Os retratos dos Montebello sempre a observavam. Grandes quadros emoldurados em ouro, pendurados nos corredores longos da mansão. Clara andava devagar, o som ecoando no piso de mármore, até parar diante do maior deles.
Era ele.
Seu marido.
O homem que ela nunca conhecera pessoalmente.
O quadro mostrava um senhor elegante, de terno escuro, expressão rígida e olhos severos. Tinha sessenta e cinco anos quando se casou com ela – agora devia ter sessenta e oito. Clara engoliu em seco.
— Como alguém como eu poderia ser esposa dele? — sussurrou para si mesma.
Um arrepio gelado percorreu sua espinha só de imaginar a cena: dividir a cama com aquele homem, que poderia ser seu avô. Ainda bem que ele nunca aparecia. Ainda bem que nunca a tocava. Ainda bem que nunca dizia sequer um “olá”.
— Distância é a melhor coisa do mundo… — murmurou, abraçando os próprios braços.
Ela desviou o olhar do quadro, mas a sensação desconfortável permaneceu.
Desde que se mudara para a mansão Montebello, Helena, Tadeu e até Luísa desapareceram completamente de sua vida. Nem telefonema, nem recado. Nada.
Pedro também desapareceu.
O Pedro que ela amou tanto.
O Pedro por quem ainda doía lembrar.
Se ele realmente a amasse, teria ido atrás. Teria tentado falar com ela, procurado, lutado. Mas ele não fez nada.
O silêncio dele foi a resposta mais clara.
— Eu fui uma tola… — Clara murmurou, respirando fundo.
Ela se virou e caminhou até seu quarto. Era hora de se arrumar para a faculdade.
Clara usava roupas simples para ir à universidade. Vestia uma calça jeans, uma blusa leve e prendia os cabelos em um r**o de cavalo. Não queria chamar atenção, muito menos levantar suspeitas. A última coisa que desejava era que alguém descobrisse que ela era uma Montebello — ainda que apenas no papel.
Quando desceu, o motorista já a aguardava.
— Bom dia, senhora Clara — disse ele, abrindo a porta do carro.
— Por favor, deixe-me no quarteirão de sempre — pediu ela, entrando no banco traseiro. — Não preciso que ninguém me veja chegando de carro.
— Como desejar, senhora.
A palavra “senhora” sempre soava estranha para Clara. Ela não se sentia uma. Parecia mais uma impostora vivendo uma vida emprestada.
O carro percorreu o caminho até o perímetro do condomínio de luxo. O motorista estacionou discretamente no ponto combinado.
— Obrigada, Sérgio. Até mais tarde.
— Boa aula.
Clara saiu, ajeitando a mochila no ombro e caminhando pela calçada como qualquer estudante comum. Era libertador.
Quando entrou na sala de aula, encontrou Júlia praticamente pulando na cadeira. Lucas e Thaís também estavam agitados, cochichando como se tivessem visto um fantasma.
— O que é isso? — perguntou Clara, franzindo o cenho. — Por que estão tão animados?
— Clara! — Júlia agarrou o braço dela. — Você não vai acreditar! Temos professor novo hoje! Substituto de Comércio Exterior!
— Tá… e isso é motivo pra festa? — Clara riu. — Deve ser mais um daqueles velhotes que falam baixo e dormem no meio da aula.
Thaís abriu um sorriso tão largo que quase encostou nas orelhas.
— Ah, minha querida… esse aí não é velhote não.
— Ele é… — Lucas fez um gesto dramático com as mãos — um espetáculo.
— Gente, parem — riu Clara. — Nem deve ser tudo isso.
— Ah, é sim — Júlia respondeu, abanando-se como se estivesse calor. — E o melhor: ele tem sobrenome Montebello.
Clara congelou.
— Montebello?
— Sim! — Thaís confirmou. — Será parente daquele senhor hipermegarrico?
Clara sentiu as pernas tremerem.
O nome Montebello sempre a deixava tensa, mas agora… agora ganhava um novo peso.
E se fosse alguém próximo ao seu marido?
Alguém que soubesse quem ela era?
Alguém que pudesse revelar tudo?
— Deve ser só coincidência — murmurou Clara, tentando se convencer.
Mas seu coração acelerou de forma descontrolada.
A porta da sala se abriu.
E o silêncio caiu como um raio.
Clara ergueu os olhos.
E esqueceu como respirar.
O homem que entrou não tinha nada a ver com os Montebello que ela conhecia pelos retratos. Ele era jovem — não devia ter mais que trinta anos —, alto, de ombros largos e postura impecável. Os cabelos eram pretos, levemente bagunçados de propósito, e o rosto… bom, o rosto parecia esculpido à mão.
Um deus grego atravessando o corredor da sala.
Ele colocou alguns livros na mesa e olhou para os alunos com olhos fundos, escuros e intensos.
Clara perdeu o ar.
Literalmente.
A sala inteira ficou muda por alguns segundos, depois explodiu em cochichos, risadinhas nervosas e suspiros.
O homem ergueu uma sobrancelha, divertido.
— Bom dia — disse ele, com uma voz baixa e firme que percorreu a espinha de Clara como um toque. — Sou Victor Montebello. Vou substituir o professor Diniz por algumas semanas.
Júlia apertou o braço de Clara com tanta força que quase deixou marcas.
— MONTEBELLO! — sussurrou ela, eufórica. — Meu Deus, ele é um deus! E tem o mesmo sobrenome do velhote super-rico! Será que é herdeiro também?
Clara engoliu seco.
Se ele era parente… então sabia sobre o casamento arranjado?
Sobre o tio rico?
Sobre ela?
Um aluno levantou a mão imediatamente.
— Professor! O senhor é parente do famoso senhor Otávio Montebello?
Victor sorriu de canto.
— Sim. Ele é meu tio.
A sala explodiu.
— AAAAH!
— Meu Deus!
— Então você é rico também?!
— Casado?!
— Solteiro?!
— Você é o herdeiro?
Victor levantou a mão e o silêncio voltou quase instantaneamente.
— Por favor, vamos manter o respeito. — Sua expressão ficou séria. — Não estou aqui para falar sobre minha família. Estou aqui para dar aula.
Clara continuava olhando fixamente para ele.
Não conseguia desviar.
Algo nela reagiu à presença dele. Algo primitivo, quente, inesperado.
E, ao mesmo tempo, um medo profundo nascia em seu peito.
Se ele era sobrinho de seu marido…
Se ele descobrisse quem ela realmente era…
Sua vida normal acabaria.
Victor começou a escrever na lousa e, quando virou de perfil, Clara sentiu seu rosto corar.
Ele era a antítese completa do homem com quem ela era casada.
E havia mais — ela percebeu isso quando os olhos dele cruzaram com os dela no fundo da sala.
Foi rápido.
Mas intenso.
Como se ele tivesse parado por meio segundo.
Como se tivesse notado ela.
Clara sentiu a respiração falhar.
— Clara… — sussurrou Júlia — você tá vermelha! O que houve?
— N-nada — respondeu ela, desviando o olhar. — É só calor.
— Calor? Amiga, o ar-condicionado está no máximo — riu Thaís.
Clara não respondeu.
Não conseguia.
Victor Montebello era um perigo.
Um perigo real.
E ela sentia isso em cada parte do corpo.
A aula começou. Victor explicava comércio internacional com uma fluidez impressionante. Clara tentava se concentrar, mas sua mente estava em guerra.
— “Sobrinho do meu marido”, — repetiu mentalmente. — “Ele pode saber quem eu sou. Deve saber.”
Mas então outra voz sussurrou dentro dela:
— “E se não souber?”
— “E se eu puder continuar levando minha vida normal?”
— “E… e por que estou olhando tanto para ele?”
Clara balançou a cabeça, tentando espantar os pensamentos, mas era impossível ignorar o magnetismo dele.
Em certo momento, Victor fez uma pergunta:
— Alguém pode me explicar a diferença entre exportação direta e indireta?
A sala ficou em silêncio.
Ninguém ousou levantar a mão.
Victor suspirou.
— Certo… então vou escolher alguém aleatoriamente.
Ele olhou ao redor.
Passou por vários rostos.
Até parar em Clara.
— Você — disse ele.
Ela congelou.
— E-eu?
— Sim. — Ele inclinou a cabeça, os olhos fixos nos dela. — Qual o seu nome?
O coração dela deu um salto.
— C-Clara.
— Clara… o que acha? — perguntou ele, com um leve sorriso.
Ela respirou fundo.
E respondeu.
Com clareza, segurança e perfeição.
Victor sorriu.
— Excelente resposta.
Júlia deu um t**a na perna de Clara por baixo da mesa.
— GAROTA DO CÉU, VOCÊ ARRASOU!
Clara tentou sorrir, mas sua mente estava caótica.
Victor Montebello parecia tudo — menos o sobrinho de um homem de sessenta e oito anos.
E quando ele olhou para ela novamente antes de continuar a explicação…
Clara teve certeza de uma coisa:
A vida tranquila que ela construiu estava prestes a ruir por completo.