Lorena
Acordei com a sensação de areia nos olhos e um peso no peito que não passava nem com água gelada. A tempestade tinha ido embora, mas a ressaca dela ficou dentro de mim.
Eu sabia por quê. A frase veio sozinha, como se alguém tivesse escrito no vapor do espelho… você dormiu de novo com o homem que jurou matar.
Encostei as mãos na pia e encarei meu próprio reflexo. Não tinha resposta no rosto. Tinha cansaço, tinha desejo, tinha raiva embrulhada no peito. Respirei fundo e fiz o que dá pra fazer quando a mente está um caos: rotina.
Esfreguei o chão até a água ficar quase clara. Pendurei a toalha no varal e fiquei olhando o morro acordar. Criança correndo, rádio de pilha em algum lugar, a voz da Dona Lourdes chamando alguém para pegar pão. Tudo igual.
Só eu que não estava igual. O colar com o pingente de falcão pesava no pescoço. Toquei o metal com o polegar. Era cuidado ou coleira? Talvez as duas coisas. Eu precisava sair dali por algumas horas, respirar outro ar.
Desci no mototáxi do seu Zeca. Ele nem perguntou nada, só fez o sinal com a cabeça e eu subi. O vento na cara ajudou a organizar o pensamento. No Aterro do Flamengo, o mar sempre cura um pouco.
Pedi para ele me deixar perto do bar onde meu pai passava as folgas. Entrei e o tempo voltou, mesas de ferro, balcão arranhado, cheiro de café. Sentei no banco de canto, onde meu pai preferia sentar porque dava para ver porta e rua ao mesmo tempo.
— Vai o de sempre? — o garçom perguntou, sem lembrar que meu “sempre” acabou no dia do enterro.
— Só um café, por favor. Preto. — falei, e a voz saiu mais baixa do que eu queria.
O celular vibrou. Camila:
— “Achei algo. Nome: Sargento Vilela. O cara apagou arquivos da ocorrência do teu pai.”
Li três vezes. Apagar arquivo não é erro bobo, é decisão. Se foi de dentro, alguém com crachá escolheu varrer meu pai pro tapete. Fiquei imóvel, o copo fumegando e a mão gelada. Mandei um áudio curtinho:
— Cami, confirma. Data, horário, matrícula, o que tiver. Se isso for verdade, muda tudo.
Ela respondeu:
— “Já puxando logs. Cheiro de coisa grande. Te aviso assim que consolidar.” — Eu disse:
— Tá — mas o “tá” não segurou nada.
Fechei os olhos e ouvi a voz do meu pai:
— “Se liga, filha. O mundo nem sempre joga limpo.”
— Eu sei, pai. Agora eu sei de um jeito que machuca.
Voltei para o morro no fim da tarde. No caminho, a cidade me pareceu mais dura. Na subida, senti os olhares me seguindo. Não era novidade repararem em quem chega, mas aquele olhar tinha outra coisa, curiosidade com julgamento. Fiz o de sempre, cumprimentei quem olhou nos meus olhos e ignorei quem preferiu cochichar.
Na venda, Dona Loura me chamou:
— Ô, menina, leva esse troco lá na casa da Dalva pra mim?
— Levo, sim. — peguei o envelope e fui.
Caminho curto, suficiente para sentir que eu era seguida. Não era medo, era constatação. Não virei de uma vez. Fingi que esqueci algo, parei, amarrei o cadarço. De canto de olho, vi o Juca encostado na parede, mexendo no celular sem mexer, corpo virado pra mim.
Na volta, passei por ele com um sorriso neutro.
— E ai, Juca, tudo certo?
— Tudo, morena. — respondeu com um tom que não gruda em lugar nenhum.
Guardei a informação no bolso. Mais tarde eu veria o que fazer com isso.
Em casa, lavei o rosto, prendi o cabelo e abri o caderno. Escrevi “Vilela” no topo da página. Embaixo, três colunas: data, ligação, motivo. A estrutura me dava a ilusão de controle. Liguei para Ana, minha âncora.
— “Fala comigo, Lô.” — ela atendeu.
— Temos um nome. Sargento Vilela. Apagou arquivos da ocorrência do meu pai.
— “Caraca.” — ela ficou um segundo muda. — “Quer que eu vá aí?”
— Não. Só precisava dizer em voz alta. Se eu ficar sozinha com isso, eu explodo.
— “Tô contigo. Se for alguém grande, cê não vai sozinha.”
— Eu sei. — menti. — Depois te ligo.
Mandei outra mensagem para Camila:
— “Vê se esse Vilela tinha dívida, processo interno, contato com milícia. Quero rastro.”
Ela respondeu com um emoji de lupa e um coração. Sorri, de nervoso e gratidão.
À noite, subi a laje. O vento trouxe o cheiro do mar e um som de música longe. Sentei no chão, pernas cruzadas, nuca no muro frio. O pingente encostava no osso do peito como se quisesse falar. Eu estava cansada de metade… metade verdade, metade mentira, metade ódio, metade desejo.
Ouvi passos e soube que era ele. A presença dele tem um peso específico, dá pra sentir antes de ver.
— Qual foi? — perguntei. — Você tá estranho hoje.
— Só pensando. — ele encostou ao meu lado, sem tocar, e deixou o silêncio esticar.
— Em quê?
— Em você. — respondeu, olhando a cidade. — E no que pode estar escondendo de mim.
Eu ri, sem humor.
— Engraçado você falar de esconder.
— Eu não te escondo, morena. — a voz veio baixa, firme. — Eu te protejo.
— Às vezes, proteger é só um nome bonito pra controlar. — retruquei.
Ele virou o rosto para mim.
— Então manda o papo. Cê tá escondendo o quê?
— E se eu não disser? — soltei, mais desafiadora do que planejei.
Ele apertou o maxilar. Nada de “bella”, nada de frase bonita. Só concreto:
— Aí eu decido se te protejo… ou te perco.
As palavras ficaram penduradas. Eu podia ter dito “não tem nada”, podia ter calado com um beijo. Não fiz. Levantei devagar.
— Boa noite, Gringo.
— Boa noite, Lorena. — ele respondeu, e desceu.
Fiquei lá em cima, ouvindo a cidade, pedindo pro vento levar um pouco do que eu não sabia onde guardar. Fui dar uma volta quando voltei, passei de novo pelo Juca. Ele fingiu que não me viu. Fechei a porta e contei até dez.
No banho, pensei no Vilela. Pensei no arquivo apagado. Pensei na última mensagem do meu pai: “chego tarde, filha, não me espera”. Eu tinha esperado. Agora eu esperava outra coisa, que o fio puxado pela Camila me levasse a um rosto, a uma assinatura.
Deitei sem sono. A casa escura parecia maior. Abri o caderno outra vez e escrevi perguntas. Quem lucra com a morte dele? Quem queria jogar a culpa no morro? Quem deu a ordem? Em algum momento, cochilei de caneta na mão.
Acordei com uma notificação. Camila:
— “Registro de acesso ao sistema da PM no dia X às 02h17. Usuário: SGT VILELA. Operação: exclusão de anexo de laudo balístico. Tô tentando recuperar via backup. Não prometo, mas tô na caça.”
Sentei na cama com o coração disparado. O laudo balístico. Se esse documento sumiu, é porque dizia de onde veio o tiro.
Respondi “vai” e coloquei os pés no chão com a decisão até o calcanhar. A partir de agora, eu ia andar como quem procura. Falar menos, ouvir mais. E manter distância do homem que me confundia o corpo e a cabeça. Não por falta de vontade, mas porque eu precisava terminar o que comecei.
Abri a janela. O morro já acordava de novo. Lá embaixo, ouvi:
— “Dizem que o chefão e a novata brigaram”.
Sorri de canto. As pessoas sempre sabem a metade certa pelo motivo errado. Vesti uma camiseta, prendi o colar por dentro da roupa e fui pra rua. Hoje eu não ia ser assunto. Hoje eu ia ser ouvido.
Passei pela venda, deixei um “bom dia” e segui para a capelinha do alto. Acendi uma vela pro meu pai e pedi duas coisas: coragem e cabeça fria. Na saída, Dona Lourdes me deu um pão com manteiga embrulhado no guardanapo.
— Come, menina. Quem tem vida corrida também sente fome. — ela disse.
— Obrigada. — respondi, e guardei o pão.
Desci devagar. No meio do caminho, topei com o Gringo subindo com dois caras. Ele só me olhou. Eu só olhei de volta. O resto ficou para depois.
Quando cheguei em casa, o sol já estava alto. Sentei na cadeira, deixei o caderno aberto e o celular ao lado. Escrevi no topo: O Jogo Começou.
E, pela primeira vez desde a noite do temporal, senti que a frase não era sobre nós dois. Era sobre mim contra quem apagou meu pai do papel, achando que isso apagava da memória de quem ama. Não apaga. Nunca apaga. E eu vou provar.
Antes de fechar o caderno, tracei o próximo passo, falar com o dono do bar do Aterro, pedir acesso a câmera, puxar notas fiscais das noites de folga do meu pai. Se não houvesse gravação, haveria memória. Gente lembra de quem paga a conta olhando no olho. E eu lembraria Juca, colado na minha sombra.