sem revisão
O bar era rústico. Agitado. As pessoas estavam animadas e de quebra, a música ao vivo era animada. Realmente era diferente de tudo o que Mariana já havia visto desde que foi morar na Espanha. O país é a sua segunda casa, adora interagir com as pessoas, conhecer gente nova, adora o seu trabalho. Mas sente falta de casa, se tiver que escolher entre uma paella e a maniçoba, a maniçoba ganha fácil. Está com saudades de casa, faz anos que não vai para casa, desde a pandemia. Desde que sua irmã escolheu os gêmeos ao invés dela.
"Uma cerveja." Pediu em espanhol para o barman. O homem alto cuja aparência lembrava de um viking serviu um copo grande da bebida. Era muito mais do que ela estava acostumada, mas estava cansada e com saudades de casa, com saudade da irmã e da sua terra natal, das comidas típicas, do calor e da sua cultura. Belém não era Madrid, de longe não tinha a qualidade de vida que ela tem ali, mas é o seu lar. Mesmo que tenha um sol para cada habitante.
Talvez, só talvez ela devesse deixar o orgulho de lado e ir para casa, estava com férias acumuladas e poderia passar alguns dias em casa para matar um pouco a saudade. Infelizmente, não via mais a sua vida longe de Madrid, conquistou muito para abrir mão assim da sua vida, mas ir para casa era um direito seu que a própria havia se negado por causa do seu preconceito bobo. Ela bebeu cerveja em dois tempos e pediu mais enquanto esperava seus colegas chegarem. A música era animada, as pessoas estavam cantando e dançando. Mari pediu uma terceira cerveja. Foi quando recebeu uma mensagem de Salma avisando que eles iriam atrasar.
Mari respirou fundo, fez de tudo para não chegar atrasada e agora estava levando um bolo dos amigos que provavelmente ficaram presos no escritório e não irão sair tão cedo. Sentiu-se frustrada, precisava de uma noite de diversão.
"Eu nunca pensei que a veria aqui" alguém disse chamando a atenção de Mariana, que olhou diretamente para o homem atrás do balcão, o reconhecendo. Seu coração acelerou com força como aconteceu a primeira vez que o viu na festa de natal da sua ex, aquilo não era bom, seu coração sempre teve a tendência de fazer escolhas ruins.
"O bar tem boas indicações e meus colegas de trabalho marcaram de beber aqui." Ela pegou sua cerveja e bebeu todo o líquido de uma única vez.
"Ei, vai com calma!" Juan pediu, tomando o copo de cerveja da sua mão. Mari não gostou daquilo, ninguém dizia o que ela deveria fazer, muito menos um homem. Tomou o copo das mãos do homem de cabelos negros e pediu para o outro barman encher novamente seu copo, mas no momento que o homem ia faze-lo, Juan balançou a cabeça negando, o barman devolveu a caneca para Mari e afastou-se.
"Ei, volta aqui, precisa encher o meu copo!" Ela reclamou furiosa por ter tido seu pedido negado.
"Qual é o seu problema?" Perguntou a Juan furiosa por ele acreditar que poderia tomar alguma decisão por ela, eles não eram nada, qualquer vínculo foi rompido na noite que Elena a traiu.
"Está sozinha, não vou permitir que beba até cair sem alguém para levá-la pra casa." O homem alto que exalava testosterona falou.
"Você não pode fazer isso!" Mari protestou.
"Posso sim, sou o dono do lugar e me reservo o direito de quem atender e você está sozinha, bem longe da sua casa e pelo seu tom de voz, já está alterada por causa do álcool." Juan foi irredutível e aquilo apenas deixou Mariana ainda mais irritada. m*l o conhecia e ele se achava no direito de tomar decisões por ela!
"Não estou alterada e posso provar" Ela falou decidida a não permitir que um homem ditasse o que ela deveria fazer.
Mariana levantou-se e foi para junto das pessoas que estavam dançando ao som animado da música ao vivo. Eles estavam cantando canções populares e divertidas. Batiam palmas, gritavam, giravam, e ela os acompanhou sem tirar os olhos de Juan que a acompanhava de longe, de braços cruzados com um sorriso sacana no rosto. Mari sentiu uma vontade enorme de arrancar aquele sorriso do seu rosto com as mãos, contudo, se conteve e continuou a curtir o momento. De vez em quando lançava uns olhares furtivos para o cunhado e quando finalmente ele deixou o balcão, ela rapidamente voltou para lá e pediu mais uma caneca grande de cerveja. O barman relutou mas no fim, acabou entregando uma caneca grande, Mari se sentiu vitoriosa, decidiu comemorar voltando para o meio da bagunça onde os clientes dançavam como se não tivessem problemas ou que trabalhar no dia seguinte…
Valério tinha uma cópia da chave do apartamento da irmã. Abriu o portão e entrou.
"Eu deveria ter ido com você" Júlio disse ao seu ouvido, ele conversava com o irmão por ligação, o fone intra-auricular no ouvido.
"E deixar Maria sozinha? Fora de cogitação!" Desde o ataque que ela sofreu dentro da antiga casa há cinco anos, os gêmeos não conseguiam deixar a esposa sozinha, eles temiam muito pela sua segurança apesar de não haver mais nenhum risco iminente para ela e a relação deles.
"Foi a própria que disse que eu deveria ter ido, ela acredita que nós dois possamos ter uma conversa decente com a pirralha." Julio explicou ao irmão, contudo, Valério duvidava que fosse possível. A pirralha tinha o dobro de teimosia da irmã, e têm o fato de que era extremamente agarrada com o pai, Camilo criou Mariana como se fosse sua filha caçula. Ela ainda via a relação deles com a irmã como uma traição à memória do homem que cresceu chamando de pai.
Subiu alguns degraus até finalmente chegar ao andar onde fica o apartamento da pirralha. Apertou a campainha. Também tinha a chave do apartamento da cunhada, afinal, foi ele quem comprou aquele imóvel quando decidiu fazer faculdade na Espanha. Valério acompanhou todo o processo de mudança e adaptação de Mariana na casa nova e no país, lembrava do quanto se sentiu orgulhoso da decisão que a irmãzinha havia tomado. Tão independente. Mas com tudo o que aconteceu, a independência dela se tornou um problema de comunicação entre ela e os irmãos. Mari tirou decisões precipitadas sem ao menos ouvi-los e sua esposa foi quem mais sofreu com a ausência da irmã. Apesar da fobia social de Maria estar sob controle há alguns anos, ela ainda não consegue passar horas dentro de um avião e isso a machuca de uma forma, porque de fato, ela queria ser capaz de ir até a irmã.
Não houve uma resposta, ele tornou a apertar a campainha de forma insistente. Valério sabia que a irmã ficava em casa pela manhã, e se certificou antes de ir ao seu encontro.
Finalmente a porta foi aberta e tal foi a surpresa de Valério ao se deparar com um homem mais alto que ele, vestindo apenas uma calça jeans e cabelo bagunçado. Algo não estava certo e por impulso, seu punho o atingiu sem pensar duas vezes, pegando o homem de surpresa. Que caiu e m*l teve tempo de reagir e Valério estava em cima dele, com as mãos em seu pescoço.
"O que fez a minha irmã?" Valério perguntou furioso…