Lorena
Eu desci pro bar do morro como quem não quer nada, só uma cerveja pra anotar na caderneta e descer o coração. O final do dia tava abafado, e o cheiro de fritura grudava na roupa de todo mundo. Pedi pro garoto do balcão:
— Desce uma gelada, por favor. Depois eu acerto.
Sentei numa mesa do canto, perto da jukebox quebrada. O rádio tocava um pagode baixo, e a televisão no mudo passava reprise de jogo. Fiquei ali com a garrafa suando, olhando sem olhar, ouvindo o que o bar sempre entrega pra quem sabe esperar.
Dois homens chegaram e sentaram na mesa ao lado. Reconheci um de vista, trabalhador do depósito, o outro, um sujeito que fala pouco e bebe devagar. Eles se inclinaram, voz quase sussurro.
— Tu lembra do PM que tomou um tiro estranho? — disse o do depósito.
— Lembro. Dizem que não foi daqui.
— O ângulo não bateu. — Ele fez um gesto com a mão, como quem mira. — Teve ordem, irmão.
— De onde?
— De dentro.
— Da facção?
— Não. Da polícia.
A garrafa tremeu na minha mão. Continuei fingindo desinteresse. O segundo cara coçou a barba.
— Ouvi que um policial devia grana pra miliciano antigo. Sumiu logo depois.
— Sumiu nada. — O do depósito riu sem humor. — Sumiram com ele.
— E jogaram a culpa no morro.
— Como sempre.
Meu estômago virou. A conversa virou linha viva com a pista que eu tinha antes, o tiro de fora do beco principal, a coordenada que não batia. Não era só guerra de território, tinha alguém fardado dando ordem e alguém de fora puxando o gatilho. Meu pai tinha virado recado.
Eu ia levantar quando o bar mudou de temperatura. A porta abriu, e o Gringo entrou com dois dos seus. Moletom escuro, olhar varrendo o lugar. Ele viu o copo na minha mesa, viu meus olhos, e a tensão veio com ele.
— Manda o papo, morena, o que tu tá fazendo aqui sozinha? — falou sem rodeio, parando do meu lado.
— Só desci pra tomar uma. — mantive a voz estável.
— Cerveja? Aqui embaixo o ar é pesado. — Ele olhou ao redor, atento, como se o bar fosse uma armadilha.
— Eu sei me virar. — respondi, seca.
Ele segurou meu braço, firme, sem machucar.
— Eu tô te perguntando direito.
— Tá parecendo interrogatório, chefão.
Ele respirou, como quem segura um palavrão.
— É ciúme, bella. — a voz saiu rouca, um pedaço de italianada escorregando. — “Mi fai impazzire.” (Você me deixa louco.)
O pagode ficou mais alto, ou foi meu sangue batendo. Dei um passo pra trás.
— Solta. Tem gente olhando.
Ele soltou, mas ficou perto demais.
— A mesa do lado tá ouvindo tua respiração. Vamo sair daqui.
— Eu saio quando eu quiser. — retruquei.
Ele inclinou a cabeça, um quase sorriso que não chegou no olho.
— Então me dá dois minutos. Ali fora.
Fui. O bar inteiro quis assistir, mas quem manda no próprio corpo escolhe plateia. Fui até o corredor estreito atrás do bar, cheirando a caixa de cerveja, óleo velho. Ele veio logo atrás. Ficamos frente a frente.
— O que tu ouviu? — ele perguntou, sem floreio.
— Conversa de homem que gosta de falar baixo. — respondi.
— Nome?
— Não sou tua informante. — Cruzei os braços.
— E nem preciso que seja. — Ele deu um passo, eu dei outro atrás. — Mas cê não vai sentar sozinha nesse bar, morena. Não hoje.
— Quem decide isso sou eu.
Ele parou, ergueu as mãos, paz improvisada.
— Se tu disser “para”, eu paro. — falou, firme. — Eu não quero te cercar. Mas eu tô aqui porque me importo, e isso me deixa burro.
— Burro, não. — falei, baixo. — Só humano.
Ele me olhou de um jeito que tirou o ar.
— “Non guardarmi così… mi fai perdere il controllo.” (Não me olha assim… você me faz perder o controle.)
— E tu sempre fala bonito quando quer vencer a discussão? — ironizei.
— Eu não quero vencer. Eu quero te levar pra casa em segurança.
— Eu não sou pacote. Tá escrito “frágil” na minha testa?
— Eu sei. — Ele chegou mais perto, e o corredor ficou pequeno. — Só me diz pra ir embora.
Eu encarei. Respirei. O barulho do bar virou espuma. Em vez de afastá-lo, puxei sua camisa e o trouxe pra perto.
O beijo estourou entre a raiva e a necessidade. Ele encostou minhas costas na parede, mas as mãos dele eram cuidado, lugares certos, tempo certo. O corpo dele era quente, e as palavras vieram, baixas:
— “Bella, non scappare… fammi sentire il tuo cuore.” (Linda, não foge… me deixa sentir teu coração.)
— Não manda. — sussurrei, mordendo o lábio. — Vem.
O corredor não era lugar. A urgência grudou na pele. Ele entrelaçou seus dedos nos meus, pediu espaço com a boca, e eu dei. A respiração atravessou o peito, e a gente andou, tropeçando em caixas, até a porta lateral.
— Tua casa. — ele falou.
— Agora.
A subida foi numa urgência cheia de pressa. No caminho, ele olhava pros lados, eu olhava pra ele. O morro passava, a gente corria por dentro dele.
Entramos. Fechei a porta, e a casa reconheceu a gente. Ele me encostou na porta, e eu puxei seu moletom. O cheiro dele era luxúria de ontem e noite de hoje. Ele beijou meu pescoço devagar, como se me pedisse perdão por cada marca.
— “Dimmi se posso… dimmi fin dove.” (Diz se eu posso… diz até onde.)
— Até eu esquecer tudo. — falei, arfando.
As mãos dele acharam minha cintura, subiram, desceram, marcaram um caminho que meu corpo entendeu na primeira vez e aceitou na segunda. Ele era firme, mas confirmava cada passo com o olhar. Eu respondi com ironia e desejo:
— Tá esperando convite escrito?
— Eu já tô dentro do convite. — ele sorriu, raro.
No sofá pequeno, o mundo coube. A pele encontrou pele. Meu nome soou na voz dele como música. Eu prendi sua nuca como se curasse alguma coisa que ninguém via. O ritmo veio forte, depois lento, depois forte de novo.
Ele beijou meu corpo todo até parar entre minhas pernas. Quando mergulhou ali soltei um palavrão:
— Caralhø, Gringo!
Ele sorriu sem tirar a boca do meu sexø. As lambidas me tørturavam, até que ele começou a sugar e logo um orgasmø intenso tomou conta de mim. Ele continuou lambendo até meu sexø parar de pulsar.
Gringo engatinhou por cima de mim com um olhar predador e sëxy. Ele me penetrøu sem aviso e foi fundo, soltei outro palavrão:
— Pørra… püta que pariü. Faz de novo.
— Gostosa pra caralhø… me deixa louco desse jeito.
As estocadas vinham com força. Ele me fez virar e ficar de quatro e entrou sem aviso novamente, ele me fez gøzar com uma botada. Senti suas mãos apertarem minha cintura, depois um tapa estalar na minha bundä me fazendo gemer alto.
O ciúme virou gasolina, o cuidado, fogo. E a mistura acendeu sem queimar a gente. Era possessivo, sim, mas nunca sem me ouvir. Eu disse “assim”, ele entendeu. Disse “agora”; ele veio.
— “Sei mia… ma ti tengo come se fossi fragile.” (Você é minha… mas eu te seguro como se fosse frágil.)
— Eu não sou frágil. — respondi, apertando seus ombros, firme.
— Eu sei. Por isso eu te quero.
A chuva fina voltou lá fora, a janela riscou de frio. Dentro, o calor foi outro. Quando acabamos, fiquei com a testa colada na dele, o coração em trote.
O silêncio veio pesado, mas bom. Ele passou o polegar no meu queixo, e eu perguntei, num sopro:
— Quem te feriu antes de mim?
Ele demorou. Os olhos perderam foco por um segundo, como quem visita um lugar que não gosta.
— Todo mundo. — respondi.
— Todo mundo, não. — corrigi. — Eu não.
Ele sorriu de lado, cansado.
— “Adesso, nessuno più.” (Agora, ninguém mais.)
A frase ficou flutuando entre nós. Eu virei o rosto pro teto, tentando guardar o que tinha ouvido no bar e o que tinha acontecido no corredor. A história do meu pai tinha ganhado outro contorno, alguém fardado dando ordem, alguém de fora puxando o gatilho, e um morro levando a culpa. Eu precisava de nomes, data, assinatura. E precisava fazer isso sem me perder.
Ele percebeu minha cabeça longe.
— Cê tá distante.
— Tô pensando. — respondi.
— Se arrependeu?
— Não. — Fitei os olhos dele. — Só tô tentando sobreviver a tudo.
Ele assentiu, sério. Beijou minha testa, nada além.
— Eu fico até tu dormir.
— Não precisa.
— Preciso. — Ele sorriu, fraco. — É o único jeito de eu dormir também.
Deitei encostada no peito dele, ouvindo o compasso. O rádio dele chiou no bolso, mas ninguém chamou. O morro tava quieto por um milagre curto. Fechei os olhos, e pensei no recado que a cidade me deu naquela noite, a sombra nem sempre é de quem parece.
Antes do sono, deixei cair a pergunta que eu não devia:
— E se um dia eu sumir?
Ele apertou de leve minha mão.
— Eu te acho. E se eu não te achar, eu te espero.
— E se eu não voltar?
— “Allora vengo io.” (Então eu vou até você.)
Não respondi. Dormi com essa promessa doída. E com a certeza incômoda de que a minha guerra tinha mudado de forma, e de que o dono do morro já morava na parte da minha vida que ninguém devia. E eu sabia.