Capítulo 03

1402 Palavras
Mariah Narrando Meu nome é Mariah Campos Soares, mas na quebrada todo mundo me chama de Perséfone. É um vulgo, Coisas da Mitologia grega. Sou apaixonada nessas paradas. Tenho 22 anos, sou traficante e carrego meu corre com orgulho. Não é vida fácil, mas eu me garanto. Tenho 1,70 de altura, pele clara, olhos claros e cabelo liso que desce até a cintura. Tá cheio de tatuagem espalhada pelo meu corpo, cada uma com um significado, mas só eu sei o que elas contam. Ah, e sou geminiana, daquelas que não enrola e vai direto ao ponto. Não gosto de papo torto. Tenho uma irmã gêmea, a Vivian. A gente é idêntica fisicamente, mas de gênio ela é mais explosiva. Eu sou mais na minha, calada, mas não levo desaforo. E tem o RM, nosso irmão mais novo. O nome dele é Rodrigo, mas a gente só chama assim quando é bronca. O moleque é föda, muito inteligente. Enquanto eu e Vivian resolvemos as coisas na rua, ele é o "hacker" da família. Invade sistema de polícia, derruba câmera, é um gênio com essas paradas de computador. Cada um tem seu papel e, no fim, a gente fecha direitinho. Minha vida nunca foi de muito blá-blá-blá. Sou direta, sim ou não, não tem meio termo comigo. Sempre fui assim. Acho que isso também me ajudou a me entender cedo. Sou lésbica. Não que eu nunca tenha ficado com homem, mas foi só depois que fiquei com uma garota que tudo fez sentido. Lembro até hoje. Naquela primeira vez, foi como se tudo clicasse. Não pensei duas vezes antes de contar para a minha mãe. Ela me ouviu, aceitou, e todo mundo na minha família apoiou. Meu pai? Pensei que ia dar ruïm, mas não. Ele respeitou, e isso foi um alívio enorme. Mas minha história com mulheres tem altos e baixos. Um deles se chama Micaele. Ela foi meu grande amor... Ou pelo menos eu achei que fosse. A gente viveu uma história intensa, daquelas que parece filme. Me entreguei de corpo e alma, mas, no fim, ela não passava de uma X9. Sim, X9, dedo-duro. Descobri que ela é filha de um policial. Traiu minha confiança, passou informação e depois sumiu. A desgraçada fugiu, mas sei que um dia a gente ainda vai se esbarrar. E quando isso acontecer, pode ter certeza: ela não vai sair viva. Amando ou não, é o que tem que ser feito. Já decidi isso. Sabe o que é pior? Eu não consigo esquecer. O gosto dela ainda tá na minha boca, o cheiro dela às vezes aparece nos lugares mais aleatórios. Já tentei seguir em frente, fiquei com outras mulheres, mas nenhuma chegou perto de tirar a Micaele da minha cabeça. Parece que ela grudou em mim. É como uma cicatriz que não fecha. Minha irmã é minha confidente em quase tudo, mas nessa história eu prefiro segurar sozinha. Se a Vivian souber, é capaz dela revirar o Rio de Janeiro inteiro atrás da traidora. Minha irmã não tem limite, é pura raiva quando mexem com a gente. E, por mais que eu queira que a Micaele pague pelo que fez, essa é uma parada minha. Eu preciso resolver isso do meu jeito. Minha mãe também é um pilar na minha vida. Converso muito com ela, às vezes sobre coisas que não consigo falar com mais ninguém. Ela é compreensiva, escuta sem julgar. Acho que é por isso que eu consigo segurar a barra de tanta coisa. Mas tem coisas que a gente guarda, que a gente resolve sozinha. Minha relação com a Micaele é uma dessas. Hoje, minha cabeça tá cheia com outras prioridades. O corre é intenso. Tem que cuidar do meu time, do meu território, dos corres do RM e ainda manter a paz na nossa família. Vivian, apesar de ser minha gêmea, é minha oposta em muita coisa. Enquanto eu penso, ela age. Ela é fogo, eu sou gelo. Isso equilibra, mas às vezes dá conflito também. Mesmo assim, ela é minha melhor amiga, e a gente sempre fecha uma com a outra. Não sou uma pessoa piedosa, nunca fui. No meu mundo, piedade é fraqueza, e fraqueza é fatal. Por isso, quando eu e a Micaele nos encontrarmos de novo, vai ser diferente. Dessa vez, não tem amor que me segure. Ela traiu minha confiança, mexeu com meu coração e ainda colocou minha vida em risco. Isso tem um preço. E eu vou cobrar. Até lá, eu sigo no meu corre. Tenho muito para fazer, muito para cuidar. E, por mais que a Micaele esteja sempre ali, na minha cabeça, não deixo isso me dominar. Tenho minha família, meu trampo, minha vida. Quando a hora chegar, estarei pronta. Sem medo, sem dúvida. Porque uma coisa que eu aprendi é que nesse jogo a gente é tudo ou nada. E eu nunca fui de perder. Nunca pensei que diria isso, mas agora entendo o que é o verdadeiro medo. Sempre fui uma pessoa destemida. Medo? Isso nunca teve espaço na minha vida. Mas as coisas mudam, e a vida faz questão de ensinar lições da maneira mais crüel. Agora eu sei. O medo é real, ele tem rosto, tem cheiro, e, no meu caso, tem a forma da morte batendo à porta para levar meu pai. Tudo começou com aquele tiro. Uma bala única, certeira, que acertou meu pai no peito e desmoronou nossa família. Ele está internado no hospital do Morro, lutando pela vida, e a gente está aqui, tentando não desmoronar. Minha mãe e minha avó Viviane não saem de lá. Estão ao lado dele dia e noite, como se a presença delas pudesse evitar o pior. Minha tia Vitória, coitada, não aguentou o peso. Ela surtou de um jeito que tiveram que dar um calmante daqueles que apagam até o mais forte. Tá sinistro. Pesado. Mas é o que temos. Eu? Bem, eu e o RM, estamos tentando manter a cabeça no lugar. Tá difícil, não vou mentir, mas o que nos move agora é uma coisa só: encontrar o culpado. Porque, sim, tem que ter um culpado. Alguém armou contra a gente. Alguém teve coragem de trair a nossa confiança, de morder a mão que alimentava. Esse tipo de coisa não fica sem resposta. Já falei para minha irmã: se foi um desgraçado desses, ele vai morrer. E não vai ser uma morte rápida não. Vai sofrer. Vai pedir para morrer antes de encontrar o fim. Porque piedade? Isso não existe no meu dicionário. O pior é que a gente tem nossas suspeitas. A traição não é coisa de estranho. É sempre quem está perto, quem você confia, quem senta à sua mesa e come do mesmo prato que você. Estou tentando pensar com clareza, mas o ódio e a dor só deixam a razão mais turva. Meu pai sempre foi o alicerce da nossa família. Não sei o que é pïor: vê-lo assim, frágil, ou imaginar que o culpado pode estar rindo da nossa cara enquanto a gente chora. Ontem, no hospital, olhei para minha mãe. Ela está exausta, mas não desiste. Disse que meu pai é forte e que ele vai sair dessa. Quis acreditar nela, mas é difícil ter fé quando tudo à sua volta parece desmoronar. E o RM? Ele está focado, mas vejo nos olhos dele o mesmo medo que sinto. Ele não fala, mas sei que está pronto para fazer o que for preciso, assim como eu. Vivian, é a que mais está sofrendo de nós três, ela chora pelos cantos. Ela é a mais apegada ao papai. Às vezes, penso no meu pai lá no hospital. Ele tá apagado, Mas o que ele sente? Ele sabe o caos que estamos vivendo aqui fora? Sabe que minha mãe e minha avó não dormem? Que minha tia perdeu o controle? Que eu e o RM estamos prontos para ir até o fim para fazer justiça por ele? Quero acreditar que ele sente nossa força, nossa presença, mesmo estando em coma. Mas, por enquanto, tudo é incerto. O que é certo é que nós vamos até o fim para descobrir quem fez isso. E quando encontrarmos o culpado, ele vai pagar. Ninguém machuca a minha família e sai impune. O jogo virou, e agora é a gente que vai bater na porta da morte. E ela, dessa vez, vai estar do nosso lado.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR