Capítulo 2 - O contrato de casamento.

1429 Palavras
Clara nunca tinha segurado uma caneta com as mãos tão trêmulas. O salão de reuniões era enorme, silencioso e frio. Na mesa, repousava o contrato de casamento da família Montebello um documento com mais páginas do que livros que ela lera na vida. — Assine — ordenou Helena, impaciente. — Já estamos atrasados. Clara olhou ao redor. Ali estavam Helena, Tadeu, Luísa, Rafael… até Pedro, ao fundo, com uma expressão que misturava pena e oportunismo. Ela sentiu o estômago embrulhar. — Eu… eu não posso nem conhecê-lo antes? — perguntou, com a voz baixa. Tadeu soltou uma risada seca. — Ele não é um garoto de romance, Clara. É um homem ocupado. E você deveria agradecer por estar recebendo essa oportunidade. Helena deu um leve t**a na mesa. — Assine logo. Não torne as coisas mais difíceis. Clara engoliu o choro. Pegou a caneta. E assinou. Um silêncio pesado tomou conta da sala. Do outro lado da mesa, Pedro a observava. Não havia amor naquele olhar. Havia cálculo. Havia ganho. E naquele instante, Clara entendeu: ela estava completamente sozinha. A despedida foi rápida. A família Albuquerque não era dada a sentimentalismos. — Faça bonito para nós — disse Helena, ajeitando o colar de pérolas. — Agora você carrega o nome deles. Não nos envergonhe. Luísa abraçou Clara como quem abraça um estranho. — Aproveita sua vidinha nova, tá? — murmurou, com um sorriso falso. — Espero que aquele velho não ronque muito. Rafael nem fingiu interesse; só acenou com a cabeça e voltou para seu celular. Pedro, porém, se aproximou por último. — Clara… — disse ele, segurando a mão dela. — Se você precisar de mim… eu estarei aqui. Ela o encarou, fria como mármore. — Você já mostrou onde está — respondeu. — E não é comigo. Pedro apertou os lábios, mas não retrucou. E assim ela partiu, sem lágrimas, sem abraços. Apenas o vazio no peito e uma mala com três vestidos simples. A mansão Montebello não era apenas grande, era monumental. Muros altos, jardins perfeitos, uma fonte imensa no centro da entrada. Clara ficou paralisada quando desceu do carro. Uma mulher surgiu na porta. Tinha cerca de cinquenta anos, postura impecável e um sorriso acolhedor. — Senhora Montebello? — perguntou a mulher com gentileza. — Sou eu quem vai cuidar de você. Meu nome é Rose Adam. Pode me chamar de Adam mesmo. Clara corou imediatamente. — Não… por favor, não me chame assim. Meu nome é só Clara. Ada sorriu ainda mais. — Tudo bem, Clara. Venha, vou lhe mostrar seu novo lar. “Lar”. A palavra pareceu estranha em seus ouvidos. Ao entrar, tudo era tão luxuoso que Clara sentiu medo de tocar nos móveis. Salas de estar enormes, escadarias de mármore, tapetes importados, quadros de pintores famosos. — O senhor… meu marido… ele está? — perguntou Clara, hesitante. Ada balançou a cabeça. — O senhor Montebello vive viajando. Negócios, reuniões, encontros políticos. Ele informou que não há necessidade de conhecê-la de imediato. Disse que tudo será resolvido no tempo certo. Clara sentiu um frio na espinha. Casada com um homem que nunca vira. — Mas… ele sabe que eu estou aqui? — insistiu. — Sabe, sim. Ele pediu para eu cuidar de tudo para você — respondeu Adam, com um olhar cheio de ternura. — Não precisa ter medo, minha querida. Aqui ninguém vai te machucar. Clara baixou os olhos, sentindo o peso das palavras. “Ninguém vai te machucar”. Era algo que nunca tinha ouvido de ninguém. Os primeiros dias foram de completo silêncio. Clara não fazia nada além de olhar pela janela do seu quarto gigante e luxuoso. Não podia sair. Não tinha permissão para contactar ninguém. E também não tinha ordens, tarefas, obrigações. Era como estar presa… porém em ouro. Adam visitava o quarto todas as manhãs com notícias que não mudavam: — O senhor Montebello ainda está viajando. — O senhor Montebello enviou flores. — O senhor Montebello pediu que você descanse. O marido inexistente. O fantasma dono da mansão. Até que um dia, enquanto Adam arrumava o armário novo dela, Clara finalmente criou coragem de perguntar: — Adam… eu queria… estudar. Será que… será que eu posso fazer uma faculdade? Ada parou imediatamente, surpresa. — Estudar? Claro que pode, minha querida. Isso nunca seria proibido. Vou informar à administração da família. — Você acha que eles vão autorizar? — perguntou Clara, ansiosa. — Tenho certeza — respondeu Adam com um brilho nos olhos. — A família Montebello adora pessoas instruídas. Na manhã seguinte, Adam apareceu animada: — Clara! Eles aprovaram! Você pode se inscrever em qualquer universidade de Santa Aurora. Eles pagarão tudo. Clara segurou as mãos da governanta, emocionada. — Obrigada, Adam. Obrigada por… por acreditar em mim. Adam colocou uma mecha do cabelo de Clara atrás da orelha. — Minha filha… você não imagina o quanto merece viver sua vida. E ali, pela primeira vez em muitos anos, Clara sorriu de verdade. Três anos se passaram. Clara agora tinha 22 anos, estudava Administração na Universidade Nacional de Santa Aurora e vivia como uma pessoa comum ou o mais próximo disso que conseguia. Ela não dizia a ninguém seu sobrenome. Sempre assinava apenas “Clara A.”. Não contava sobre o casamento. Não mostrava fotos da mansão. Inventava que morava com uma tia distante. O segredo era sua liberdade. A sala de aula estava lotada quando sua melhor amiga na faculdade, Júlia, se aproximou. — Clara! — disse ela, jogando-se na cadeira ao lado. — Você viu o professor? Parece que vai ter uma atividade em grupo. — Ah não… — murmurou Clara. — Odeio grupo. — Eu sei — disse Júlia, rindo. — Mas você é inteligente, sempre salvando nossas notas. Devia gostar. Clara deu um leve empurrão nela. — Isso é chantagem emocional. — Totalmente — respondeu Júlia com um sorriso travesso. — Aceita logo. Clara adorava isso em Júlia. Era espontânea, sincera, diferente de tudo o que ela vivera nos Albuquerque. Ali, com ela, Clara se sentia normal. O professor entrou, batendo os livros na mesa. — Pessoal, vamos formar grupos de quatro. Vocês têm um mês para entregar o trabalho final. Clara e Júlia se entreolharam. Elas já tinham escolhido seu grupo, claro. — Ei! — chamou Lucas, outro amigo deles, acenando. — Já reservei lugar para vocês aqui. Clara caminhou até ele sorrindo. Era bom ter amigos. Era bom ter uma vida que finalmente parecia sua. Nenhum deles fazia ideia da verdade: Que Clara era casada. Que carregava um sobrenome poderoso. Que vivia em uma mansão de 50 cômodos. Que tinha segurança vigiando 24 horas por dia. Ela era só… Clara. E isso era tudo o que sempre quis. Ao fim da aula, Júlia puxou a amiga para perto. — Clara, vamos ao festival amanhã? Música ao vivo, comida boa… você nunca sai com a gente! — Eu não sei… — disse Clara, hesitante. — Ada não gosta quando eu chego tarde. — Ada? — Júlia riu. — Essa sua tia é mais rígida que um general! Clara riu junto, mesmo que fosse uma meia mentira. — Eu prometo tentar — disse ela. Júlia comemorou. — Ótimo! Estou sentindo que algo incrível vai acontecer com você este ano. Meu sexto sentido está afiado! Clara sorriu, achando graça. Se soubesse o tamanho da ironia… Enquanto caminhava por entre os corredores, ela sentiu algo que não sentia há muito tempo: paz. A vida acadêmica a fazia se sentir livre, capaz, viva. Mas a paz era frágil. Muito frágil. Quando chegou à mansão naquele fim de tarde, Adam estava na porta, sorrindo como sempre. — Como foi a aula, minha querida? — Boa. Tenho trabalho em grupo… e Júlia quer que eu vá num festival com ela — disse Clara, tirando os sapatos. Adam riu. — Você deveria ir. É jovem, Clara. Precisa viver um pouco. Clara suspirou, deixando a bolsa no sofá. — Adam… — Sim? — Por que meu marido nunca aparece? Ada respirou fundo. — Isso… não posso responder. — Mas você sabe por quê — insistiu Clara. A governanta hesitou. Depois, colocou uma mão no ombro dela. — Só posso te dizer uma coisa: nada do que está acontecendo é por acaso. E quando o momento certo chegar… você vai conhecer a verdade. A sombra de um mistério pairou no ar. Clara sentiu um arrepio. — Que verdade? Adam apenas sorriu. — A verdade que mudará sua vida para sempre. E Clara soube, naquele instante, que algo estava prestes a acontecer. Algo grande. Algo inevitável.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR