3. Dividindo a cama

2073 Palavras
BÁRBARA A festa durou até tarde. Bem tarde e eu já estava morrendo de sono ali na minha mesa, enquanto bancava a anfitriã na casa dos outros. Eu nunca consegui me sentir parte desta família. A família do Otávio consiste em quatro pessoas bem diferentes que se unem em somente duas características: o sangue e o dinheiro. O pai, Regis, é um cara mais tranquilo, ele gosta muito de trabalhar e pouco fica em casa. Quando está em casa ele tá trabalhando. Parece que ele e a sua esposa, Paulina, se dão muito bem. Eles têm a relação que eu queria ter com o Otávio. Paulina é do tipo mulher dominante. Ela sempre está pensando na família toda e é como se ela desse a liga para todas aquelas pessoas. Três homens... Ela tem muita paciência. O Otávio é o filho mais novo estereotipado. Ele dá trabalho. Dá muito trabalho. Do tipo chegar muito bêbado em casa, encher a cara nas festas de família e brigar com os parentes, falar tudo o que quer, torrar dinheiro em balada, comprar coisas caras e depois dar fim nelas. Ele é um caos. Já o Gustavo... Eu não sei dizer sobre ele. Eu só o vejo de vez em nunca, sempre sentado na varanda de pernas passadas, todo concentrado nos livros. Nunca o vi brigando com ninguém, não o vejo opinando em nada, ele não é muito de socializar. Nas festas de família ele sempre fica com os tios mais velhos. Assim como no nosso casamento. Agora ele está lá com o tio, conversando com uma postura de homem sério. Eu não sei em que parte eu me encaixo nisso, mas agora estou casada com um deles e preciso me fazer parte desta família. E se sei bem de uma coisa sobre ele é que ele fica muito bem de terno. — Bárbara, parece sonolenta. — minha sogra sentou no lugar do Gustavo. — Sim. Eu já tô com sono, mas posso esperar a festa terminar. — Você está gostando? Fizemos tudo o que a sua mãe disse que lhe agradaria. — Tá tudo perfeito, Paulina. Eu nunca imaginei que estaria casando. Há duas semanas eu só estava preocupada com a ausência da minha menstruação, o teste e a reação do Otávio. Agora estou casada com o Gustavo. Ela balançou a cabeça com um olhar compreensivo. — Você sabe que essa é a melhor decisão. O Gustavo será um melhor pai para essa criança e nós não aceitaríamos saber que temos um neto e que ele está longe da gente. Você também não merece criar uma criança sozinha. Gostamos muito de você, Bárbara. O que nos incomoda é o jeito que o nosso filho te trata. Por isso nunca demonstramos muita aprovação nesse relacionamento. Mas eu, como mãe, sei o que pode ser bom e r**m e eu sei que você e Gustavo se darão muito melhor do que você e o Otávio. — ela colocou sua mão em cima da minha. — E quando Otávio sair da prisão? Ele reprovará. — Lidaremos com isso quando chegar a hora. Não sofreremos por antecedência. Espero que a prisão torne ele uma pessoa melhor. Porque se a prisão não ensinar nada, não ensinar que o modo que ele encara a vida é totalmente inaceitável, eu não sei o que fará isso. — Eu também penso nisso, mas o Otávio é teimoso e acho que isso não vai ajudá-lo a se tornar uma pessoa melhor, talvez ele saia pior. Ela balançou a cabeça concordando comigo e conformada. — Mas não vamos pensar nisso agora. Bárbara, você é uma garota ótima, eu quero mesmo te ter como nora. Sei que você e o Gustavo nunca foram próximos, mas agora é a hora. — Vou fazer o possível. — sorri e ela sorriu para mim. O Gustavo chegou aonde a gente estava e sua mãe olhou para ele, ainda sentava ali. Eles sorriram um para o outro e ele a abraçou e beijou a sua cabeça. Eu não imaginei que ele fazia o tipo carinhoso. — A Bárbara já está com sono. — ela contou e ele olhou para mim. — Quer subir? — Deixa a festa acabar para não ser deselegante. — Mas você não pode nessa situação, Bárbara. — a mãe dele explicou. — Ninguém vai criticar. Os noivos são os primeiros a ir embora da festa. — ela sorriu. — Vamos. — ele estendeu a mão para mim. — A gente se despede e eu subo com você. Estou receosa com essa subida. Eu não sei como ele está realmente encarando esse casamento. Se ele espera que aconteça algo entre a gente hoje. Levantei e saímos agradecendo a todos pela presença. Conheci muita gente da família dele que ainda não conhecia. Da minha família foram poucas pessoas. Acho que só tinha umas quarenta pessoas nessa cerimônia. Quando cheguei para abraçar a minha mãe, ela falou no meu ouvido. — Não diga não para nada que ele sugerir. — Mãe! — a soltei ofendida. Foi como se eu tivesse que ser submissa a ele só porque casamos! Para ela é como se esse casamento fosse mais uma transação. Acho que ela espera que mesmo com o contrato não citando valor algum ainda receba alguma quantia. Ela quer o dinheiro do Gustavo assim como tirava do Otávio. Por isso eu nunca terminava com o Otávio. Eles não deixaram. E não era como se eu os obedecesse, simplesmente eles resolviam as coisas na minha ausência e quando eu levantava a voz não me ouviam. Mas eu não serei submissa de mais ninguém. Já atirei o Otávio, não aturarei atitudes do tipo dele vinda do Gustavo. Subimos e eu fui levantando a roda do vestido. Era um vestido leve, justo, mas era longe e isso me preocupava enquanto subia os degraus. Passei pela frente do quarto do Otávio e por um momento achei que entraria ali. Então Gustavo abriu a porta do seu quarto. — Vamos? Foi aí que a ficha caiu. Estou casada com ele. Dividiremos o quarto. Outras pessoas dormiriam na casa e eu não poderia dormir em um quarto separado. O casamento era por contrato, mas era real. Não existia uma cláusula que dizia quando aquilo chegava ao fim. Só era o início. Então fui para o quarto dele. — A minha mãe já deixou a sua mala aqui. O quarto dele era enorme, tinha uma cama bem espaçosa, forrada com edredom e tinha um abajur de cada lado da cama, em mesinhas de uma só gaveta, o piso era amadeirado e tinha um tapete claro nos pés da cama. Uma TV enorme pregada na parede e a minha mala ali, perto das cortinas e de uma das outras duas portas. — O banheiro fica aqui. — ele abriu uma das portas. — Essa outra porta é do closet, mas a gente só vai ficar aqui hoje, então não importa. — ele tirou o blazer e eu sentei na cama e comecei a tirar a minha sandália. Estou nervosa. Muito nervosa. O que será que ele espera de hoje? Estou morrendo de sono. E ele continuou tirando a sua roupa. Quando terminei de tirar as minhas sandálias enquanto bocejava muito, vi que ele estava sem camisa e desabotoando o cinto. Caramba, ele é forte. Parece que ele malha ou faz alguma atividade física bem benéfica a seus músculos. Muito gostoso. — Não precisa se preocupar com nada. Vi o que a sua mãe te falou. — Ouviu? — estiquei meus braços para desabotoar o vestido. A minha mãe não sabe ser discreta. — Eu não vou te sugerir nada. Não se preocupe. — ele abriu o guarda-roupa e tirou um short, eu continuei tentando tirar o vestido. Que sofrimento. Fiquei de pé para ver se facilitava e fiquei de costas para ele porque eu não queria ser a inconveniente que fica assistindo o cara trocar de roupas. Eu bocejei. O sono veio com tudo para cima de mim. Senti dedos frios tocando nas minhas costas. — Eu te ajudo. Não imaginei que ele tomaria essa iniciativa. Abaixei as minhas mãos e fiquei quieta enquanto ele abria o vestido. — Parece até clichê. Para que tantos botões? — Deve ser para aumentar o mistério. — ele cogitou e eu ri olhando para o lado. Tinha um espelho ali do lado. Ele estava concentrado enquanto abria os botões. [•••] GUSTAVO Eu estava no mesmo quarto que ela e agora estava ajudando a tirar a sua roupa. O que mais eu poderia querer? Eu sei. Poderia querer uma noite de amor com ela, mas eu me contento somente em tê-la ao meu lado. Quando terminei de abrir todos os botões, o vestido escorregou pelos ombros dela e por um momento fiquei sem ar, parei de respirar. Ela segurou o vestido e virou para mim. — Obrigada. — Você quer que eu me vire? — tentei passar confiança para ela. Então me virei e ouvi ela mexendo na mala. Sei que ela não se sente confortável comigo, mesmo sendo minha cunhada, agora ex-cunhada e atual esposa. Eu não sou o cara que socializa mais, que chega pegando amizade com todo mundo. Me aproximo de quem eu me identifico e assim sou eu mesmo, quando não consigo me identificar com a pessoa não consigo fazer amizade, me abrir, ser eu mesmo. Eu me identifiquei com a Bárbara desde a primeira vez que a vi, mas ela era namorada do meu irmão e isso foi uma desilusão. Eu e meu irmão somos muito diferentes um do outro. Enquanto estou sendo gentil, meu irmão acha que estou me aproveitando. Já o jeito que ele age para mim é muito sem escrúpulos algum, mas para ele é normal. Eu não poderia me aproximar dela, porque quando eu estivesse sendo gentil com ela, ele pensaria que eu estava com outras intenções e eu estaria mesmo. Meu irmão não merece uma mulher como ela. Eu não roubaria a namorada dele, mas se tivesse uma chance de ficar com ela quando eles não tivessem juntos, pois eu sabia que um dia isso iria acabar, eu ficaria. Por isso, quando essa história de gravidez surgiu depois que meu irmão foi preso, eu não recusei o pedido da mãe para assumir a criança. O casamento permite consolidar isso e não deixar que Otávio atrapalhe essa decisão. — Terminei. — ela avisou e eu me virei. Ela estava de cócoras, fechando a mala. Usava um pijama nada temático para primeira noite de casados. Puxei o edredom e preparei a cama. — Você não se importa de dividir a cama comigo, não é? — resolvi perguntar caso ela não concordasse com isso. — Não. Estamos casados, né! Faz parte. — ela foi para o banheiro. Esperei a minha vez. Planejo tentar com ela sim. Sei que pode dar certo. Ela é a garota certa para mim, mas eu não quero forçar nada. Quero conquistar a Bárbara. Quero que ela se apaixone por mim assim como eu me apaixonei por ela. Ela saiu do banheiro e eu entrei. — Os seus tios ficaram bem felizes em te ver casando, né? — ela comentou. — Eles gostam de você. — comecei a escovar meus dentes. — Eles gostam muito é de você. Uma de suas tias até me ameaçou. — Sério? — perguntei com a escova na boca. — Sim. Disse que se eu fizesse qualquer coisa para te deixar triste, elas me matariam. Bem perturbador... — sua voz parecia risonha. Eu ri. — Meu pai e minha mãe também falaram isso sobre você. Se te vissem triste por minha causa... Dizem que vão me mandar para ficar na mesma cela que o meu irmão. Ela riu alto. — Após tanta ameaça... Teremos que ficar na linha. — Se depender de mim, nem precisa de ameaça. — fui bem claro. — Eu também não. — ela falou mais baixo. Eu sorri enquanto enxaguava a boca. Acredito que isso pode dar certo sim. E eu não deixarei ninguém atrapalhar a nossa história. Valeu a pena esperar. No fundo, eu já sabia que um dia ela seria minha e eu não precisei fazer nada para isso. Não precisei prejudicar ninguém, nem armar nada. Eu só segui a minha vida e esperei o universo nos juntar. Agora ela está na minha cama. Quando eu saí do banheiro, ela já estava dormindo. Como dorme tão rápido?
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