Vivian Narrando
Já faz duas semanas que meu pai tá em coma. Duas semanas que a vida deu essa rasteira na gente e deixou tudo virado do avesso. E olha, quando eu falo que tá um caos aqui no morro, eu não tô exagerando. A família do médico sumido tá fazendo uma porr@ de campanha pra encontrar ele, sério mesmo. Tá em tudo quanto é lugar: no rádio, na TV, na internet. E todo mundo aqui tá pisando em ovos, e a galera já sabe, ele tá aqui pra cuidar do meu pai, se alguém nos dedurar, vai morrer na minha mão. Mas eu tô tentando me segurar, ficar firme por mim, pelos meus irmãos e, principalmente, pela mamãe.
Só que é fácil falar, difícil mesmo é fazer. Todo santo dia eu choro. Choro no banho, choro quando vou dormir, e choro mais ainda quando acordo e vejo que ele não tá em casa. Meu pai é meu porto seguro, meu alicerce, meu tudo. E só de pensar em uma vida sem ele, parece que o mundo desaba na minha cabeça. Tô tentando ser forte, mas tem horas que não dá. Parece que falta ar, falta sentido.
Mariah e o RM estão na boca direto. Eles não param, parece que nem dormem. A Mariah, então, tá virada na Perséfone mesmo, cheia de raiva, pronta pra acabar com qualquer um que tenha coragem de abrir a boca para questionar. Eles tão passando o pente fino na quebrada, olhando tudo com lupa, cada detalhe, cada Vapor que estava com a gente. Não sei se isso vai resolver, mas pelo menos é alguma coisa. Melhor do que ficar de braços cruzados, como se nada tivesse acontecendo.
O Pedro tá me ajudando. Quando estou sem cabeça, é ele quem vai desenrolar as tretas. Pedro é mais do diálogo, ele gosta de resolver tudo certinho, parece a tia Eni. Senhor, paciência é uma coisa que eu não tenho. Boto ele para resolver os B.O.s de morador. Quando é coisa séria, tem que ser eu ou a Mariah.
Desci para o hospital. Quando cheguei, a mamãe estava no pé da santa rezando.
— Mãe — chamei ela baixinho. A santa fica bem de frente ao quarto onde o papai tá.
— Oi, filha. Levaram o seu pai para fazer os exames neurológicos — ela falou e abaixou a cabeça. Abracei a minha mãe bem forte e falei que não vai dar nada.
Entramos no quarto. A vovó estava sentada. As duas estão apavoradas, e eu também, mas não demonstrei. Ajeitei minha pistola na cintura e fui atrás do doutor. Esse tempo todo eu fui compreensiva, deixei ele de boa. Mas já tá na hora de botar pressão.
Entrei dentro da sala dos funcionários. Ninguém disse nada. Gosto assim, todo mundo caladinho.
— Cadê o Dr. Júlio? — perguntei a uma enfermeira.
— Ele tá na sala de descanso — ela respondeu.
Perguntei onde era a sala. A enfermeira falou, e eu fui andando pelos corredores. Todos me olhavam, mas ninguém falava nada, abaixava a cabeça. Sinal de medo, respeito, sei lá, tanto faz. Gosto de tacar o terror mesmo. Quero que todos tenham medo de mim.
Assim que cheguei na frente do quarto, tava um dos vapor está seguindo as minhas ordens, É claro que eu não ia soltar o médico sozinho. Ele pode fugir, então ele é monitorado 24 horas. Cada passo que ele dá dentro do hospital, que não sou muito se ele só trata do meu pai. O meu vapor tá na cola dele.
Abri a porta do quarto e encontrei o Dr. Júlio deitado em uma cama. Assim que ele me viu, se sentou. Não falei nada, só fechei a porta e tranquei. Dei um passo para dentro, e ele, meio desconfiado, se levantou devagar.
— Qual é a real situação do meu pai? — perguntei, indo direto ao ponto.
Ele suspirou e respondeu, com aquele tom que já estava me irritando:
— Ainda não tivemos nenhum avanço.
Na mesma hora, tirei a pistola da cintura e fui andando devagar até ele. Não era o momento de enrolar. Enquanto eu chegava mais perto, os olhos dele não saíam da minha mão, como se ele já soubesse onde isso ia dar.
— Acho bom o doutor dar um jeito nessa situação — falei bem baixinho, chegando perto da orelha dele. — Fazer esse quadro reverter.
Ele engoliu seco, mas não perdeu a pose.
— Eu sou médico, não sou santo milagreiro — respondeu.
Dei um passo para trás, só para olhar no rosto dele. Até que é gatinho, mas agora não era hora pra pensar nisso. Levantei a pistola e encostei devagar na lateral do rosto dele.
— Escuta aqui, doutor. Eu te disse que é uma vida pela outra, mas esse bagulho não tá justo. Você tá aí descansando, mandei comprar roupa, produtos de higiene, não te falta nada, enquanto o meu pai tá igual um vegetal em cima de uma cama. Ou você faz alguma coisa pra resolver isso, ou vai virar um vegetal também.
Vi a respiração dele acelerar e ele levantou as mãos, tentando manter a calma.
— Me escuta, por favor. Eu pedi esses exames neurológicos justamente pra saber como está o cérebro dele. Assim eu posso começar a tentar acordá-lo. Mas sem esses resultados, eu não posso fazer nada com segurança.
Inclinei o corpo pra frente, a arma ainda na mão.
— Assim que meu pai acordar, eu te libero. Só assim.
Quando me endireitei para sair, ele fez algo inesperado. Pegou na minha mão, aquela que segurava a arma. Olhei pra ele, surpresa, e ele deu um sorriso meio sem jeito.
— Vem me ver mais vezes — falou. — Gosto de conversar com você. A Mortícia é estranha.
Fiquei olhando pra ele, tentando entender.
— Quem é Mortícia? — perguntei, sem mudar a expressão.
— Sua gêmea — ele respondeu, rindo de leve.
Corrigi na hora:
— O nome dela é Perséfone.
— Eu sei — ele disse, dando de ombros. — Mas ela é sem expressão, igual à Mortícia.
Quase deixei escapar uma risada, mas me segurei. Não queria dar essa satisfação pra ele. Mantive minha postura séria e respondi:
— Eu volto mais vezes.
Virei as costas e saí da sala, ainda sentindo o olhar dele nas minhas costas. Gente doida. Tá todo mundo ficando doido nesse morro.