— Aconteceu alguma coisa com a Alana — respondi rápido, puxando a blusa sobre a cabeça. — Ela me ligou agora há pouco… chorando muito. Mas não quis falar o que era.
Catarina levantou devagar, cruzou o quarto e veio até mim. Me abraçou pelas costas, o rosto encostado no meu ombro.
Catarina — Ayron… — a voz dela era baixa, mansa. — A Alana tá bem. Ela tá na casa da Aurora. Antes de deitar, falei com a Aurora. A Alana já tinha jantado, tava no quarto, deitada. Tá tudo certo — Fiquei quieto. A blusa ainda meio torta no corpo, o peito queimando com uma sensação de impotência que me deixava inquieto — Ela tá segura. Você sabe disso — ela disse, alisando meu braço. — A gente decidiu passar a noite aqui pra se curtir, lembra? Fica aqui comigo…
Engoli em seco. Ela tava certa. Eu que tinha topado aquilo. E mesmo que algo tivesse incomodando a Alana, ela tava dentro da casa da Aurora. E a Aurora nunca ia deixar nada acontecer.
— Tá — murmurei. — Tá bom.
Abracei Catarina de volta, mais por inércia do que por vontade. A cabeça já tava a mil, cheia de pensamentos desconexos, mas todos girando no mesmo ponto: o choro da Alana. A voz dela do outro lado da linha. A sensação de que tinha alguma coisa errada
Catarina tentou mais uma vez se aproximar de mim como antes, com beijos no meu pescoço, dedos passeando pela minha barriga, descendo devagar. Mas não deu. Eu não consegui reagir. Não consegui nem fingir. Só deitei de lado e virei o rosto pro outro canto. Ela entendeu. Me abraçou por trás e ficamos assim. O quarto em silêncio, com o ventilador girando e o peso da madrugada sobre a gente.
Quando o sol começou a nascer, a primeira coisa que eu quis foi sair dali.
A gente se levantou devagar. Ela não falou muita coisa. Me olhava de lado, como se quisesse entender no que eu tava pensando, mas não perguntava nada. Me limitei a vestir minha roupa, escovar os dentes, e esperar ela se aprontar. O caminho de volta pro morro foi feito no mais absoluto silêncio. O rádio do carro ligado baixinho, mas nenhuma música parecia fazer sentido. Eu só olhava pela janela, remoendo tudo.
Quando chegamos, ela desceu direto pro postinho. E eu reparei que a Alana não tinha voltado em casa antes de ir pra escola.
Naquela hora, tudo parecia mais estranho ainda. Porque se ela tivesse vindo pra casa, a gente talvez tivesse conseguido conversar. Mas não. Ela foi direto da Aurora pra escola, e eu fiquei com a sensação de que ela tava querendo evitar. Ou esconder. Ou só fugir.
No horário do almoço, ela chegou. E aí a cena que se seguiu foi tão óbvia que doeu. Eu tentei puxar assunto, fiz carne moída, perguntei se queria comer comigo. Nada. Ela só agradeceu, fria, distante, e foi pro quarto dela. Disse que queria descansar um pouco. Quando perguntei sobre a ligação da madrugada, ela disse que não era nada demais.
Mas eu sabia que era.
Dava pra ver no rosto dela, no jeito como ela nem olhava direito nos meus olhos. Dava pra sentir na maneira que ela evitava qualquer aproximação. E eu? Eu me sentia perdido. Porque ela tava ali, perto. Mas parecia a quilômetros de distância.
E foi ali, de pé na cozinha com o prato vazio na mão, que eu comecei a me perguntar:
O que foi que eu fiz?
Porque alguma coisa tinha mudado.
E talvez o problema fosse justamente esse
Os dias que vieram depois daquela segunda-feira me deram a certeza do que eu já tinha sentido no peito na madrugada do fim de semana: a Alana tava diferente. E o pior… ela tava decidida a me mostrar isso.
Ela não gritava. Não brigava. Não cobrava. Mas a indiferença dela era tão ensurdecedora que me feria no osso.
Tudo que eu fazia era ignorado.
— Quer comer comigo?
Alana — Não, obrigada.
— Vai ver TV aqui na sala?
Alana — Não. Tô cansada.
As respostas vinham sempre secas, com os olhos no chão, sem sequer cruzar com os meus. E mesmo quando ela tava dentro de casa, parecia estar a quilômetros de distância. Como se cada cômodo tivesse virado uma muralha entre nós dois.
Ela chegava até a conversar de boa com a Catarina. Mas comigo… comigo ela parecia usar uma máscara de gelo. Como se só a minha presença fosse capaz de lembrá-la de tudo que ela queria esquecer.
E talvez fosse.
Eu ficava tentando encontrar uma explicação. Será que era por causa da Catarina? Será que era pela noite que eu fiquei fora? Mas não tinha sido só isso. O que me destruía era lembrar da ligação. Dela chorando. Da dor na voz dela. E mesmo assim, eu não fui atrás. Não voltei.
Eu fiquei.
E agora… eu tava pagando o preço.
O churrasco do fim de semana chegou como uma tentativa de respiro. Catarina fez questão de cortar todas as carnes. Eu mesmo botei o carvão pra acender, mesmo sem clima nenhum.
Alana ficou no canto da varanda, sentada numa cadeira baixa, mexendo no celular de vez em quando, observando o movimento.
Catarina, claro, percebeu a tensão no ar. Fez de tudo pra tentar deixar o clima leve. Riu alto, falou alto, serviu cerveja, fez piada. Mas até ela tava se incomodando com o jeito que eu não tirava os olhos da Alana.
E foi num momento que a música abaixou, que a fumaça da carne subia devagar no ar, que Catarina perguntou sobre a m***a de fazer faculdade fora
Aquilo me subiu um ódio tão grande , eu já tinha conversado sobre isso com ela , não quero que enche a cabeça da menina de coisas por esse motivo quando a Catarina decidiu subir para o quarto eu segurei seu braço
— Tem faculdade boa aqui também, Catarina — rebati, sem conseguir disfarçar o tom — tá parecendo que tá querendo afastar a Alana da gente p***a ..
Ela arqueou a sobrancelha.
Catarina — Eu sei. Mas talvez a questão nem seja a faculdade, né?
— E qual seria a questão, então? — perguntei, cruzando os braços.
Catarina — A liberdade dela — ela respondeu, olhando pra Alana ..
Fiquei calado. Porque qualquer coisa que eu dissesse ia ser mais pesada do que eu queria.
Mais tarde, a casa já tinha esvaziado. A Alana estava de costas, lavando a louça, com as mangas da blusa arregaçadas e o cabelo preso num coque bagunçado. A luz amarelada da cozinha deixava a cena mais íntima do que parecia.
Catarina já tinha subido pro quarto há uns minutos, dizendo que ia deitar um pouco. E eu fiquei ali, parado na porta da sala, observando aquela cena simples. Só que não era simples. Não mais.
Lembrei da pergunta que a Alana fez pra Catarina, com a voz mais baixa do mundo, mas ainda assim cortante:
“Como se faz pra esquecer alguém?”
A pergunta ficou ecoando dentro de mim como um tiro no escuro. Como se, só então, eu estivesse entendendo a gravidade de tudo. O quanto ela tava tentando seguir. O quanto ela tava lutando pra arrancar meu nome de dentro dela.
E o pior… é que eu sempre soube o que ela sentia por mim. Sempre. Desde o começo. Só que eu tratei aquilo como coisa de menina. Como fase. Como se fosse algo que ela fosse superar com o tempo.
Mas ela não tava superando. Ela tava tentando esquecer. Tava tentando se blindar de mim. E isso doía mais do que qualquer discussão, qualquer grito, qualquer afastamento.
Engoli em seco.
Me aproximei devagar. Cada passo até ela era como atravessar um campo minado de tudo que a gente não falou, não viveu, não resolveu. Quando cheguei atrás dela, a água ainda escorria da torneira, e ela não percebeu minha presença de imediato.
Encostei minhas mãos na cintura dela, com cuidado, sem fazer força. O corpo dela enrijeceu no mesmo segundo. Mas não se afastou.
Aproximei meu corpo do dela. Encostei meu peito nas costas dela, sentindo o calor, o cheiro do sabão, do perfume fraco dela misturado com o meu suor e o whisky que ainda pesava na minha respiração. Afastando com carinho os fios do cabelo dela pro lado, beijei devagar a nuca dela.
Ela respirou fundo.
O beijo desceu um pouco mais, pro pescoço. A pele dela arrepiou inteira, e mesmo sem ver os olhos, eu sabia. Eu sabia o que ela tava sentindo, porque o corpo dela respondeu antes dela pensar.
Meus dedos apertaram de leve a cintura dela. Minha respiração pesada perto do ouvido dela. E o silêncio entre a gente gritando mais do que qualquer palavra.
Meu corpo colado no dela. A tensão ali no meio da cozinha, junto do cheiro do detergente e do drama que a gente carregava. Ela sentia. Eu sabia que ela sentia. Eu também sentia. Sentia tanto que doía. Queimar por dentro e não saber como apagar.
— Você me odeia? — perguntei, num sussurro rouco, ainda com os lábios perto da pele dela.
Ela demorou a responder. O peito dela subiu devagar numa respiração contida.
Alana — Não… — murmurou, num fio de voz.
— Então por que tá me tratando como um estranho?
Ela ficou imóvel por uns segundos. Só o som da água ainda caindo. Só a gente. Só o tempo parado ali.
Alana — Porque você se comportou como um. — A resposta veio baixa, firme, com a dor que ela já não fazia questão de esconder.
Fechei os olhos. Encostei a testa na lateral da cabeça dela, respirando fundo. E fiquei ali.
Com ela entre meus braços.
Com o arrependimento inteiro no meu peito.
Com o desejo gritando entre nossos corpos.
E com a certeza de que se eu não fizesse nada…
Eu ia perder ela de vez.
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