Pré-visualização gratuita Capítulo 1 - Herdeiro da família Montebello
Santa Aurora era um país jovem, mas de riquezas antigas. Suas cidades misturavam arquitetura clássica com arranha-céus espelhados, e por trás da fachada de prosperidade, as velhas famílias influentes ainda moviam os fios invisíveis da política e dos negócios. Em 2018, os Albuquerque eram um desses pilares: tradicionais, orgulhosos e tão temidos quanto respeitados.
Clara lembrava bem da primeira vez que atravessou os portões de ferro da Mansão Albuquerque. Tinha nove anos, um vestido simples de algodão, os cabelos presos num laço gasto e um coração cheio de esperança. Helena e Tadeu sorriram para as câmeras naquele dia, chamando-a de “abençoada”, “filha do destino”, “um gesto de caridade”. Mas o sorriso nunca chegou aos olhos deles.
Agora, aos dezenove, Clara sabia exatamente o que significava viver ali: ser uma sombra na própria casa.
Naquela manhã, acordou antes do sol, como sempre. O céu ainda estava azul-acinzentado quando ela entrou na cozinha. As empregadas conversavam baixinho, preparando o café da família, mas Clara tratou logo de pegar o balde e a vassoura.
— Clarear o chão da sala principal, menina — ordenou Dona Ruth, a governanta, sem nem olhar para ela.
Clara assentiu. Já estava acostumada.
Enquanto esfregava o chão de mármore, ouviu passos apressados no topo da escada.
— CLAAA-RA! — a voz aguda de Luísa atravessou o corredor como um estalo de chicote.
Clara respirou fundo.
Luísa, aos vinte, era o retrato perfeito da futilidade: linda, mimada e acostumada a conseguir tudo com um simples bater de cílios. Desceu as escadas com o robe de seda esvoaçando, o cabelo loiro impecável embora tivesse acabado de acordar.
— Por que meu suco não está na mesa? — chiou ela, parando diante de Clara como se esperasse uma resposta.
— Dona Ruth ainda está terminando o preparo — murmurou Clara, abaixando a cabeça.
— Então por que você não fez? — Luísa cruzou os braços. — Faça agora. Quero laranja, sem gelo, coado duas vezes. E rápido.
Clara assentiu e se levantou, mas antes que pudesse sair, Luísa segurou o braço dela.
— E lembre-se — disse, a voz baixa e venenosa —: você está aqui por nossa bondade. Não se esqueça disso.
Clara se afastou em silêncio, engolindo a dor no peito. Sempre era assim. Todos os dias.
Quando entrou na cozinha para pegar as laranjas, uma voz bem familiar sussurrou atrás dela:
— Ei… você está bem?
Clara se virou. Pedro estava encostado na porta, uniforme simples, olhar preocupado. Filho do motorista, dois anos mais velho que ela, sempre segurando um sorriso torto que misturava charme e malandragem.
Clara tentou sorrir de volta.
— Luísa só está sendo… Luísa.
Pedro se aproximou, pegou uma laranja e começou a descascar com habilidade.
— Eu ainda vou te tirar daqui — disse ele, com um brilho nos olhos. — Quando eu tiver uma vida melhor, você vai ver. Você e eu, fugindo dessa mansão.
Ela corou, sentindo o coração acelerar.
— Minha vida já é melhor com você — murmurou.
Pedro sorriu… mas não era exatamente um sorriso romântico. Era ambicioso. Quase calculado.
Clara não percebeu.
Naquela tarde, os Albuquerque estavam reunidos no grande salão, algo incomum para um dia de semana. A atmosfera estava tensa. Clara servia chá enquanto os olhares ansiosos se cruzavam de um lado para o outro.
Tadeu Albuquerque, com seus cabelos grisalhos e presença imponente, caminhava em círculos.
— Não podemos recusar — dizia ele, inquieto. — A proposta da família Montebello é o tipo de aliança que acontece uma vez na vida.
Clara parou por um instante. Montebello. Todos em Santa Aurora sabiam quem eram. A família mais rica do país talvez do continente.
Helena, sentada no sofá com postura impecável, sorveu o chá com tranquilidade.
— E não vamos recusar — afirmou, categórica.
Luísa desceu as escadas apressadas, o rosto ruborizado.
— Mamãe! Papai! Não posso acreditar no que vocês estão dizendo! — gritou. — Eu… eu me casar com ele? Com um velho de sessenta e cinco anos?! Isso é absurdo!
— Não fale assim dos Montebello — rosnou Tadeu. — Eles têm mais poder que dez famílias como a nossas juntas.
— Mas eu sou jovem! Tenho futuro, tenho sonhos! — Luísa bateu o pé, histérica. — Não vou me amarrar a um velhote enrugado que m*l consegue subir uma escada!
Rafael, sentado na poltrona com o videogame portátil, riu.
— Talvez ele pague por uma escada rolante, mana.
Luísa jogou uma almofada nele.
— NÃO É HORA PRA BRINCADEIRAS!
Tadeu ergueu a mão, exigindo silêncio.
— Já conversamos sobre isso. A família Montebello ofereceu um contrato de união. Muita influência, investimentos… prestígio político. E querem alguém da nossa família.
— Então escolham o Rafael! — gritou Luísa, desesperada.
— Ele é homem — retrucou Helena, com frieza. — Eles querem uma esposa.
Luísa empalideceu.
— Eu não vou fazer isso. Eu não vou casar com esse homem!
Clara, no canto da sala com a bandeja nas mãos, olhava a cena sem saber para onde fugir.
Helena inspirou fundo, e então, em uma calma assustadora, declarou:
— Se você não quer… então Clara irá.
A bandeja tremeu nas mãos dela. O som das porcelanas tilintou no ar.
— E-eu…? — gaguejou Clara, olhando para a mulher como se tivesse levado um t**a.
— Sim — respondeu Helena, sem emoção. — Você é nossa filha adotiva. Deve ser grata. E está em idade adequada. Além disso, saberá seu lugar, o que Luísa não sabe.
Luísa sorriu pela primeira vez.
— Isso! Deixa a insignificante ir no meu lugar!
Clara sentiu o chão sumir.
— Mas eu… eu não posso — murmurou. — Eu tenho… eu… Pedro.
Tadeu se levantou de súbito.
— Pedro? — repetiu ele, com desdém. — O filho do motorista? Não seja ridícula, Clara.
— Ele é meu namorado — sussurrou ela, sentindo os olhos queimarem.
Helena riu. Um riso curto, afiado.
— Namorado? — zombou. — E você acha que isso importa? Nós te tiramos do orfanato. Te demos um teto, comida, estudo. E é assim que retribui? Questionando nossa decisão?
Clara tentou falar, mas a voz falhou.
Helena se levantou e caminhou até ela, lenta e imponente.
— Não se esqueça, garota: você não estaria viva hoje se não fosse por nós. Deve tudo à nossa generosidade. Tudo. E agora é hora de pagar.
Clara sentiu as lágrimas escorrerem, mas manteve a cabeça baixa. Não queria dar a eles o prazer de vê-la quebrar completamente.
Luísa cruzou os braços, satisfeita.
— Pronto. Problema resolvido.
— Reunião encerrada — disse Tadeu, como se tivesse acabado de assinar um contrato empresarial. — Helena, envie amanhã nossa resposta aos Montebello.
Clara ficou paralisada. A bandeja pesava como chumbo em seus dedos.
Quando a noite chegou, ela se escondeu atrás dos estábulos, onde sabia que Pedro estaria ajudando o pai a fechar os carros.
— Pedro… — chamou ela, entre soluços.
Ele veio até ela, segurando seus ombros.
— O que houve? Por que está chorando assim?
Clara m*l conseguia respirar.
— Eles… eles querem que eu me case — disse, engasgada. — Com o herdeiro dos Montebello.
Pedro arregalou os olhos.
— Montebello? — repetiu, incrédulo.
Ela assentiu, tremendo.
— Um homem de sessenta e cinco anos. Viúvo. Eu não posso… não posso…
Pedro ficou em silêncio por tempo demais.
Clara percebeu pela primeira vez que seu olhar não era de tristeza.
Era de puro cálculo.
— Pedro…? — murmurou.
Ele hesitou, depois respirou fundo.
— Clara, escuta… — disse, escolhendo as palavras. — Os Montebello são bilionários. Talvez isso… talvez isso não seja tão r**m.
Ela deu um passo para trás, como se tivesse levado uma facada.
— O quê…? Como pode dizer isso…?
— Eu só… só estou pensando no futuro. No nosso futuro — disse ele, tentando sorrir. — Se você entrar naquela família… imagina o que podemos conseguir.
A voz dele era doce. Doce demais.
Clara recuou mais um passo.
— Pedro… você não… não me ama?
Ele engoliu em seco.
— Claro que amo, Clara. Mas amor não enche barriga. Não compra liberdade. Não dá poder.
Ela sentiu o chão desaparecer novamente.
— Então tudo que você queria era… usar a mim? — sussurrou.
Pedro balançou a cabeça, mas o silêncio o traiu.
Clara virou o rosto, sufocada.
— Eu… eu preciso ir.
Pedro tentou segurar sua mão.
— Clara, espera, eu—
Mas ela puxou a mão de volta.
— Não fale comigo — disse, a voz quebrada. — Não hoje.
Ela voltou para a mansão com o coração em ruínas.
Mas ainda não sabia que aquele seria apenas o início de uma história muito maior…
Uma história que mudaria Santa Aurora para sempre.