Capítulo 4 - Sobrinho do meu marido.

1617 Palavras
Clara saiu do prédio da faculdade ainda ouvindo os gritinhos das colegas ecoando pelos corredores. — Meu Deus, Clara! Você viu aquele homem? — disse Júlia, abanando-se com o caderno. — Eu me apaixonei três vezes só enquanto ele escrevia no quadro! — completou Marina, rindo. Clara sorriu de canto, mas seu estômago ainda estava frio depois do impacto que foi ver Victor Montebello. O nome a havia atingido como uma martelada. Montebello. Como se o universo estivesse rindo da cara dela. Ela estava pronta para acompanhar as amigas até o café quando o celular vibrou. Era Adam, a governanta. “Senhorita Clara, volte para casa mais cedo hoje, por favor. É importante.” Clara franziu o cenho. Adam nunca pedia nada desse tipo. — Meninas, vou ficar devendo hoje. Preciso voltar. — O quê? A gente vai comemorar o professor novo! — reclamou Marina. — Depois vocês me contam tudo, — disse Clara, acenando e já correndo para alcançar o ponto de táxi. O trajeto até a mansão Montebello foi silencioso. O motorista tentou puxar assunto, mas ela só conseguia pensar no nome do professor, no olhar dele — e no que aquilo poderia significar. Sobrinho do Sr. Otávio Montebello. Era tudo muito estranho. Quando o táxi parou diante dos portões altos do condomínio, os seguranças a cumprimentaram com a formalidade de sempre. — Boa noite, senhora Montebello. Aquilo ainda a fazia estremecer. Sim, era oficialmente “senhora Montebello”. Mesmo três anos depois, ela nunca tinha visto seu próprio marido. Não sabia sua voz. Não sabia seu cheiro. Não sabia nada. Era apenas... casada. Um contrato. Uma sombra. Empurrou a porta principal e, ao entrar, viu Adam esperando no hall, as mãos juntas na frente do avental impecável. — Adam? O que houve? — Clara se aproximou, preocupada. — Você mandou eu voltar cedo... aconteceu alguma coisa? A governanta parecia nervosa, o que era raro. — Não se assuste, querida... mas temos visita. Visita? Clara quase riu. Nunca, em três anos, a mansão tinha recebido visitas. Era como morar numa ilha isolada do mundo. Antes que pudesse perguntar mais, ela ouviu o som de alguém respirando no sofá da sala principal. Não. Não. Não… O coração dela começou a bater rápido. E se... e se fosse ele? O marido? O homem de 68 anos com quem ela era casada apenas no papel? Clara sentiu o sangue gelar. As mãos tremiam. Cada passo ecoava no piso de mármore como se fosse um golpe de martelo. Quando a figura no sofá começou a se levantar, ela quase desmaiou de puro pavor. A pessoa ergueu o rosto. E Clara ficou completamente imóvel. Não era um idoso. Era… ele. Victor Montebello. O professor novo. O homem que tinha deixado a sala inteira sem ar naquele manhã. Ele estava ali, na sala da mansão, como se pertencesse ao ambiente — o que, de certa forma, pertencia. Clara arregalou os olhos, apontando um dedo trêmulo para ele. — V-você?! Adam puxou gentilmente o braço dela, como se pedisse calma. — Senhorita Clara, deixe-me explicar... este é— — Clara. — Victor a interrompeu com a voz grave e autoritária. — Sou Victor Montebello, sobrinho do Sr. Otávio Montebello. Vou passar um tempo aqui. Clara engoliu seco. O ar pareceu sumir da sala. Era como se dois mundos completamente separados a vida secreta dela e a vida acadêmica tivessem colidido sem aviso. — V-você... — tentou falar, mas nada fazia sentido. Victor analisou cada milímetro do rosto dela, como se estivesse juntando peças. Adam pigarreou. — Vou verificar o jantar. Licença. Clara ficou sozinha com ele. Victor caminhou até o bar de cristal e serviu-se de um whisky, movendo-se com naturalidade, como se estivesse em sua própria casa. Talvez estivesse mesmo. — Então… — ele girou o copo nas mãos e lançou um olhar penetrante para ela. — Você não é a filha adotiva dos Albuquerque? Clara congelou. As palavras dela ficaram presas na garganta como cacos de vidro. — C-como... — ela respirou fundo — como você sabe disso? Victor apoiou um ombro na bancada, estudando-a cuidadosamente. — Eu conheço essa cidade, Clara. — Ele deu um gole no whisky. — E conheço muito bem a reputação dos Albuquerque. Clara sentiu o corpo inteiro estremecer. — Não é algo que eu costumo comentar — ela disse em voz baixa, quase defensiva. — Percebi — Victor respondeu com um meio sorriso irônico. — Na faculdade você finge que não conhece o nome Montebello. Achei curioso. Agora entendo. Clara cruzou os braços, tentando esconder o fato de que suas mãos tremiam. — Eu não quero que ninguém saiba — disse firme. — A minha vida é... minha. Não quero me aproveitar do nome Montebello, nem da riqueza. Eu só quero estudar. Victor arqueou uma sobrancelha. — Ah, isso eu acredito. O tom dele fez Clara franzir o cenho. — O que isso significa? Ele se aproximou um passo. Clara sentiu o estômago revirar. — Significa que você não parece o tipo de pessoa que corre atrás de status ou poder. — Ele observou a mansão ao redor. — Estranho, considerando onde você mora. Clara apertou os lábios, irritada. — Eu não tive escolha. Victor soltou uma risada curta. — Ninguém nunca tem. Um silêncio pesado caiu entre os dois. Victor a observava com uma intensidade que quase a deixava desconfortável — ou algo parecido com isso. Clara respirou fundo e estendeu a mão por educação. — Sou Clara — disse, tentando manter o controle. Victor segurou a mão dela. E assim que seus dedos se tocaram, algo percorreu o corpo dela — como se tivesse levado um choque. Clara ofegou discretamente, surpresa com o arrepio repentino que subiu pela espinha. Victor percebeu. O sorriso dele foi quase imperceptível, mas estava lá. — Prazer, Clara — respondeu ele, ainda segurando a mão dela um segundo a mais do que o necessário. Clara puxou a mão de volta rapidamente. — E desde quando você sabia que eu morava aqui? — perguntou, tentando recuperar o controle do próprio corpo. Victor girou o copo nas mãos. — Desde hoje cedo, na faculdade. — Ele deu de ombros. — Quando ouvi seu nome, achei familiar. Só confirmei quando Adam me contou que você estava chegando. Clara sentiu uma pontada no peito. Era como se partes de sua privacidade estivessem sendo arrancadas. — Eu preferia que ninguém soubesse — murmurou. — Seu segredo está seguro comigo — ele disse. — Não tenho interesse em expor você. Clara soltou o ar que nem sabia que prendia. Adam reapareceu na porta, um sorriso tenso no rosto. — O jantar está servido. Victor pousou o copo e caminhou até a sala de jantar. Clara o acompanhou, sentindo o coração bater forte demais. Durante o jantar, Victor a observava de tempos em tempos, como se tentasse decifrar cada detalhe. — Você parece desconfortável — ele comentou finalmente. — Não estou acostumada com… visitas — Clara respondeu. — Me desculpe pelo incômodo. — Não é isso. Victor ergueu uma sobrancelha. — Então o que é? Clara hesitou. Mas talvez fosse hora de dizer algo. — Eu... não sei o que você sabe sobre mim. Ou sobre meu casamento. — Ela apertou os dedos. — Mas eu não tenho nenhum contato com o Sr. Otávio. Nunca tive. Nunca o vi. Nunca conversamos. Victor ficou sério pela primeira vez desde que ela chegara. — Eu sei. Clara o encarou, surpresa. — Sabe? — Sei mais do que gostaria, na verdade. Clara sentiu um frio na barriga. — O que isso significa? Victor pousou o garfo com calma e recostou-se na cadeira. — Significa que meu tio não é um homem simples. — Ele inspirou lentamente. — E que eu não sei por que ele quis esse casamento. Mas sei que não teve nada a ver com você. Clara desviou o olhar. — Minha vida foi decidida por outras pessoas desde que eu era criança. Não é novidade. Victor ficou em silêncio por alguns segundos, analisando a expressão dela como se tentasse medir o peso das palavras. — Eles foram cruéis com você, não foram? — perguntou. Clara engoliu em seco. — Foram. Victor fechou a expressão, como se guardasse algo — uma opinião, um julgamento, talvez até um misto de raiva e pena. — Você merece coisa melhor — ele disse. Clara riu, mas sem humor. — Eu só quero paz. Victor observou-a mais um pouco, e então disse: — Vou ficar aqui alguns meses. Precisamos nos acostumar um com o outro. Clara arregalou os olhos. — M-meses? — É temporário. — Ele bebeu mais um gole de whisky. — Meu tio pediu. E quando meu tio pede, eu não discuto. Clara respirou fundo. A cabeça girava. Victor Montebello. Na mesma casa. No mesmo teto. Dormindo sabe-se lá em qual quarto. Ela passou a mão no rosto. — Ótimo — murmurou. Victor sorriu, inclinando a cabeça. — Clara... — disse ele, com um tom mais suave. — Eu não sou um inimigo. Ela o encarou, incerta. — Ainda assim, você complica minha vida. O sorriso dele cresceu um pouco. — Acho que você complica a minha também. Clara corou contra a própria vontade. Victor levantou-se, afastando a cadeira. — Descanse. Amanhã teremos aula. E, por favor... — ele virou-se para ela antes de sair — não deixe ninguém descobrir quem você realmente é. Clara sentiu o coração apertar. — Não vou. Victor desapareceu pelo corredor, deixando para trás o perfume amadeirado e um silêncio carregado demais. Clara ficou ali, sozinha à mesa, tentando entender como sua vida tinha mudado em um único dia. E por que, justamente agora, ela sentia algo que nunca deveria sentir.
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