Capítulo 7 - Sombra e Mentiras

1652 Palavras
Lorena Eu desci pro bar do morro como quem não quer nada, só uma cerveja pra anotar na caderneta e descer o coração. O final do dia tava abafado, e o cheiro de fritura grudava na roupa de todo mundo. Pedi pro garoto do balcão: — Desce uma gelada, por favor. Depois eu acerto. Sentei numa mesa do canto, perto da jukebox quebrada. O rádio tocava um pagode baixo, e a televisão no mudo passava reprise de jogo. Fiquei ali com a garrafa suando, olhando sem olhar, ouvindo o que o bar sempre entrega pra quem sabe esperar. Dois homens chegaram e sentaram na mesa ao lado. Reconheci um de vista, trabalhador do depósito, o outro, um sujeito que fala pouco e bebe devagar. Eles se inclinaram, voz quase sussurro. — Tu lembra do PM que tomou um tiro estranho? — disse o do depósito. — Lembro. Dizem que não foi daqui. — O ângulo não bateu. — Ele fez um gesto com a mão, como quem mira. — Teve ordem, irmão. — De onde? — De dentro. — Da facção? — Não. Da polícia. A garrafa tremeu na minha mão. Continuei fingindo desinteresse. O segundo cara coçou a barba. — Ouvi que um policial devia grana pra miliciano antigo. Sumiu logo depois. — Sumiu nada. — O do depósito riu sem humor. — Sumiram com ele. — E jogaram a culpa no morro. — Como sempre. Meu estômago virou. A conversa virou linha viva com a pista que eu tinha antes, o tiro de fora do beco principal, a coordenada que não batia. Não era só guerra de território, tinha alguém fardado dando ordem e alguém de fora puxando o gatilho. Meu pai tinha virado recado. Eu ia levantar quando o bar mudou de temperatura. A porta abriu, e o Gringo entrou com dois dos seus. Moletom escuro, olhar varrendo o lugar. Ele viu o copo na minha mesa, viu meus olhos, e a tensão veio com ele. — Manda o papo, morena, o que tu tá fazendo aqui sozinha? — falou sem rodeio, parando do meu lado. — Só desci pra tomar uma. — mantive a voz estável. — Cerveja? Aqui embaixo o ar é pesado. — Ele olhou ao redor, atento, como se o bar fosse uma armadilha. — Eu sei me virar. — respondi, seca. Ele segurou meu braço, firme, sem machucar. — Eu tô te perguntando direito. — Tá parecendo interrogatório, chefão. Ele respirou, como quem segura um palavrão. — É ciúme, bella. — a voz saiu rouca, um pedaço de italianada escorregando. — “Mi fai impazzire.” (Você me deixa louco.) O pagode ficou mais alto, ou foi meu sangue batendo. Dei um passo pra trás. — Solta. Tem gente olhando. Ele soltou, mas ficou perto demais. — A mesa do lado tá ouvindo tua respiração. Vamo sair daqui. — Eu saio quando eu quiser. — retruquei. Ele inclinou a cabeça, um quase sorriso que não chegou no olho. — Então me dá dois minutos. Ali fora. Fui. O bar inteiro quis assistir, mas quem manda no próprio corpo escolhe plateia. Fui até o corredor estreito atrás do bar, cheirando a caixa de cerveja, óleo velho. Ele veio logo atrás. Ficamos frente a frente. — O que tu ouviu? — ele perguntou, sem floreio. — Conversa de homem que gosta de falar baixo. — respondi. — Nome? — Não sou tua informante. — Cruzei os braços. — E nem preciso que seja. — Ele deu um passo, eu dei outro atrás. — Mas cê não vai sentar sozinha nesse bar, morena. Não hoje. — Quem decide isso sou eu. Ele parou, ergueu as mãos, paz improvisada. — Se tu disser “para”, eu paro. — falou, firme. — Eu não quero te cercar. Mas eu tô aqui porque me importo, e isso me deixa burro. — Burro, não. — falei, baixo. — Só humano. Ele me olhou de um jeito que tirou o ar. — “Non guardarmi così… mi fai perdere il controllo.” (Não me olha assim… você me faz perder o controle.) — E tu sempre fala bonito quando quer vencer a discussão? — ironizei. — Eu não quero vencer. Eu quero te levar pra casa em segurança. — Eu não sou pacote. Tá escrito “frágil” na minha testa? — Eu sei. — Ele chegou mais perto, e o corredor ficou pequeno. — Só me diz pra ir embora. Eu encarei. Respirei. O barulho do bar virou espuma. Em vez de afastá-lo, puxei sua camisa e o trouxe pra perto. O beijo estourou entre a raiva e a necessidade. Ele encostou minhas costas na parede, mas as mãos dele eram cuidado, lugares certos, tempo certo. O corpo dele era quente, e as palavras vieram, baixas: — “Bella, non scappare… fammi sentire il tuo cuore.” (Linda, não foge… me deixa sentir teu coração.) — Não manda. — sussurrei, mordendo o lábio. — Vem. O corredor não era lugar. A urgência grudou na pele. Ele entrelaçou seus dedos nos meus, pediu espaço com a boca, e eu dei. A respiração atravessou o peito, e a gente andou, tropeçando em caixas, até a porta lateral. — Tua casa. — ele falou. — Agora. A subida foi numa urgência cheia de pressa. No caminho, ele olhava pros lados, eu olhava pra ele. O morro passava, a gente corria por dentro dele. Entramos. Fechei a porta, e a casa reconheceu a gente. Ele me encostou na porta, e eu puxei seu moletom. O cheiro dele era luxúria de ontem e noite de hoje. Ele beijou meu pescoço devagar, como se me pedisse perdão por cada marca. — “Dimmi se posso… dimmi fin dove.” (Diz se eu posso… diz até onde.) — Até eu esquecer tudo. — falei, arfando. As mãos dele acharam minha cintura, subiram, desceram, marcaram um caminho que meu corpo entendeu na primeira vez e aceitou na segunda. Ele era firme, mas confirmava cada passo com o olhar. Eu respondi com ironia e desejo: — Tá esperando convite escrito? — Eu já tô dentro do convite. — ele sorriu, raro. No sofá pequeno, o mundo coube. A pele encontrou pele. Meu nome soou na voz dele como música. Eu prendi sua nuca como se curasse alguma coisa que ninguém via. O ritmo veio forte, depois lento, depois forte de novo. Ele beijou meu corpo todo até parar entre minhas pernas. Quando mergulhou ali soltei um palavrão: — Caralhø, Gringo! Ele sorriu sem tirar a boca do meu sexø. As lambidas me tørturavam, até que ele começou a sugar e logo um orgasmø intenso tomou conta de mim. Ele continuou lambendo até meu sexø parar de pulsar. Gringo engatinhou por cima de mim com um olhar predador e sëxy. Ele me penetrøu sem aviso e foi fundo, soltei outro palavrão: — Pørra… püta que pariü. Faz de novo. — Gostosa pra caralhø… me deixa louco desse jeito. As estocadas vinham com força. Ele me fez virar e ficar de quatro e entrou sem aviso novamente, ele me fez gøzar com uma botada. Senti suas mãos apertarem minha cintura, depois um tapa estalar na minha bundä me fazendo gemer alto. O ciúme virou gasolina, o cuidado, fogo. E a mistura acendeu sem queimar a gente. Era possessivo, sim, mas nunca sem me ouvir. Eu disse “assim”, ele entendeu. Disse “agora”; ele veio. — “Sei mia… ma ti tengo come se fossi fragile.” (Você é minha… mas eu te seguro como se fosse frágil.) — Eu não sou frágil. — respondi, apertando seus ombros, firme. — Eu sei. Por isso eu te quero. A chuva fina voltou lá fora, a janela riscou de frio. Dentro, o calor foi outro. Quando acabamos, fiquei com a testa colada na dele, o coração em trote. O silêncio veio pesado, mas bom. Ele passou o polegar no meu queixo, e eu perguntei, num sopro: — Quem te feriu antes de mim? Ele demorou. Os olhos perderam foco por um segundo, como quem visita um lugar que não gosta. — Todo mundo. — respondi. — Todo mundo, não. — corrigi. — Eu não. Ele sorriu de lado, cansado. — “Adesso, nessuno più.” (Agora, ninguém mais.) A frase ficou flutuando entre nós. Eu virei o rosto pro teto, tentando guardar o que tinha ouvido no bar e o que tinha acontecido no corredor. A história do meu pai tinha ganhado outro contorno, alguém fardado dando ordem, alguém de fora puxando o gatilho, e um morro levando a culpa. Eu precisava de nomes, data, assinatura. E precisava fazer isso sem me perder. Ele percebeu minha cabeça longe. — Cê tá distante. — Tô pensando. — respondi. — Se arrependeu? — Não. — Fitei os olhos dele. — Só tô tentando sobreviver a tudo. Ele assentiu, sério. Beijou minha testa, nada além. — Eu fico até tu dormir. — Não precisa. — Preciso. — Ele sorriu, fraco. — É o único jeito de eu dormir também. Deitei encostada no peito dele, ouvindo o compasso. O rádio dele chiou no bolso, mas ninguém chamou. O morro tava quieto por um milagre curto. Fechei os olhos, e pensei no recado que a cidade me deu naquela noite, a sombra nem sempre é de quem parece. Antes do sono, deixei cair a pergunta que eu não devia: — E se um dia eu sumir? Ele apertou de leve minha mão. — Eu te acho. E se eu não te achar, eu te espero. — E se eu não voltar? — “Allora vengo io.” (Então eu vou até você.) Não respondi. Dormi com essa promessa doída. E com a certeza incômoda de que a minha guerra tinha mudado de forma, e de que o dono do morro já morava na parte da minha vida que ninguém devia. E eu sabia.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR