Vivian Narrando
Meu nome é Vivian Campos Soares, mas todo mundo me chama de Vih. Tenho 22 anos, 1,70 de altura, pele clara, cabelo preto, liso e longo, e olhos claros. Ah, e muitas tatuagens espalhadas pelo corpo, gosto de marcar minha história na pele. Sou gêmea idêntica da Mariah, e quem não convive com a gente sempre se confunde. Fisicamente, só uns detalhes nos diferenciam, mas é no jeito que somos completamente diferentes. Enquanto a Mariah é trabalhada na calma, e na paciência, eu sou o caos em pessoa.
Sempre fui assim, desde criança. Nunca fui de levar desaforo pra casa, e admito que dei muito trabalho na escola. Na verdade, fui expulsa de quase todas as escolas por onde passei. Cheguei ao ponto de bater em uma professora que teve a audácia de me chamar de mentirosa pra defender outra garota que, na verdade, era quem táva mentindo. Meu pai? Sempre ficou do meu lado, me defendia de tudo. Já minha mãe tentava me botar na linha, ficava direto de castigo, mas isso nunca adiantou. Quanto mais crescia, mais eu me sentia forte e sabia que o meu lugar era no comando. Sempre quis seguir os passos do meu pai e do meu avô Digão, dois homens que respeito demais e que sabem o que é liderar.
Eu não sou de me enrolar com romance, sou bem direta. Sou hétero e adoro me divertir. Já tive uns lances que saíram do controle, como aquela vez com o policial. Foi só pra finalizar um serviço, não Tava no script ficar com ele, mas o cara era gato e eu não ia perder a chance. Meu pai ficou bolado quando soube. Até me ameaçou de me tirar da frente do morro, mas, sinceramente, vida que segue. Não sou de dar satisfação pra ninguém.
Hoje em dia, eu tenho um rolo com o Caveira. Ele é sub de outra quebrada, e a gente tem um esquema bem claro: não é namoro. Ele sai com quem ele quer, eu saio com quem eu quero, e quando bate vontade de ficar junto, um liga pro outro e a gente se encontra. Mas claro, ele é quem tem que se virar pra me achar, porque quando eu tô ocupada, com outro gato, aquele número que todo mundo tem fica desligado. Só quem consegue me achar é minha família e quem tem meu número privado. Não sou otárïa, né?
Nunca tive um fiel, e nem é algo que eu procure. Meu esquema é simples: deu vontade, ficou. Enjoou? Mete o pé. Esse lance de relacionamento nunca foi pra mim. Tenho pavor de homem que acha que mulher é objeto para ser dele. Na primeira vez que um cara errar comigo, coitado dele. Por isso, prefiro nem tentar. Minha mãe diz que é porque eu ainda não conheci o amor da minha vida, mas, olha, eu acho isso bem difícil. Comigo, amor só rola o próprio.
Se tem uma coisa que não falta em mim, é coragem. Já fiz coisa que muita gente não teria peito de fazer. Uma vez, precisei botar uma mina na linha porque ela era muito faladora. Dá trabalho, mas faz parte. E isso de lidar com gente é um dom que eu herdei do meu pai. Ele sempre me ensinou a não deixar os outros me passarem pra trás. No morro, respeito é tudo, e eu sei bem como conquistar o meu. Quando tô no comando, as coisas funcionam do meu jeito. Sou firme, mas não injusta. Gosto de resolver as coisas na hora, não importa o jeito, se for na Conversa, na bala ou cortando a língua. A questão é resolver. Minha mãe surta comigo, mas fazer o que, né?
Minha rotina não é nada monótona. Cada dia é um desafio diferente. Gosto dessa adrenalina, dessa sensação de estar viva. Não sou de fazer planos a longo prazo, vivo o hoje. Se der errado, a gente conserta depois. A Mariah sempre me diz que eu deveria pensar mais no futuro, mas não consigo ser assim. Ela é toda organizada, cheia de metas. Eu sou o oposto: gosto de deixar as coisas acontecerem. Talvez por isso a gente se complete. Ela me puxa pra realidade quando eu voo demais, e eu mostro pra ela que nem tudo precisa ser tão calculado.
Minha vida amorosa é um reflexo do meu jeito de ser. Gosto de liberdade, de intensidade. Pra mim, cada momento é único e merece ser vivido ao máximo. Não sei se um dia vou mudar, mas, por enquanto, tá bom assim. Tenho meus lances, minhas histórias, e não me arrependo de nada. Se tem uma coisa que aprendi com a vida, é que a gente tem que ser fiel a si mesmo. E eu sou. Sou fiel ao que eu quero, ao que eu sinto. Quem quiser me acompanhar, que venha. Mas tem que saber que eu não paro por ninguém.
No fim das contas, acho que é isso que me define: liberdade. Liberdade pra ser quem eu sou, pra fazer o que eu quero, pra viver do meu jeito. E se algum dia o mundo tentar me dobrar, pode ter certeza de que eu vou me levantar ainda mais forte. Porque eu sou assim: Uma mulher que sabe o que quer e que não tem medo de ir atrás.
Eu nunca imaginei que estaria vivendo o que tô vivendo agora. Meu pai, o homem mais forte que eu conheci na vida, está, no hospital do Morro, lutando pra não morrer. Ele levou um tiro no peito. Tão perto do coração que o médico falou que é um milagre ele ainda estar respirando. O médico veio no pacote, e só vai ser liberado quando meu coroa tiver de pé. Até lá, ele não sai da quebrada. E tudo isso por causa de um assalto que era pra ser fácil, tranquilo, sem complicação. Mas deu errado. Errado demais.
A gente planejou cada detalhe. Nada foi deixado ao acaso. Meu pai, eu, Mariah e o resto da galera. Mas, de algum jeito, a polícia chegou rápido demais. Rápido até pra eles. Não faz sentido, sabe? Como se já soubessem o que a gente ia fazer e tivessem esperando. E agora meu pai tá pagando o preço.
— Você acha que tem X9 nessa parada? — perguntei pra Mariah hoje mais cedo.
Ela me olhou com aquele jeito frio dela, que mete medo até em quem não deve nada.
— Se tiver, Vivian, vai morrer. E vai morrer pedindo clemência.
Não temos piedade de traidor. Nunca tivemos e nunca vamos ter. E eu concordo com ela. Quem nos dedurou, se é que foi isso mesmo, merece o pïor. A gente confia uns nos outros. Nessa vida que a gente leva, não tem espaço pra dedo-duro.
Mas sabe o que mais me tira do sério? Saber que talvez tudo isso podia ter sido evitado. Meu pai sempre foi cuidadoso, sempre pensou em cada passo, mas alguma coisa deu errado. E enquanto ele luta pra sobreviver, eu tô aqui, pensando em cada detalhe, tentando entender onde a gente vacilou. Ou quem vacilou.
Mariah tá investigando. E se tem uma coisa que eu sei é que ela não vai descansar até descobrir. Porque ela também sente que tem algo estranho nessa história. E nós duas, juntas, somos piores que qualquer mäl que pode cair em cima de um X9. Se tem um traidor no meio da gente, ele vai pagar. E vai pagar caro.
Enquanto isso, eu fico aqui, tentando segurar as pontas. Tentando não desmoronar. Meu pai é tudo pra mim, e vê-lo assim é como levar um soco no estômago. Cada minuto que passa sem uma resposta boa dos médicos é uma tortura.
Mas eu prometo uma coisa: não vou deixar isso barato. Quem quer que tenha causado isso vai se arrepender. Porque ninguém mexe com a minha família e sai impune. E agora, mais do que nunca, eu sei o que quero, e Eu quero guerra.