Capítulo 6 - O Dono e a Infiltrada

2182 Palavras
Thomas “Gringo” O sol apareceu preguiçoso depois da tempestade, jogando aquele brilho molhado sobre o morro. As poças ainda refletiam o céu, e o ar cheirava a terra nova. Mas o que tava no ar mesmo era o burburinho. — Coé, mermão, cê ouviu? — um dos menó cochichou pro outro lá perto da venda. — Diz que o chefão dormiu na casa da moradora nova. Fingi que não ouvi, mas era tarde. O morro inteiro já devia tá comentando. Parte de mim queria rir, outra parte queria matar o fofoqueiro. “O chefão dormiu”, é mole? Dormi, sim, de olho na segurança, não no corpo dela. Quer dizer... pelo menos era o que eu tentava acreditar já que tudo tomou o rumo do corpo dela. Subi com dois dos meus crias logo cedo. Tava na hora de trocar as trancas quebradas da porta da morena. Coisa de segurança, papo reto. Mas a verdade é que eu precisava ver com os próprios olhos se tava tudo bem. Ela apareceu na varanda, cabelo ainda bagunçado, camiseta larga, o olhar desconfiado. Linda demais. — De boa, Gringo, não precisava se incomodar — ela falou, cruzando os braços. — Sem essa, morena. Se tu mora no meu morro, é minha responsabilidade. Ela arqueou a sobrancelha, meio debochada. — Responsabilidade ou mania de controle? Dei um meio sorriso. — Depende de quem pergunta. Um dos meninos tirou uma tranca antiga da porta e começou a instalar a nova. Enquanto isso, um vizinho dela, o tal de Marcos, subiu pra ajudar a prender um varal. O cara era de boa, mas eu senti o sangue ferver. — Esse cara é alguma coisa teu? — perguntei seco, nem disfarçando. Ela piscou devagar. — Meu vizinho. E amigo, se é que posso ter um aqui. — Pode, desde que respeite o código. — Código? — Aqui, mulher de chefe, amigo de mulher, vizinho de mulher... tem limite. Ela segurou o riso. — Mulher de chefe? Tá se ouvindo, Gringo? — Foi modo de dizer. — Modo de dizer bem errado, não temos nada. Virei pro lado pra não deixar ela ver o quanto tava certo o sorriso que ela escondia. Aquela mulher tinha o dom de me deixar sem armadura. Quando a instalação terminou, mandei os meninos descer. Fiquei mais um tempo ali, olhando para aquela casa pequena, simples, com a cortina azul e o cheiro de café escapando da cozinha. — Tu tá se adaptando? — perguntei, fingindo neutralidade. — Tô. O pessoal é bem maneiro. Dona Loura me ajuda com tudo. Assenti. — Fica longe de encrenca, morena. Se alguém tentar te sondar, me manda um zap na hora. Ela encostou na parede, cruzou os braços e me olhou fundo. — Sempre assim? Mandando em todo mundo? — Não é mandar. É cuidar. — Parece controle. — Pode chamar do que quiser, mas aqui eu sei o preço de descuidar. Ela não respondeu. Ficamos uns segundos em silêncio, só o barulho do varal batendo no vento. Então tirei do bolso um pingente pequeno em formato de falcão, prata simples, mas firme. — Pra te proteger. Ela olhou pro colar como se pesasse mais do que devia. — É um símbolo de cuidado ou de posse, Gringo? — Depende de quem usa. Ela segurou o pingente, o polegar deslizando pelo metal. — E se eu não quiser proteção? — Então usa como quiser. Mas lembra que quem pisa nesse morro é minha responsabilidade. Ela não respondeu. Só pendurou o colar no pescoço e me lançou um olhar que atravessou minha defesa inteira. Saí dali antes que fizesse besteira. À noite, o morro já tava calmo. As luzes voltaram, o baile da quadra ia começar mais tarde, mas eu preferi ficar em casa. Tava cansado e confuso, o tipo de mistura que faz o homem perder o foco. Sentei na cozinha, acendi um cigarro, e Dona Fernanda, que trabalhava pra mim desde os tempos difíceis, entrou com uma panela de feijão. — Tá calado hoje, Thomas. Que foi? — perguntou, ajeitando o lenço no cabelo. — Nada demais. Só pensando. — Pensando nela, né? Soltei a fumaça devagar. — A senhora escuta demais. — E você sente demais. — Essa mulher... é fogo e calmaria ao mesmo tempo, dona Nanda. Me tira do eixo, mas me dá paz quando fala. Ela riu, aquele riso de quem já viu de tudo. — Cuidado, filho. O amor também mata. Dei um meio sorriso, meio triste. — Já morri por menos. — Dessa vez pode ser diferente. — Ou pode ser pior. Ela se aproximou, colocou a mão no meu ombro. — Você é um menino bom, Thomas. Só precisa lembrar disso. — Bom? — ri, amargo. — No meu mundo, “bom” é o primeiro a cair. — Então muda o mundo, Gringo. Fiquei olhando o cigarro queimando. Do lado de fora, dava pra ver o reflexo do morro iluminado, vida seguindo, gente rindo. Mas na minha cabeça só passava o rosto dela, o jeito que ela segurou aquele colar, como se soubesse o peso que ele carregava. Peguei o rádio. — Tudo tranquilo nos becos? A voz de um dos meninos veio estourada: — “Tranquilo, chefão. Mas o pessoal ainda tá comentando do bagulho de ontem.” Suspirei. — Deixa o povo falar. Desliguei o rádio e encostei na janela. A chuva tinha lavado o morro, mas não tirava o peso que eu carregava no peito. De repente, vi um vulto lá de cima, era ela, na varanda, mexendo no varal que o vizinho tinha ajudado a prender. E mesmo de longe, ela parecia me olhar. Senti o coração bater diferente. Falei sozinho: — Dio... che casino mi fai dentro, donna... (Deus... que bagunça você faz aqui dentro, mulher...) E foi nessa hora que percebi… eu, o dono do morro, tava me rendendo pra um sentimento sem nem saber. Mas o pior é que, lá no fundo, eu já nem queria lutar. Depois que Dona Nanda foi embora, fiquei um tempo sozinho na cozinha, só ouvindo os barulhos da noite. O morro nunca dorme de verdade, sempre tem um cachorro latindo, alguém rindo, uma moto passando. E mesmo com o som do mundo lá fora, era o silêncio dentro de mim que mais pesava. Peguei o rádio e chamei meu braço direito. — Gabizin, brota aqui em casa. Demorou uns dez minutos pra ele aparecer. Entrou sem cerimônia, do jeito de sempre, boné virado, olhar esperto. Era cria antiga, fechamento, o tipo de cara que já me salvou de bala perdida e de escolha errada. — Fala, paizão. Tô ouvindo um monte de fofoca sobre tu e a moradora nova. Diz aí, é caô ou é verdade? — perguntou, encostando na parede. Revirei os olhos. — O povo fala demais, mano. — Fala, mas geralmente fala por motivo. Tá ligado que a cada esquina a fofoca aumenta uma vírgula, né? — Gabizin deu um sorriso de canto. — Aquela mulher tem um bagulho diferente. Sério. Eu já vi gente nova subir o morro, mas ela… sei lá, não parece qualquer uma. — Tá querendo dizer o quê? — perguntei, cruzando os braços. — Que ela guarda segredo, chefão. Tu pode rir, mas meu instinto nunca falha. Tem algo no olhar dela que não fecha. Suspirei fundo. — Gabizin, deixa essa parada pra mim. — Eu só tô te alertando, mano. Tu sabe que eu sou teu fechamento. Se for cilada, eu não quero te ver sangrando. — Pega a visão — falei firme, com a voz mais baixa. — Ninguém encosta nela. Nem pra saber o nome do cachorro, se ela tiver um. Ele ergueu as mãos, rindo sem graça. — Tá mec, paizão. Tô ligado. — E se alguém espalhar mais fofoca sobre ela, corta o papo. Sem zoeira. — Fechou. Ele se virou pra ir embora, mas antes de sair, ainda mandou: — Só cuida, chefão. Essas mulher que chega do nada… ou é bênção, ou é problema. — Visão, parceiro. Fiquei um tempo pensando no que ele disse. “Guarda segredo.” Eu mesmo já tinha sentido isso. Lorena tinha um jeito de olhar que parecia atravessar a alma, mas não deixava ninguém atravessar a dela. Decidi sair pra dar uma volta no morro. Não dormia de qualquer jeito. As vielas estavam calmas, os becos molhados ainda da chuva. Vi de longe a casa dela, luz acesa, cortina meio aberta. Ela conversava com uns vizinhos na calçada, rindo baixo. O som da risada dela atravessou tudo. Foi quando vi o cara se aproximando, o Juninho, conhecido pelo morro inteiro como o maior mulherengo da região. Já tinha dado problema com mulher de parceiro, mulher de aliado. Fiquei parado, observando. Ele chegou perto demais. Tocou o braço dela pra chamar atenção. Ela recuou, mas ainda manteve o sorriso educado. A raiva subiu seca. Fiz um sinal discreto pro soldado que tava de vigia na esquina. Ele entendeu na hora. Minutos depois, Juninho sumiu do quadro, levado pro beco de baixo pra “trocar uma ideia” e aprender a manter distância. Fiquei ali, na sombra, olhando ela entrar em casa. O cabelo molhado grudando no pescoço, a luz amarela batendo na pele. E eu me odiando por estar vigiando, por estar sentindo o que não devia. Meia-noite. A garrafa de uísque já tava pela metade. Tentei ignorar o impulso, mas o corpo andou sozinho. Quando percebi, já tava batendo na porta dela. — Morena... — chamei baixo, a voz arrastada. Ela abriu. O cabelo solto, camiseta simples, olhar surpreso. — Gringo? Que cê tá fazendo aqui a essa hora? — Só passei pra saber se tá tudo certo. — À meia-noite? — Ela cruzou os braços. — Tu tá bêbado? Dei um meio sorriso. — Só um pouco. Ela suspirou, mas abriu espaço. — Entra logo, antes que alguém te veja. O som da chuva fina voltando batia no telhado. Ela trancou a porta, e ficamos parados, cara a cara. — Tu devia tá dormindo. — Ela falou. — Não consigo. — Por quê? — Porque quando eu fecho o olho, eu vejo tu, sentando no meu colo, me olhando de um jeito que me aquece e enlouquece. — respondi, sincero demais pro meu próprio bem. Ela desviou o olhar, nervosa. — Isso não devia tá acontecendo. — Eu sei. Mas tá. Dei um passo, e ela recuou até encostar na parede. Ninguém falava mais nada. Só o som da respiração pesada entre nós. — Vai ser a última vez, Gringo. — Ela sussurrou. — Promete. — Prometo... se tu prometer também. — Prometo. — respondeu, mas a voz dela já tremia. Toquei o rosto dela, os dedos deslizando até o pescoço. O corpo dela reagiu antes que a cabeça pensasse. O beijo veio quente, urgente, como se os dois quisessem se convencer de que era errado, e, ao mesmo tempo, se perdoar por não conseguir parar. Ela tentou se afastar, mas eu puxei devagar, sem força, só o suficiente pra ela entender que eu não ia forçar nada. — “Sei il mio castigo più dolce…” (Você é meu castigo mais doce...) — sussurrei no ouvido dela. — Para com isso... — ela disse entre um suspiro e outro. — Tu me deixa confusa. — Eu também tô confuso, morena. — confessei, encostando a testa na dela. — Mas é impossível ficar longe. A roupa foi caindo no meio da confissão, o toque ficando mais lento, mais fundo. Era vício, saudade do que ainda nem acabou. Ela prendeu o gemido entre os dentes, e eu sussurrei: — “Bella… mia tentazione.” (Linda… minha tentação.) O corpo dela respondeu com a mesma intensidade. A mistura de desejo e culpa deixava tudo mais forte. Era como se o mundo lá fora tivesse sumido, só existia a respiração dela no meu ouvido, o cheiro da pele perfumada, o gosto do arrependimento e da necessidade misturados. Quando tudo terminou, o silêncio caiu pesado. Ficamos lado a lado, deitados, sem coragem de falar. Ela foi a primeira a quebrar o ar: — Isso não muda nada, Gringo. — Eu sei. — respondi. — Mas também não apaga. — A gente devia parar. — Devia. — falei, olhando pro teto. — Mas não vai. Ela virou pro lado, se cobrindo. E antes de fechar os olhos, ainda soltou: — A última vez, lembra disso? Dei um riso curto, cansado. — Tu fala isso, morena. Mas será que conseguimos? Ela não respondeu. Só virou o rosto, e eu fiquei olhando o contorno dela na luz fraca. Queria dizer tanta coisa, mas a única verdade que saía era essa: — “Ti giuro… non so più dove finisci tu e comincio io.” (Juro… já não sei mais onde você termina e eu começo.) Fiquei ali até o sono me vencer, sabendo que, no fundo, aquele juramento não era pra ela, era pra mim mesmo. Porque se continuasse daquele jeito, ia acabar me perdendo nela de vez. E talvez fosse isso que eu quisesse desde o começo.
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