sem revisão
Maria sentou-se ao lado de Sirius que lhe recebeu com um ganido fraco em reconhecimento. Seus olhos encheram-se de lágrimas ao ver que seu bebe estava debilitado. Depois da medicação que tomou ter surtido efeito, ela reuniu a força necessária para entrar na clínica.
"Pensei que ele tivesse tido uma melhora" Maria disse com o coração em aflição.
O veterinário que mantinha uma distância segura da tutora do seu paciente sorriu ao saber que acalmaria aquela alma tão aflita.
"E ele teve, a chamei para avisar que hoje esse pequeno manhoso está recebendo alta."
Maria olhou para o homem sem entender, depois voltou a olhar para o seu cãozinho.
"Seu pequeno safado!" Exclamou aliviada e não pode conter o riso quando ele levou as patinhas no focinho, e envergonhado. Ele estava sendo manhoso, para alívio de Maria. Sentiu pequenas gotas de água rolar por seu rosto ao receber ao menos uma boa notícia, agora, esperava também receber notícias da sua irmãzinha, esperava de coração que seus maridos a convencesse a voltar para casa, era nítido que ela estava precisando de ajuda, que não estava bem e que precisava ficar ao lado da família para receber todo o apoio necessário para sua melhora. Foram muitos anos reprimindo as dores que a sufocava e atormentam…
Valério estava há duas horas exatas dando bronca em Mariana. desde o momento que ela passou pela porta do seu apartamento ele a jogou no sofá começou a falar, estava furioso por ter sido dopado, furioso por mais uma vez ela agir com irresponsabilidade e beber ao ponto de deixar sua esposa tão preocupada que mandou Julio para a Espanha sob ameaça de pôr um fim ao casamento deles caso ele se recusasse. Já bastava estarem passando por uma pequena crise envolvendo a questão da paternidade, agora estavam com o relacionamento ameaçado por causa de uma fedelha de quase trinta anos que não sabia agir como uma adulta.
"Posso explicar?" Mari perguntou num bocejo.
"NÃO!" Valério gritou enfurecido, não tinha mais idade e paciência para crises de uma mulher que não admitia que precisava de ajuda e ficava agindo como uma adolescente rebelde. Mariana na verdade estava tendo uma crise de rebeldia tardia pois quando adolescente era um amor de pessoa. Mas agora, tanto ele quanto Júlio queria esgana-la até que voltasse o seu juízo.
"Onde passou a noite?" Valério perguntou, seu tom deixando claro que não estava com paciência para suas respostas malcriadas.
"Na casa do Juan" Mari respondeu sem baixar a cabeça. Duas horas ouvindo em silêncio era demais. Ela estava na sua casa, era uma adulta que paga suas contas e…
"Sua irmã teve uma crise, por sua causa. E responde tranquilamente "na casa do Juan", ela viu um homem desconhecido com a irmãzinha dela. Maria simplesmente surtou, quando o Júlio chegar, é bom que esteja com suas malas prontas. Você vai voltar para casa com a gente." Valério avisou.
Mariana ia retrucar, gritar, espernear, mas as palavras "sua irmã teve uma crise por sua causa" a deixaram sem chão. Valério havia dito que fazia tempo que a irmã não tinha uma crise pesada e agora, por sua causa… segurou as lágrimas que se formaram em seus olhos.
"Ligue para o seu trabalho e diga que por motivos pessoais vai voltar para o Brasil sem previsão de retorno. Se quer agir como criança, vamos tratá-la como criança." Dito isso, Valério a deixou na sala, indo para o quarto de hóspedes.
Mariana se encolheu no sofá, agarrada aos joelhos e chorou baixinho…
Valério a deixou trancada. Ele saiu para buscar Júlio no aeroporto. Era demais lidar com um irmão, agora com dois, seria impossível. Sabia que errou, que passou dos limites. Mas eles não tinham o direito de tomar decisões por ela, como se fosse uma pessoa incapaz de cuidar de si mesma. Estava furiosa, precisava colocar aquela raiva que estava sentindo fora.
"Oi" o rosto da irmã surgiu na tela do celular segundos depois de iniciar a chamada de vídeo. Um sorriso de alívio surgiu em seu rosto ao ver que Mari estava bem e segura em casa. "Como está se sentindo?" Maria perguntou abraçada ao cãozinho de três patas que adotou há alguns anos.
"Eu te amo" Mari disse friamente. O seu tom deixou a irmã em alerta.
"Eu também te amo." Maria retorquiu com cautela.
"Eu sei, mas isso não te dá o direito de mandar seus homens virem aqui na minha casa e bagunçar a minha vida. Na verdade, você não tinha o direito de bagunçar a nossa vida. Tínhamos planos e você os deixou de lado por causa de duas rolas." Mari estava magoada e queria magoar a irmã, mesmo sabendo que tudo o que Maria queria era o seu bem.
"Mari" Maria sussurrou com pesar, pensava que finalmente estava voltando a se entender. " Eu só quero o seu bem."
Mariana riu, uma risada de escárnio.
"Não, você só quer o seu bem. Na verdade, você diz se importar comigo, mas tudo sempre foi sobre você. A pobre coitada que não consegue ficar perto de homens porque o papai a machucou. Ele também me machucou e ninguém se preocupou em cuidar de mim. Ele também passava as mãos sujas no meu corpo enquanto eu fingia dormir. Ele enfiou aquele maldito dedo imundo quando eu era apenas uma criança, mas todos sempre se importam com o seu trauma. Sempre se importam com a pobre coitada delicada que não consegue ir na porta de casa sem ter um ataque de pânico." O coração de Mariana sangrava, estava sendo dura, tinha consciência, mas estava tão chateada que não conseguia parar, machucar a irmã era a única forma de atingir os irmãos. Estava sendo tão injusta. Tão injusta. Mas só queria que eles fossem embora e a deixassem em paz. Ela só queria voltar a sua vida vazia sem saber de tudo o que os irmãos passaram e ter mais essa carga de culpa em suas costas.
" Eu fiz o que pude pra protegê-la" Maria disse baixinho em sua defesa.
" Se tornou a p**a particular dele, eu sei e pelo jeito vou ter que passar o resto da vida pagando por você chupar a rola dele no meu lugar." Mariana fechou os olhos quando a imagem da irmã sumiu da tela. Maria encerrou a ligação. Ela ligaria para os maridos e eles não pensariam duas vezes em voltar para casa, para a mulher deles. Era melhor assim, seus irmãos estavam melhores sem ela. Ela estava melhor sem eles. Ela precisava beber para esquecer o que a atrocidade que acabou de fazer…