Thomas “Gringo”
O morro tem um som próprio quando o coração da gente tá pesado. Parece que até o vento muda de direção. Eu desci da laje depois daquela conversa com a Lorena e fiquei tentando me convencer de que tava tudo bem, que era só coisa da minha cabeça. Mas o instinto… o instinto nunca erra. E o meu gritava que alguma parada ali não tava certa.
Acendi um cigarro, mesmo sem vontade, e fiquei olhando a fumaça subir. O barulho dos meninos jogando bola lá embaixo me lembrava que, apesar de tudo, eu era o responsável por cada um deles.
Pela paz, pela ordem, por manter o morro protegido. E ela… ela tinha virado um ponto fora da linha, uma sombra que eu não sabia se era abrigo ou armadilha.
Peguei o rádio.
— Fechamento, cola aqui em casa, parceiro. — disse, a voz firme.
Ele não demorou nem dez minutos. Chegou com o boné virado pra trás e aquele olhar de quem entende antes de ouvir.
— Qual foi, paizão? — perguntou, sentando no sofá.
— Quero que tu veja uma parada pra mim.
— A moradora nova?
Assenti, tragando devagar.
— Mas discreto, tá ligado? Nada de meter o pé. Só observa, sem falar com ninguém. Vê quem são os contatos dela, quem brota perto, quem pergunta demais.
Ele me olhou sério.
— Tá achando que tem caô, chefão?
— Tô achando que o morro tá diferente. E quando o morro fica diferente, é porque alguém tá jogando informação pros dois lados. — Falei, baixo.
Fechamento balançou a cabeça.
— Deixa comigo, paizão. Eu vou olhar com calma. Mas cê tá bolado mesmo. É ciúme, né?
Revirei os olhos.
— Ciúme é quando tu tem certeza que é teu. Eu nem sei o que a Lorena é, mano.
— Então descobre. Antes que o morro descubra por você. — ele respondeu, levantando.
Assenti.
— Papo reto, valeu. Mas cuidado.
Quando ele saiu, fiquei ali sozinho, ouvindo o rádio da cozinha. Dona Nanda cantarolava baixinho lá fora. Eu me servi de café frio e sentei de novo. A cabeça voltava pra ela, sempre.
Aquela mulher me tirava do eixo. Quando ela falava firme, eu via coragem. Quando ela se calava, eu sentia medo. E, de alguma forma, os dois me prendiam.
Mais tarde, desci pro beco pra dar uma olhada geral. O céu já começava a escurecer, o som do funk subindo de algum canto. Foi aí que vi o Juca, um dos meus soldados antigos, conversando com dois caras que eu nunca vi na vida. O jeito de andar, a roupa, a postura… não eram daqui. Eram do morro rival, sem erro.
Fiquei quieto, só observando de longe. O moleque riu, deu um toque de mão nos dois e olhou pros lados, achando que ninguém viu. Mas eu vi.
— Vacilão do caralhø… — murmurei. Esperei mais uns segundos e chamei: — Fala aê, Juca! Brota aqui, irmão!
Ele travou, mas veio.
— Fala, chefão.
— Onde tu tava agora?
— No perímetro, verificando o movimento. Tudo tranquilo.
— Tranquilo? — repeti, cruzando os braços. — E os dois maluco que tavam contigo são o quê? Turista?
Ele gaguejou.
— São amigo antigo, chefão. Tava só trocando ideia.
— Amigo antigo do morro rival? — perguntei, seco. — Tu acha que eu nasci ontem?
Ele tentou rir, mas a voz falhou.
— Papo reto, não tem nada disso.
Dei um passo pra frente e parei bem perto.
— Vou mandar o papo, irmão. Se eu descobrir que tu tá jogando pros dois lados, vai virar saudade. Aqui, traidor não tem velório, entendeu?
— Tá tranquilo, chefão. Eu sou fiel.
Olhei nos olhos dele. O olhar não mente. Tava tremendo.
— Vaza daqui. E não dá mais mole.
Ele saiu rápido. Eu fiquei ali, o sangue fervendo. Traição era a única parada que eu não perdoava. Já vi muito homem bom cair por causa de língua solta. E agora, com ela no morro, o risco dobrava.
Voltei pra casa e me joguei na poltrona. O rádio ainda chiava, a voz do Fechamento no outro lado:
— “Chefão, tô observando ela. Tá tranquila, só foi até o alto da laje.”
— Beleza. Fica de olho, mas sem encostar.
— “Já é.”
Desliguei. Peguei um gole de uísque. O gosto queimou a garganta, mas acalmou o peito. Subi pra varanda. Dava pra ver a casa dela daqui. A luz ainda tava acesa, cortina fechada.
Falei sozinho, voz rouca:
— Mi stai cambiando, bella… e non so se è bene o male. (Você tá me mudando, linda… e eu não sei se isso é bom ou ruim.)
A fumaça do cigarro subiu junto com a raiva e o medo. Eu já não sabia se queria protegê-la ou descobrir o que ela escondia. Talvez as duas coisas.
Fechamento mandou outro áudio:
— “Chefão, o Juca saiu do morro, desceu pra orla.”
— Sozinho?
— “Aparentemente, sim.”
— Segue. Mas não encosta. Quero saber pra onde vai.
— “Fechou.”
Fiquei olhando o céu do Rio, aquele azul escuro misturado com poluição. E no meio de tudo isso, percebi uma verdade simples, eu tava perdendo o controle. Sobre o morro, sobre os meus homens, sobre mim mesmo.
O telefone vibrou. Mensagem do Gabizin:
— “Chefão, o Juca tá andando com o pessoal do morro vizinho. Vi ele com o ‘Tatu’, aquele vacilão que já tentou tomar nossa boca.”
Travei o maxilar.
— Vacilão do caralhø. — sussurrei. Peguei o rádio de novo. — Fechamento, olho no Juca. Não perde de vista.
— “Copiado, irmão.”
Fechei os olhos. Quando abri, a luz da casa dela ainda brilhava no alto.
— “Cuidado, Lorena. E, dessa vez, quem perder… cai de verdade.”
Dei o último trago no cigarro e deixei queimar até o filtro. O gosto amargo era o mesmo que o do medo, o de quem ama alguém que pode ser inimigo.