Sem revisão
Mariana acordou com uma dor de cabeça terrível. Parecia que havia sido atropelada por um caminhão, que ainda passou por cima dela diversas vezes. m*l sabia onde estava, com quem estava e o que a levou a beber até não conseguir se manter de pé e pensar com clareza. Ela conhecia seu corpo muito bem para saber que algo havia acontecido para maltratá-lo daquele jeito tão rude.
“Café?”, A jovem mulher deu um pulo ao reconhecer a voz do homem que fez aquela pergunta.O sorriso de Juan a fez esquecer o que a levou até ali. O coração de Mariana saltitou, e ela se viu em um turbilhão de emoções. Como podia se sentir daquele jeito sempre que estava em sua presença? Ignorou a pergunta do homem e olhou ao redor. Aquela não era a sua sala. Onde estava? Se sentia confusa e perdida, tentando lembrar o que a levou àquele lugar, àquele momento. E então, de súbito, lembrou-se da irmã e de quão c***l foi com a pessoa que mais amou em sua vida.
A culpa a invadiu como um tsunami. As p************s que proferiu, a indiferença que demonstrou, tudo voltou à tona. Como pôde ser tão insensível? A dor da irmã era evidente, e ela, em vez de consolá-la, a magoou ainda mais.
O sorriso de Juan se apagou, e ele a observou com preocupação, sabia que algo havia acontecido, algo muito grave para que fosse parar no seu bar e beber até cair, de novo.
Mariana se levantou, cambaleando, e se dirigiu à porta. Precisava ir embora, precisava se afastar de tudo e de todos.
“Eu preciso encontrar meus irmãos”, sentiu náuseas ao lembrar que havia fugido no meio da noite, enquanto Júlio e Valério dormiam. Estava furiosa, sentindo-se sufocada, confusa, perdida. Tudo o que Valério contou foi difícil de assimilar e ainda foi c***l com a irmã. Sequer falou com Júlio, estava trancada no quarto quando ele chegou. Ele não estava nada animado quando bateu à sua porta e ela fingiu estar dormindo. Os escutou cochichar por um bom tempo até que só restou o silêncio no seu apartamento. Por sorte, Valério havia deixado a chave no porta chaves. O irmão deve ter pensado que ela sairia mais. Estava errado, infelizmente. Agora, ela estava arrependida por ter sido novamente impulsiva.
"Mariana, você está em condições de ir?” Juan perguntou preocupado.
Mariana não tinha certeza, a única certeza que tinha era que a culpa a consumia, e ela não sabia como se livrar dela.
Levou a mão à cabeça que latejava e depois acima do coração que pesava. Os gatilhos despertados com a conversa que teve com Valério tiveram consequências em sua mente perturbada. Despertou lembranças que estavam guardadas bem no fundo da sua mente. Desperta-las foi demais, por cinco anos havia agido como uma maldita ingrata com a irmã, foi c***l, disse coisas terríveis e a abandonou, quando pela primeira vez, ela havia se permitido viver algo sem medo. Mesmo que fosse contra aquele relacionamento estranho, deveria ter sido mais condescendente com a irmã e jamais deveria ter saído do seu lado.
“Mariana?” Juan tornou a chamá-la. Sua voz rouca e sexy fizeram todo seu corpo se arrepiar. Aquilo era outra coisa que incomodava, odiava os homens, com todo o seu ser, então porque aquele em específico estava despertando emoções e sensações até outrora que sentia apenas por mulheres? Mas com mais força.
“Eu realmente preciso ir pra casa, meus irmãos devem estar preocupados com o meu sumiço.” Disse parada de frente para a porta do apartamento que era menor que o seu.
“Eles podem esperar um pouco enquanto recupera um pouco da sua dignidade. E antes que seja grossa e diga que a sua vida não é da minha conta. Deve dizer que estou preocupado com você, não é a primeira vez que bebe sem pensar nas consequências, com essa é a terceira vez. É perigoso, nem sempre vai ter alguém por perto para te ajudar, pelo menos não com boas intenções.”
Mariana sabia que o homem tinha razão. Mas jamais admitiria, pois fazê-lo seria abrir uma brecha para que ele fizesse parte da sua vida e já havia homens demais fazendo parte dela. Sem mencionar que sequer poderiam ser amigos, ele era o irmão da sua ex, aquela filha da put@ que a traiu na festa de natal da própria família.
“Obrigada, pela sua ajuda. De verdade, mas tem razão, minha vida não é da sua conta, se isso voltar a acontecer, pode fingir que não existo.” E sem pensar duas vezes, abriu a porta e saiu do apartamento sem olhar para trás…
Mariana abriu a porta e o aroma do café invadiu seus sentidos, mas não trouxe o conforto de costume. O silêncio no apartamento era denso, carregado pela presença invisível de Júlio e Valério. Ela sabia que a conta da sua impulsividade chegaria, e o preço seria encarar a verdade que tentou enterrar por cinco anos. Antes de dar o próximo passo, olhou para o celular. Uma parte de si queria ligar para Maria e apenas chorar, pedir perdão por cada palavra ácida. Mas o orgulho, aquele velho e amargo companheiro, ainda mantinha sua mão longe do ícone de chamada.
Enquanto isso, do outro lado do oceano, o sol nascia em Belém com uma indiferença c***l.
Maria despertou com a claridade, mas não sentiu o peso reconfortante que a acompanhara durante a noite. O braço estava estendido, a mão ainda curvada na posição em que acariciara os pelos de Sirius. Mas o calor havia partido.
O corpo do seu fiel amigo estava frio. Sirius, que lutara bravamente em uma clínica veterinária apenas para ter o direito de morrer em seu lar, cumprira sua última missão: ele não a deixou enfrentar a escuridão sozinha. Agora, no silêncio do quarto, Maria percebeu que a morte de Sirius levava consigo o último pedaço da paz que ela construíra.
Ela abraçou o corpo inerte do cão e soltou um grito que não era apenas por ele. Era pela irmã que a odiava, pelos maridos que a pressionavam e pela menina que, anos atrás, só queria ter sido protegida.
O amor que as unia estava por um fio, e naquele amanhecer, Maria sentiu que, se não fizesse algo, aquele fio finalmente se partiria.